O ESCURO RETORNO À BAKER STREET
I
- Holmes?…Holmes?…HOLMES!!!
Saltei de súbito com o grito de John Watson, quase batendo minha cabeça no vidro do banco traseiro do táxi.
- Mas que diabos, John!
- Você ainda está nesse mundo? — perguntou John com sarcasmo.
Confesso que estava absorvido em meus pensamentos, de olhos fechados, com a mão apoiando o rosto. Não prestava atenção no caminho ou no que John falava. Filtro muita coisa.
- Já sei, se recolheu em seu palácio mental. O que era, dessa vez?
- Gastei dois anos no Leste Europeu desmantelando a rede de Moriarty. Há muito no que pensar.
Faltavam duas ruas para chegarmos à Baker Street, no número 221-B, precisamente. O equilíbrio retornava ao universo.
Chegamos, enfim. Desci do táxi apressadamente, deixando John para trás pagando a corrida. Ele me alcançou quando eu estava parado junto à porta preta com a inscrição “221-B” e o batedor dourado, que eu observava esboçando um ligeiro sorriso. A fachada permanecia a mesma.
Abri a porta. À nossa frente, o pavimento inferior escuro mostrava a escada que levava ao andar de cima. No andar onde estávamos, Mrs. Hudson saiu de seu apartamento com sua peculiar — mas não menos costumeira — corrida a passos curtos com pequenos pulos intercalados, juntando as mãos junto ao queixo:
- Vocês voltaram! O apartamento está da mesma forma quando o Sherlock…
Eu sabia o que ela iria dizer. Não podia ser diferente, já que tive que fingir a minha morte por dois anos para seguir no encalço dos associados de Jim Moriarty no leste Europeu. Assim mesmo, sorri cordialmente e subi as escadas.
O apartamento estava da mesma forma como o deixamos no dia do confronto final com Moriarty. O frio, a escuridão, a poeira, os móveis no mesmo lugar. As duas poltronas ainda viradas de frente uma para a outra. Os livros bagunçados, o papel de parede velho e rasgado, o grande sofá de couro gasto dos anos quarenta. Isso era reconfortante, Se algo estivesse fora de seu lugar o Reino da Inglaterra desmoronaria.
Contudo, havia algo diferente, mais que um detalhe que deixamos quando saímos. Era uma figura magra, de estatura média e cabelos grisalhos, que aguardava em pé, agitado, entre as poltronas. A mesma cara de bobo, sem qualquer traço de inteligência. Éramos esperados. John chegou logo em seguida, reconhecendo nossa companhia. Era Gregory Lestrade, o inspetor da Scotland Yard.
- Holmes, bradou ele, passando a mão pela boca, de forma nervosa, tentando enxugar uma saliva que não existia. — Bem-vindo do mundo dos mortos!
- Se queria me dar as boas-vindas, uma mensagem de texto bastaria. Ou um telegrama, já que você sempre age como se estivéssemos no século passado.
- É bom vê-lo Lestrade. Vejo que está com os nervos em frangalhos — disse John, tentando bancar o observador.
- Acho que tem algo que gostaria de ver, Holmes. — Lestrade lançou uma pasta de arquivo às minhas mãos. Abri e vi uma foto colorida — na verdade, o tom sinistro do vermelho- sangue espalhado saltava aos olhos. Era uma mulher jovem, vestida de jeans e blusa longa, caída de bruços com múltiplas fraturas. O braço direito, totalmente deslocado acima da cabeça esmagada contrapunha o braço esquerdo, que da mesma forma agoniante repousava quebrado e deslocado, com a palma da mão voltada para cima, na altura da coxa. As pernas, bizarramente cruzadas na forma do número quatro, mostravam mais fraturas que a parte superior do corpo. A cabeça rachada em no mínimo três lugares, onde os olhos abertos e apagados saltavam da caixa craniana, com muito sangue.
- Lestrade, se acha que tenho tempo para ninharias deveria ter mandado o maldito telegrama de boas-vindas e ficado em casa. Está claro que a mulher da foto cometeu suicídio, pulando de uma altura considerável até que a gravidade cumprisse seu papel.
- Espere…é óbvio demais até para ele — disse Watson, fitando os olhos no inspetor, agora mais tenso do que antes.
- Sim, já descartamos o suicídio — Lestrade disse meio afônico, com a voz falhando, limpando novamente a boca — O corpo foi encontrado no fosso do elevador do prédio onde a mulher morava…
- Analisaram tudo? — interrompi de imediato o inspetor mongol. Eu queria acabar com isso logo — Conferiram a imagem das câmeras de segurança?
- Não havia câmeras no prédio, nem no elevador… são construções muito antigas — explicou o inspetor.
- Havia escoriações ou hematomas que indicassem estrangulamento, sufocamento ou que tivesse sido imobilizada antes de cair?
