Quem é você, quando deixa de ser você?

Sonhos e medos, planos para o futuro e lembranças sobre o passado, gosto por algumas comidas tanto quanto rejeição por outras; amigos, conhecidos e colegas, uma lista de filmes preferidos e uma opinião sobre a política no Brasil. Tudo isso, e muitas outras informações, formam quem nós somos.

Ou quem pensamos que somos.

Isso porque talvez a personalidade na qual tanto nos apegamos seja apenas um papel que interpretamos dia após dia, com uma qualidade fantástica.

Raul Seixas, maluco beleza, dizia que não era cantor, mas um ator tão bom que interpretava um cantor, e todos acreditavam nisso. E você, no que faz os outros acreditarem, e no que acredita, você mesmo?


Eu sou Samuel, nome recebido por conta que uma promessa feita por minha mãe e minha avó. Até a oitava série era o melhor aluno da classe, porque era a única opção que eu conhecia. No ensino médio eu comecei a me interessar mais por escrever do que pelas matérias da escola, o que me custou algumas provas extra no fim do ano.

(Juro que as conversas intermináveis durante os horários de aula não tiveram nada a ver com isso.)

Me comunico melhor escrevendo do que falando, porque quando quero falar as palavras e situações se chocam tão rapidamente na minha cabeça que eu não consigo escolher nenhuma, então mantenho a boca fechada. Escrevendo eu sempre consigo organizá-las.

Gosto de ouvir histórias das pessoas sobre elas mesmas (e se você quiser, pode me contar a sua à qualquer hora), mas uma das coisas que mais me dá desgosto é ver pessoas falando mal de outras por muito tempo. Gosto de acreditar que, com raras exceções, as pessoas que erram ainda estão tentando dar o seu melhor.

Dizem que não é falar mal, estão só comentando o quando fulana é puta e fulano é drogado, ah, e o outro fulano, sabia que é viado? Não compro a desculpa. Honestamente, eu faço isso às vezes, e o desgosto comigo mesmo é ainda maior que com os outros — quem sou eu pra achar que a minha versão da história de alguém é a verdade?

Não acho que seja hipocrisia, é um defeito escroto que enxergo fora e dentro de mim. Pelo menos dentro eu tenho a chance de tentar mudá-lo.

Você não vai descobrir nada sobre a superfície da minha vida olhando redes sociais (ok, talvez ache algumas fotos em que a minha mãe ou minha companheira me marcaram), mas se quiser pode mergulhar na minha cabeça aqui no Medium.

O mesmo vale para a minha relação com os outros — devo acessar o Facebook uns cinco, dez minutos. Por mês. Mas costumo passar pelo menos uma hora por dia lendo textos aqui. Queria que as pessoas próximas a mim escrevessem mais do que tiram fotos.


Dizem que fotografia captura o momento, mas depois de tanto escutar “vai, dá um sorriso pra foto” eu não sei se ainda acredito nisso. Textos são editados? Com certeza, mas pelo menos ninguém se dá ao trabalho de escrever cinco ou seis por dia contando mentiras.


Nesse momento eu estou pensando se você vai me achar narcisista ou egocêntrico por escrever um texto sobre mim mesmo e com tantas “cutucadas” nos outros (você ainda está lendo?) — mas a verdade é que esse não sou eu, é apenas quem eu acredito ser.

A personalidade que a minha consciência criou, separando o mundo entre as coisas que meus sentidos percebem e o que está fora do alcance deles — limitando o “eu” ao meu corpo.

Parada para um paradoxo paranoico: Eu acabei de perguntar se você está lendo, mas enquanto eu escrevo, você ainda não pode ler, e quando estiver lendo, eu já vou ter acabado de escrever. Sinto muito por não podermos nos encontrar no presente.

Mas quem sabe um dia possamos tomar um café?

Voltando ao assunto, às vezes eu penso tanto nessa relação fora/dentro que tento fazer objetos próximos se moverem usando a mente. Espero que a minha família não leia isso, então vê se não conta pra ninguém!

De toda forma, eu escrevi esse texto para você refletir sobre o que está fora e dentro da sua própria vida — quem você acredita ser? E quanto disso é parte do seu verdadeiro eu?

Tome cuidado com a máscara que você constrói — quando ela é usada por algum tempo, é preciso fazer uma escolha, entre quem você é e quem acredita ser. Caso ela seja usada por tempo demais, talvez a escolha deixe de ser sua.

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