sobre pais lgbtfóbicos

em todos os meus encontros com outras lgbts (“românticos” ou não), é de praxe que a conversa dentro de uns 15 minutos já entre no assunto “pais e lgbtfobia”. vivo numa bolha jovial universitária classe média/alta, então a maioria das lgbts que conheço ainda convivem com os pais, sendo sustentadas por eles de uma forma ou outra. em alguns lares percebo que há maior tolerância e, em outros, chega a haver respeito pela identidade das minhas amigas e conhecidas. o fato é que a juventude lgbt é órfã desde o berço e precisamos discutir este abandono afetivo.

eu venho de um lar evangélico neopentecostal/fundamentalista. com pais da igreja universal, ser lgbt pra mim sempre foi um fardo. conforme fui me descobrindo, o peso de ter uma doença e um demônio me possuindo foi sendo aliviado ao passo que encontrava pessoas que me acolheram. essas são amizades que me salvaram quando eu me via extremamente sozinho. eu não podia falar sobre minha sexualidade com minha família por conta do tabu e da demonização, tampouco com meus amigos por não saber se eram preconceituosos e como eles lidariam. no fim das contas, os 2 primeiros anos da minha adolescência foram uma grande luta interna. me via extremamente sozinho constantemente, e não vislumbrava possibilidades afetivas. todos os outros meninos e meninas ao meu redor já se relacionavam amorosamente e eu não entendia por que razão aquelas experiências não me cabiam.

o ensino médio foi um fardo. a escola não debatia a questão lgbt e me via alvo de ataques homofóbicos de vários meninos mais velhos. isso com 13 a 15 anos e indo a igreja toda semana vendo pessoas lgbts tendo seus desejos exorcisados. no 3º ano, me assumi para mim mesmo, algumas amigas mais próximas e gradualmente se tornou algo público. foi um momento magnífico de catarse; não havia mais segredos e passei a ter minhas primeiras experiências sexuais e amorosas, que jamais tinha imaginado que seriam possíveis. entretanto, por um descuido e outro, minha mãe acabou descobrindo minha sexualidade e daí em diante se travou uma guerra dentro da minha casa.

destruí todos os valores com os quais fui criado e me vi criando novas narrativas e possibilidades de existência. as mudanças por que eu estava passando eram gritantes e minha mãe percebia isso, o que levou a inúmeras brigas e, no fim, eu me assumi para ela. e viver na minha casa passou a ser um inferno. o ódio no olhar da minha mãe toda vez que se esbarrava comigo dentro da própria casa pelos meses subsequentes. as mentiras contadas dos dois lados para meu pai e o resto da família não saber de nada. as mudanças e distanciamentos que precisei fazer no meu círculo de amizades. os pactos invisíveis de silêncio dentro de casa e a sensação de ser refém. ver toda semana minha mãe chorando por conta de mim e saber que eu sou causa do sofrimento dela. adoeci, fui internado 5x no hospital nesse ano com doenças ligadas a estresse e baixa imunidade. somado ao vestibular e tantos outros dramas adolescentes, foi um caos.

hoje a situação com minha mãe melhorou muito, por esforços dos dois lados. muita conversa, paciência e fé na cura pelo amor. e sou muito grato por isso. ainda lido diariamente com algumas questões e sei que elas serão resolvidas, afinal já passei por piores. no entanto, uma vez ou outra perdida, todos os sentimentos engolidos e traumas desenvolvidos nesse meio tempo explodem. viver com sentimentos de perseguição e ódio sendo tão jovem – e por ser quem você é – cria um buraco na sua cabeça e alma que você não sabe como preencher. drogas, terapia, afetos efêmeros, sexo casual, sobrecarga de trabalhos, festas. aparentemente nada me apareceu até agora que consiga suprir o desespero que é não ter sido aceito pelos seus pais. e dói.

a sensação de ser um fardo me acompanha desde o primeiro momento em que me assumi para a minha mãe e tive que ver ela caindo aos prantos. ter a noção de que muitos traumas e sofrimentos que ela carrega têm origem em mim é desesperador. não conseguir ser o que ela tanto esperava e não poder “honrar” toda a energia depositada na minha criação é desesperador. perceber o quanto minha vida tem sido influenciada por tanta rejeição é desesperador.

o drama familiar e o ambiente opressivo criado por um pai extremamente patriarcal e lgbtfóbico me fizeram desenvolver ansiedades e inseguranças, que por sua vez não me permitiram abraçar oportunidades talvez únicas. seja por não saber como meus pais encarariam alguma decisão minha, seja pela necessidade de recusar uma proposta/pensamento por autoproteção, a perda das jovens lgbts não se resume ao campo emocional. penso em todo o potencial que a juventude lgbt possui e é suprimido por conta da estrutura lgbtfóbica. é cansativo ver repetitivamente os privilégios de pessoas cishetero que sequer imaginam a proporção do abandono afetivo e da solidão lgbt. não saberia dizer quantas vezes senti raiva de ver pessoas dentro da cisheteronorma ocupando espaços institucionais plenamente e esbanjando confiança – por exemplo, na faculdade e mundo jurídico.

sofremos diariamente por não termos tido ambientes exemplares de amor e afeto. vivemos nas nossas relações amorosas o peso de não saber lidar com a rejeição da/o outra/o e ter medo constante de ser abandonada. e, sobretudo, temos medo de desenvolver aquilo que nos machucou por tanto tempo: a relação abusiva dos nossos pais. receio construir relacionamentos e acabar em situações que não queria estar, justamente pela bagagem emocional confusa e por não saber ainda como lidar.

então que criemos novas relações familiares, fora das normas patriarcais que nos impuseram. que encontremos cura e possibilidades de existência e afetividade entre as nossas. que possamos caminhar juntas na luta contra a lgbtfobia em nossos lares. família não está no sangue, mas na alma.

sei que preciso ser quem sou, pois não há outra alternativa além dessa por mais que eu tente achar.

é uma quarta-feira à noite e tenho uma lista de afazeres. deveria estar lendo um texto para uma atividade da faculdade amanhã e escrevendo sobre ele. mas hoje passei o dia deprimido dormindo e tudo que eu consegui escrever foi sobre dor.