- Não…eh…ich…
- Mas por Deus! Desenrole, Lestrade!
- É que não parece ser uma mulher que tivesse motivos ou inclinações ao suicídio.
- E, por que acha? A conhecia?
- Bom, acho que milhares de londrinos…ela era colunista no jornal The London Post e em um site famoso, com abrangência em todo o Reino Unido. Seu nome era Rose Theodore Wish, filha do general Robert Wish. Ganhou notoriedade por escrever artigos condenando o envio das tropas ao Afeganistão, apesar do pai ter comandado pessoalmente a atividade militar no local.
- Ah, eu adoro esse jornal! Acompanho todos os dias as fofocas da família real! — Disse Mrs. Hudson, entrando sorrateiramente no apartamento como que se eu já não a tivesse notado, escutando na escada. — Vou fazer chá! — ofereceu ela.
- Café puro sem nenhum açúcar — eu gritei — Faz dois anos que só tomo café puro.
- Olhei para John para lançar um olhar de desprezo pelos trejeitos de nossa governanta, mas ele olhava fixo para do papel de parede rasgado acima do sofá.
- Você sempre diz que os detalhes mais triviais não devem ser descartados… e que investigar um caso menos relevante pode aguçar os sentidos para um caso mais complexo… — John tentava me convencer.
- E mais…- interrompeu o inspetor — achamos na mesa da moça um testamento no qual ela receberia 25 milhões de libras, títulos públicos e da coroa quando completasse 25 anos…quem mais se mataria às vésperas de ficar milionária?
- John me fitou levantando a sobrancelha. Entendi onde ele queria chegar. Ele estava com tédio, precisava sentir outra vez a emoção da caçada, o sangue quente correndo rápido pelas veias…uma aventura de crime, mistério e caos. Eu devia isso a ele, já que havia desaparecido por dois anos e publicamente dado como morto.
- Tudo bem Lestrade, apenas pare de falar. Nos leve à cena do crime.
- O Jogo começou — eu disse quando passei por John, pegando meu sobretudo e saindo em direção à porta.
II
Em 30 minutos o táxi havia nos deixado no prédio onde o corpo havia sido encontrado. A equipe da Scotland Yard estava no local, fazendo os últimos trabalhos. É claro, sobre mim foram lançados todos os olhares raivosos quando passei por baixo da faixa de isolamento e entrei na direção do fosso do elevador, acompanhado por John e Lestrade.
- Deixem-nos — gritou o inspetor para os seus subordinados, que saíram contrariados. Era engraçado ver Lestrade tentar conquistar respeito, com aquela cara de quasímodo.
Fui até o corpo. John se agachou ao lado da mulher, para observar também. Ela estava na mesma posição que eu tinha visto na foto. Múltiplas fraturas, é claro, a queda deve ter sido grande. Olhei em volta, o fosso havia sido construído no século passado. Era um prédio antigo, desses com elevadores de portão. Certamente escapou da vistoria da prefeitura, por isso nem tinha sensores ou câmeras.
Voltei a me concentrar no cadáver. Nenhum sinal de agressão que pudesse ser prévio à queda. Os cabelos loiros caíam sobre a cabeça dela. Os olhos azuis abertos e saltados por causa da queda e o maxilar deslocado.
As roupas nada tinham de diferente. À exceção das meias. A da direita era azul e a da esquerda era branca. Esbocei um sorriso e apontei para que John visse. Lestrade me observava com uma curiosidade aguçada, tentando entender minha linha dedutiva.
- Não pode ser moda? — perguntou o inspetor, mudando de idéia quando o fulminei com um olhar ameaçador para que calasse a boca. John riu.
Retirei uma pequena lupa retrátil do meu bolso. Observei as solas dos tênis, que não tinham muito sinal de desgaste. Peguei meu celular e fiz uma rápida consulta num aplicativo de compras. Aqueles tênis já tinham saído do mercado há uns dois anos, substituídos pelos modelos novos.
Levantei a blusa do cadáver para checar se haviam sinais de empurrão nas costas, mas também não havia nada. Tudo parecia mesmo indicar se tratar de suicídio, não fosse a ausência de motivação.
Fomos para o apartamento dela.
- Foi reformado há dois anos, segundo nos disse o zelador — Lestrade disse.
Era um lugar espaçoso e com móveis simples, distantes uns dos outros. Uma grande estante cobria toda a parede, com muitos livros grossos, da mesma altura. Haviam clássicos da literatura inglesa. Na outra parede estava uma mesa com duas pilhas de papéis arrumados. No meio da sala haviam dois sofás grandes e uma poltrona, sem almofadas.
Fui até a mesa. Uma pilha de papéis ainda em branco e outra com documentos assinados. O terceiro deles era o testamento que dava a glória da conclusão do atrapalhado Lestrade. Ela seria milionária em menos de um ano.
No final da pilha, encontrei assinaturas em cores diferentes: azul e preto. A caligrafia era composta de letras menores, bem próximas. Atrás de uma das folhas também haviam rabiscos à caneta, com cores variadas.
As canetas tinteiro estavam no canto direito da mesa, em um suporte junto às tintas. Ela era metódica e tinha seu próprio estilo.
Fora isso, tanto a mesa quanto o resto do apartamento pareciam seguir um padrão incomum de organização. Móveis distantes, nem tão limpos, mas dispostos um em frente ao outro. No piso de madeira não haviam sinais de arranhões ou marcas mais claras. Os móveis nunca saíram do lugar.
O apartamento parecia ter sido reformado recentemente. Havia apenas um lustre no teto e duas lâmpadas laterais. Fui até o interruptor para acendê-los. O botão estava rígido, soltando um estrondoso “cleck!” quando apertei.
Fui até o quarto dela, no cômodo ao lado. Havia uma cama grande, um armário e uma cômoda com vários perfumes em cima, de marcas diferentes. Cada um deles tinha um adesivo de borracha, em alto relevo, de forma diferente do outro: um com estrela, outro com um quadrado, um triângulo…
No armário, as roupas estavam dispostas de forma diferentes. Não havia nenhum padrão, a não ser uma confusão de perfumes. Parece que as roupas guardavam o cheiro daqueles perfumes misturados. Quando cheirei algumas peças, percebi que cada uma continha um perfume diferente.
Não havia mais nada ali. Retornei para a sala. John e Lestrade estavam em pé, acompanhados por um homem mais velho, que aparentava ter uns 60 anos. Era alto, esguio, com a barba feita e cabelo curto nas laterais. Sapatos engraxados e lustrosos, um terno que apesar de bem maior que suas medidas estava limpo e abotoado em até a segunda casa. Não restava dúvidas: era o nosso general.
- Sherlock, permita-me apresentar o General Wish, pai de Rose.
- Apertei a mão do general. Apesar do esperado pulso firme, estavam frias e suadas. Ele estava nervoso, óbvio, havia perdido sua filha. Ou estava escondendo algo…
- Mr. Holmes — me disse ele, com toda a formalidade marcial mas com a voz embargada — quero lhe agradecer por sua ajuda junto ao inspetor Lestrade. Mas acho que o caso já está bem encaminhado e pronto para se encerrar, não é? Parece que minha única filha decidiu dar cabo da própria vida…
- Ao contrário — eu respondi — o caso está longe de acabar. Parece que depois de tantos anos no campo a Scotland Yard acertou enfim uma tacada — olhei para Lestrade.
- Quer dizer que discorda do suícidio? — o general empalideceu.
- Talvez. Mas agora, me conte sobre o seu outro filho, o irmão de Rose.
- Como sabe que tenho um filho??? Eu não disse nada.
- Claro que sim. O sr. disse “minha única filha”, o que me levou a crer que houvesse mais um filho homem. Do contrário, diria “minha filha única”.
Pelo canto dos olhos percebi que Lestrade estava com uma interrogação no rosto, ainda processando uma obviedade tão trivial.
- Bom, meu outro filho…- o general começou — mora comigo. Ele sofre de transtornos mentais, vive tendo alucinações. Não pode sair de casa.
- Desde quando? — perguntou John, tentando utilizar sua percepção médica.
- Desde pequeno. Minha esposa faleceu quando deu a luz à ele, quatro anos após Rose.
- Ela era a herdeira da fortuna que Rose ia receber? — Perguntei.
- Sim, caso ela viesse a falecer Rose herdaria tudo aos 25 anos — respondeu friamente.
O General pareceu desconcertado e aos poucos, muito tenso. John, que já tinha me seguido em inúmeras investigações, estava com dificuldades de juntar as peças do tabuleiro. Já Lestrade, não tinha a percepção maior que um galo escocês.
- Creio que precisamos ir — respondi me dirigindo à porta — Acho que Mrs. Hudson já deve ter terminado aquele café, já que as vezes é lenta à sua própria maneira. Preciso de estimulantes.
III
Haviam se passado três dias. Eu estava Baker Street, sentado, de olhos fechados. Eu apoiava minha cabeça na mão direita, com dois dedos sobre minha fronte e o polegar no queixo, apoiando o cotovelo no braço da poltrona. Podia ficar assim por horas seguidas, absorvido em minha mente. Na outra mão, tinha uma edição impressa do The London Post, onde Rose Escrevia.
Ouvi John entrar.
- Então, o que perdi? — entrou ele meio que anunciando a si mesmo, para me tirar do estupor.
- Nem percebi que tinha saído — respondi, sem abrir os olhos, para desafiá-lo.
Mrs. Hudson entrou anunciando o atrapalhado Lestrade, que após um curto cumprimento, pôs -se a falar apressadamente:
- E então Sherlock? Já estivemos lá há dias. O General acha que vamos arquivar, já que não estamos fazendo nada.
- Ótimo, essa era a intenção — expliquei.
Me levantei de salto e joguei o jornal para Watson, dando sinal para que mostrasse também a Lestrade. Fui buscar uma longa caneca de café.
- Este é o último artigo que ela escreveu? Perguntou John.
- Sim. Notadamente criticando as atividades militares da Inglaterra, para atingir o pai.
- Isso já sabíamos — disse Lestrade.
- Comparei este artigo com todos os últimos trinta — apontei para muitos jornais antigos jogados no chão, atrás da poltrona, em cima da mesa e espalhados sobre o sofá.
- E então? — Lestrade estava afoito.
- Há um padrão, óbviamente — expliquei — Todo artigo é construído com 50 parágrafos de 8 linhas cada. Ela é metódica, obsessiva e compulsiva.
- E o que isso quer dizer? — Lestrade estava cada vez mais ansioso.
- Quer dizer que vamos ao dentista.
- O que? — agora os dois sobressaltaram.
- Vamos, eu explico no caminho — me levantei para pegar meu sobretudo. Já estava pronto para sair, quando cheguei próximo ao John e disse em voz baixa: — Leve sua arma.
Chegamos a um prédio ao leste do centro, em Gates Street, 136, e subimos pelas escadas ao segundo andar. Era um prédio comercial e residencial, com escritórios e consultórios misturados aos apartamentos. O lugar caía aos pedaços.
Entramos em um consultório, não em melhores condições que o resto do prédio.
Fui até a recepcionista.
- Eu liguei ontem. Estou acompanhando nosso amigo que vai se consultar. Termos um horário marcado em nome de Gregory Lestrade — e apontei para o inspetor que estava em notável pânico e tremendo.
- O QUÊ???!!!! Lestrade parecia estar amarrado em trilhos aguardando um trem na contra-mão.
Rindo, olhei para o John que já caia em uma gargalhada. Há tempos eu já tinha concluído que Lestrade tinha fobia de dentistas. No bolso interno do paletó ele carregava fortes analgésicos, que tomava com outra pílula que tirava de um frasco laranja. Não consegui ver o frasco inteiro, mas certa vez vi “xilocaína” na lateral do rótulo, um aviso para possíveis alérgicos. E quem prefere tomar remédio todos os dias ao invés de obturar um dente? Até John percebia isso.
Sentamos na sala de espera. Lestrade, à esquerda de John, estava aguardando no corredor da morte, desolado.
- Por mais que seja divertido, o que estamos fazendo aqui? Me perguntou John.
- Bom, você sabe que às vezes me divirto invadindo bancos de dados do governo. As vezes faço durante o café da manhã, para evitar o tédio. Pois bem, ontem tive curiosidade em descobrir onde moraria o General Wish, um servidor que tanto bem fez a Vossa Majestade. Pelo padrão das roupas, imaginei que ele não tivesse condições de morar em um lugar de luxo, o que torna mais estranho, já que dinheiro não deveria ser problema para um oficial de alto escalão reformado.
- E então — continuei — encontrei o endereço e ao pesquisar o prédio descobri esse consultório, que fica embaixo do apartamento dele — fiz um sinal com a cabeça, para o teto -. Precisando de um lugar para nos colocar de tocaia e o pavor de nosso caro inspetor, me apareceu a janela de oportunidade perfeita. Esperar enquanto podemos nos divertir.
Lestrade, sentado de lado quase em posição fetal, suando frio, olhou para nós no meio de sua tensão. Rimos alto.
- Gregory Lestrade!!! — gritou a atendente — sua vez!
Lestrade saiu parecendo carregar o peso do mundo nas costas. Arcado, com as pernas duras, em pânico. Olhou pra nós como quem está indo para a cadeira elétrica.
Enquanto esperávamos a execução de Lestrade, fiquei em silêncio, próximo da porta. Qualquer barulho no andar de cima poderia nos dizer algo mais sobre os hábitos do General, que agora deveria estar em casa sofrendo o luto pela filha.
Uma certa agitação começou a tomar volume. Vozes e gritos do andar de cima. A recepcionista revirou os olhos e colocou os fones de ouvido. Parecia já ter visto isto antes. Gritos altos, cada vez mais frequentes, pareciam tomar forma somados ao barulho de batidas nas paredes.
Instintivamente, abri a porta da sala do dentista. Greg Lestrade estava deitado quase desfalecido, enquanto o dentista testava a broca do obturador, segundos antes de começar a perfurar os seus molares.
- Greg! — gritei — agora! — e saí de lá correndo.
Nunca vi Lestrade em tamanha alegria e energia. Saiu correndo como que resgatado da mãos de piratas que o faziam andar na prancha, ou como se as armas do pelotão de fuzilamento tivessem falhado. Salvo no último segundo.
- Corremos subindo pelas escadas. No caminho, saquei minha arma, uma Glock .45 que cabia confortavelmente no bolso de dentro de meu sobretudo. John e Lestrade também sacaram suas armas.
- Chegamos na porta do apartamento. Gritos e barulho de coisas sendo arremessadas. Alguém estava em perigo. Arrombei a velha porta com o ombro — foi fácil, estava sem o ferrolho — e corri para dentro. John me seguiu e Lestrade cuidou da retaguarda.
Uma sala grande e escura, com móveis velhos e rasgados. Papel de parede caindo e infiltrações aparecendo. Até o inferno parecia confortável. Os gritos saíam de um quarto ao lado, o primeiro de um corredor. Dei sinal para John, que foi para o quarto paralelo àquele. É comum que os quartos antigos sejam interligados por outra porta, neste tipo de construção. Cuidadosamente, John averigou que a porta estava destrancada, me olhou e entrou, enquanto eu esperava pela porta de acesso principal, junto ao corredor. Ele estava na porta interna, aguardando meu sinal.
Enquanto eu contava três segundos no meu relógio, ouvi um estampido sonoro…era um tiro, vindo de dentro do quarto.
- JOHN! — eu gritei, arrombando a porta.
John teve a mesma dificuldade que eu. De instinto, achei que a porta estivesse trancada, quando me joguei com o ombro nela. Só depois pensei em girar a maçaneta.
John abriu de súbito, e por reflexo apontamos as armas um para o outro. Um segundo depois, recobrando o estado normal, olhamos fixo para o fundo do quarto. Entre toda a mobília revirada, encontramos o corpo de um jovem de quase vinte anos, com uma arma na mão. Além de todo o sangue que começava a jorrar de sua boca, a parte de sua massa encefálica que não havia espirrado na parede escorria pelo buraco na parte de trás de seu crânio.
Lestrade chegou correndo. Parou como uma estátua. Ficou tão pálido, absorto e aterrorizado que ainda parecia estar na cadeira do dentista.
Enfim, de um jeito estranho de se apresentar conhecemos o outro filho do General. E ele havia dado um tiro pela boca.
Tive pouco tempo para vasculhar o quarto. Estava tão bagunçado mas eu não queria esperar a Scotland Yard chegar e aumentar a bagunça.
O quarto era cheio de móveis antigos, igual aos da sala. Roupas espalhadas, um espelho quebrado…perto da cômoda e parte no chão haviam várias caixas de remédios. Olhei uma por uma: ansiolíticos, calmantes pesados, analgésicos…mas havia um frasco sem rótulo, com cápsulas brancas, parecido coma xilocaína de Lestrade. Coloquei no bolso, sem que ninguém percebesse.
Me aproximei do corpo. Em meio a tanto sangue ainda correndo, notei uma certa coloração azul em torno do pescoço. Abaixei a gola da camiseta branca, agora ensopada em sangue e notei a mesma mancha azulada nas axilas.
Já tinha o que queria.
- John! Baker Street, agora!
IV
Acordei mais cedo do que costumo. John não havia saído de seu quarto, sinal ainda dormia. Fui para a cozinha. Peguei um balão de destilação, uma pipeta, um copo de Becker. Liguei um bico de Bunsen. Eu já tinha uma teoria sobre o conteúdo daquelas cápsulas brancas, encontradas em meio aos remédios do filho do General, mas precisava confirmar.
Mrs. Hudson entrou.
- Sherlock, já tinha vindo fazer o seu chá…embora eu não seja sua empregada.
- Café! Quantas vezes vou ter que dizer que prefiro café? Puro, sem açúcar.
- Não precisa gritar, tem horas que você parece meu falecido marido.
- Seu marido era um traficante — eu disse, para desafiá-la.
- Sherlock! Eu já disse que eu só contava o dinheiro…
John acordou com toda a histeria de nossa governanta.
- Aprendendo um novo tempero? — Ele me disse, apontando meu material de laboratório.
- Uma teoria, sem aplicação prática — Fiz uma careta. É mais fácil do que esperar um café da Mrs. Hudson.
O processo de destilação havia terminado. Cheirei o líquido e o isolei dentro de um tubo de ensaio. Watson, que já estava acostumado às inúmeras experiências que eu fazia, não desconfiou do que se tratava.
Peguei meu café e fui para a minha poltrona. Fechei os olhos e esperei pacientemente, apertando uma bola de squash amarela que ficava sobre o pequeno aparador ao lado da poltrona.
John se sentou na poltrona à minha frente. Estava mais curioso que o normal, mas já havia aprendido a não me perturbar neste estado.
Às nove horas, mandei uma mensagem para Lestrade. Nela eu pedia que ele marcasse um encontro com o General Wish, na casa de sua filha, no início da tarde. Eu já tinha elementos para confirmar minha teoria. Mas antes, gostaria que ele viesse a Baker Street e trouxesse o celular de Rose, que a Scotland Yard já havia recolhido quando chegamos no fosso do elevador.
Perto das duas da tarde, Lestrade entrou em nossa sala. Me entregou o celular e se sentou.
Eu peguei o celular e em silêncio comecei a olhar o seu conteúdo. O TOC de Rose não permitia que ela guardasse registros. Mas o que me interessava era o histórico dos aplicativos baixados e excluídos, que ficavam na nuvem do aparelho.
- Então, acho que esse não teve muitas hipóteses…não?
- O que foi? — Olhei para Lestrade.
- Bom, não tem outra saída a não ser reconhecer: uma família com um triste histórico de suicidas…um triste acaso.
- Não existe acaso, Lestrade. O universo nunca é tão preguiçoso. Ninguém cometeu suicídio nesse caso.
- Como não?
- Tudo a seu tempo — respondi enfaticamente e fechei os olhos.
Chegamos no apartamento de Rose Wish às três e meia. O pai dela nos esperava lá dentro. Estava todo desfigurado. Com hematomas por todos os lados do rosto e a mão esquerda enfaixada, ainda usava o paletó grande e encardido das outras vezes que o vimos.
- Meu caro General, permita-me lhe dar as condolências pela trágica perda de seu filho. Queria muito ter chegado antes…- Imitando uma voz embargada e chorosa, estiquei minhas duas mãos para apertar a mão direita dele, envolvendo sobre as minhas. Na verdade, ele nem percebeu que com os dedos eu tateei a parte interna de sua manga, e encontrei um pequeno bolso, mais parecido com uma grande fissura de uns oito centímetros.
- O que houve com seu rosto? — Greg perguntou ao General, fazendo uma mímica com os dedos, apontando a própria cara em forma circular com expressão de dor.
- Bom, fui afogar o luto ontem a noite e acabei em uma briga de bar — o general respondeu secamente, desviando o olhar.
- Cavalheiros, se me permitem só vim aqui pegar um livro emprestado. — fui até a enorme estante — vejamos…ah sim, um clássico: Um conto de Duas Cidades, de Charles Dickens…volume um de…quatro partes?! Bom, que seja. Os livros grandes sempre são os melhores.
- Até mais, senhores! John, Backer Strett…- Peguei o livro e me dirigi à porta…
- Holmes! — Gritou Greg Lestrade — o caso! Você disse que nos queria aqui para esclarecer.
- Ah…sim…- voltei da porta — eh..Greg, aqui está o nosso assassino — apontei o livro para o General. Pode prendê-lo.
- Sério?
- Sim, é sério.
- Tem certeza?
- Tenho. — fiz um sinal com a cabeça na direção do General.
- Bom…General Wish, o sr. está preso pelo assassinato de sua filha Rose, no fosso do elevador…- disse, algemando o General — certamente para ficar com a herança…- e me olhou.
- Suspirei alto e olhei para o teto, tentando recuperar um pouco de paciência.
- Não, Greg. Ao contrário…
- Ah…-disse o inspetor — bom, a motivação do senhor foi outra, não a herança…-e me olhou outra vez.
De novo suspirei e fiz um sinal com os dedos indicadores, girando um sobre o outro…
Ao contrário, Lestrade. São as vítimas que estão trocadas. Rose não foi assassinada, foi o filho.
- O QUÊ?! — Gritou Lestrade.
- HOLMES! Está doido? — Gritou John.
- Por que o espanto…é tão óbvio! — respondi em desafio.
- Sherlock…-disse Watson tentando ser paciente…
- Bom, se é assim…vou formular. Vamos começar pelo assassino.
- Nosso General parado aí em pé, foi um homem de bravura. Condecorado, lutou no Oriente Médio e Afeganistão, pouco antes de entrar em reforma. Mas isso não o impediu de ter se tornado um beberrão viciado em jogo, que perdeu tudo o que tinha e estava afundado em dívidas nas bancas de poker, quando tem que usar todo o seu soldo para pagar partes de uma dívida sem sim, negociando a própria vida.
- O que? — disse Watson.
Fui até a frente do general para encará-lo. A ira em seus olhos era nítida.
- Não é isso, General?
General Wish cerrou os dentes, rosnando como um cão cérbero.
- Isso se tornou claro quando percebi que sempre usava o mesmo paletó surrado, sapatos engraxados demais para disfarçar o desgaste. Aliás, o paletó maior que seu número indicava que não havia mandado fazer, mas que comprou usado em um bazar de caridade, por poucas libras. Mesmo assim, tentava se manter alinhado ao máximo, ao estilo militar. Um general, em sua posição, morando em um apartamento paupérrimo. Só podia indicar problemas com dívidas.
- E como sabe que isso vinha de dívidas de jogo? — Perguntou Lestrade.
- Ficou mais evidente há alguns minutos atrás. Ele apareceu com o rosto todo machucado, com a mão esquerda praticamente quebrada. Ferimentos muito específicos e direcionados, que não acontecem no balcão de um bar. A mão esquerda quebrada significa que ele estava à direita do Dealer da mesa, que o flagrou tentando tirar um ás da manga direita. Claro, os seguranças se encarregaram de que não esquecesse da lição, por isso esmagaram a mão que entregou a trapaça, certamente por estar bêbado e trêmulo.
- Quando você disse “Às”…- Watson tentava formular.
Peguei a manga direita do General e mostrei o avesso. Todos viram o corte no forro, o formato de um bolso.
- Era aqui que ele escondia um Às de Espadas, sempre uma vantagem que garantia a melhor a mão da rodada.
- Em meio aos palavrões do general, pude escutar o grito de espanto de Lestrade.
- Claro, não havia nenhuma de suas medalhas penduradas…um herói de guerra sem suas condecorações? Já as havia penhorado para conseguir dinheiro para jogar mais e mais.
- E como isso se encaixa com o resto do caso? — Lestrade estava ansioso outra vez.
- É óbvio — respondi — O que mais pode ser atrativo a um jogador compulsivo e falido do que uma filha milionária? Contudo, não era interesse dele que ela morresse…não antes de ela receber a herança.
- Então…-começou Watson.
- Então — retomei o fio da meada — era justamente o contrário. O filho não era demente.
- Holmes, por Deus! O infeliz se matou! — John Watson estava revoltado.
- Ele foi induzido a isso. Durante todos estes anos.
Tirei do meu bolso o tubo de ensaio com o resultado da minha análise, com o frasco contendo o resto das pílulas. Entreguei a Lestrade.
- Encontrei o frasco no quarto dele. Este é o resultado que você deve levar para a Scotland Yard. Aí está a prova do assassinato.
- O que é isso? — lestrade me olhava intrigado.
- Ópio.
- Ópio??? — Lestrade empalideceu.
- Sim, o garoto era envenenado aos poucos, há muito tempo, pelo próprio pai. — Olhei para o General, que rosnava muito alto e agitava as algemas — Isso justificam as visões e paranóias, os ataques de raiva…quando encontrei esse frasco no quarto, sem rótulo, diferente dos outros remédios, imaginei que ele pudesse estar sendo envenenado esse tempo todo. Foi quando fui até o corpo procurar qualquer sinal de intoxicação. O uso contínuo de ópio causa manchas azuis pelo corpo, iguais aos que o filho do General tinha.
- Como sabia? — perguntou Watson ao general, intrigado.
- Ora John — eu intervi, sem deixar o General responder — Sabemos que Wish passou anos no Oriente Médio, muito antes do Afeganistão. Constatei isso quando invadi o banco de dados do governo, outra vez, é claro (eles são incorrigíveis). O uso de ópio é muito comum naquela região.
- E a arma? como ele conseguiu? — Lestrade perguntou.
- Se já era fácil para ele deixar comprimidos de ópio para enganar o filho, mais fácil ainda, tentando parecer distraído, que deixasse sua arma no quarto do filho, antes de sair para as noites de jogatina.
- Com um filho paranoico e suicida — insisti — ninguém poderia impedir que ele pusesse as mãos na herança de Rose, em um futuro próximo. Aliás, isso garantiria que os segredos dela também estivessem seguros…
Lestrade apertou as algemas, para conter a agitação do General. Mas antes de sair, não resisti e como que com um ferro em brasas, atingi a fera em seu ponto mais fraco.
- Mas no entanto…era Rose quem precisava de cuidados.
- Olhei para trás e vi que John e Lestrade lutavam para deter o General, que gritava “Desgraçado”!!! “Desgraçado”!!! “Desgraçado”!!! O desespero da fera ferida e agonizante, prestes a tombar.
V
A neve de fim de ano caía em Baker Street. Mrs. Hudson estava falando sem parar, na cozinha. Algo que eu também filtrei. Estava em frente à janela, tocando meu violino.
John chegou.
- Lestrade chega em dois minutos — eu disse.
- Chamou ele aqui?
- Não — eu respondi. — mas seus hábitos são previsíveis.
- Sherlock, acho que está exage…
- Bem na hora. Já está na esquina. Previsível, como sempre -John respirou profundamente desapontado.
Dois minutos depois, Lestrade entrava no apartamento, esbaforido, cheio de neve e molhado.
- Desculpem incomodar, mas eu precisava vir aqui. Acabei de me tocar que estou entrando com o mesmo problema que vim aqui antes. Afinal de contas, o que houve com a pobre Rose, filha do General Wish?
Eu sorri.
- Ora, não é óbvio? — olhei para Watson, que me fitava sério — Tudo bem vamos lá. Sentem-se.
Abandonei meu violino sobre o sofá e fui para a poltrona. Me derrubei sobre ela, fechei os olhos por uns instantes e resolvi explicar.
- Rose Wish era uma mulher de muitos segredos. Mas um deles se sobressaía.
- Segredos? — repetiu o mongol inspetor da Scotland Yard — ela brigava com o pai?!
- É claro! Lembram-se dos artigos? Uma filha de militar reformado criticando veementemente os exercicios militares do governo. Ela descontava no pai toda a fúria pelo vício de jogo que ele tinha. Agora Vou dizer o que eu vi no apartamento dela. Primeiro, Rose era uma jovem que não saía de casa. Ficava lá o tempo todo, ao ponto de não saber se o elevador estava fora de funcionamento há duas semanas.
- Faz sentido — assentiu John.
- Ela podia viver tranquilamente assim, pedindo comida pela internet e fazendo compras de suas coisas básicas, o que é corriqueiro hoje em dia. O apartamento era bem simples eu seu interior. Sobre a mesa dela, estavam apenas duas pilhas de papel; uma delas em branco e a outra com documentos, a maioria assinados. Depois, apenas três canetas tinteiro com as tintas. Nada mais.
- Ora — continuei quando percebi que não seria interrompido — qualquer escritor teria no mínimo um computador em cima da mesa. Rose não tinha.
- Poderia ser um Laptop guardado — disse Lestrade.
- Poderia — concordei — mas a Scotland Yard teria encontrado. Rose não usava computadores, apesar de ser uma notável escritora. Eu diria, a mais notável que conheci. Rose não precisava de um computador.
- Não entendo…-John indagou.
- Também não havia nenhum mata — borrão sobre a mesa — eu disse- e sua assinatura era pequena, com letras juntas, mas sempre divergente da anterior e em cores diferentes. Uma mulher tão metódica não tinha um padrão.
Eles me olhavam sem fôlego. Mas o melhor estava por vir.
- Aliás, se vocês se recordam, ela calçava meias diferentes quando morreu. Depois, no quarto, haviam os frascos de perfumes, com aromas diferentes. Cada um com um símbolo diferente. E mais, cada peça de roupa recebia uma borrifada de um perfume específico.
- Um fetiche? — sugeriu Lestrade…
- Não. John?
- Talvez ela tivesse uma crise de personalidade e a cada noite saísse de uma forma diferente…
Eu ri alto.
- Ah, John! incapaz de seguir o norte mesmo com a bússola na mão. Continuando…
- Os móveis do apartamento não haviam sido arrastados. Nunca. Estavam sempre no mesmo lugar. E, mais: havia sido reformado há dois anos. Os interruptores ainda estavam rígidos e sonoros, ao passo que com o uso diário perdem essa resistência e se tornam macios…
- Ela não acendia as luzes! — John exclamou.
- Ora, encontrou o norte, John.
- Aliás, para uma mulher metódica, que escreve parágrafos contados, tinha roupas fora do lugar — chamei a atenção deles.
- E vejam — tirei o celular dela do meu bolso — Acessei a nuvem do celular. Vi o histórico das chamadas e dos aplicativos baixados. Ela escrevia seus artigos por aqui, através do email, por voz. A vida dela era toda facilitada. Agora, vamos. Tudo isto que está a nossa frente acarreta uma única conclusão inevitável: ela precisava de tudo isso.
Eles prestavam toda a atenção em mim.
- Rose fazia tudo com naturalidade, de forma que à exceção do pai e do irmão (claro, da mãe falecida) ninguém nunca percebeu o detalhe mais importante sobre ela. Ela não podia pegar o elevador. Com várias canetas, era possível não acertar a mesma cor. Não era incomum que vestisse meias de cores diferentes. Sua assinatura era curta para facilitar a escrita. Não precisava acender a luz, mas podia distinguir com facilidade a roupa que ia usar, através do cheiro, já que sabia diferenciar os perfumes pelos símbolos que ela mesmo criara. Escrevia por voz..
O rosto dos dois se iluminou. Era a hora.
- Rose não poderia saber que o elevador não estava lá.
E, finalmente, joguei o grosso livro de Dickens nas mãos de Watson.
- Todos os livros da estante possuíam mais de um volume e eram grossos. Livros usuais que possuem edições em 400 páginas se dividiam em grossos volumes…isso denota?
Eles estavam abismados.
- Vamos John, abra o livro.
- Em que página?
- Qualquer uma.
- John abriu o livro. Á distância, as páginas pareciam estar todas em branco, exceto para ele e Lestrade que as viam de perto e, boquiabertos, perceberam os pontos em alto relevo do método Braille. John me olhou de volta.
- Ela era cega, John.
