o que eu aprendi com o belchior, com a árvore da minha rua, e o 9 verdades e 1 mentira?!

lá em frente minha antiga casa, havia um lote vago com uma árvore enorme. pelo tamanho, calculo que ela era bem mais velha do que eu.

naturalmente, eu passava por ali diariamente, no entanto, nunca reparava aquela árvore. 
embora ela fosse grande demais para ser discreta, meu olhar se acostumou com ela ali parada na paisagem, até que ela se tornou invisível. eu a olhava, mas não a enxergava.
como isso era possível?!

tudo que fica parado e não produz interação, relacionamento, contato, tende a desaparecer.

só fui perceber a existência daquela árvore, e sua utilidade, no dia que não mais a encontrei lá. levei alguns segundos pra descobrir o que estava diferente naquele cenário, até que percebi que o sol estava batendo muito forte onde a sombra costumava habitar. por fim, me dei conta que haviam cortado aquela árvore enorme. imediatamente bateu aquela tristeza típica de saudade.

irônico, né?! 
só enxerguei a árvore, quando não era mais possível enxergar a árvore.

pois bem,

a morte do belchior e essa brincadeira q rolou aqui no face, o 9V e 1M, me fizeram lembrar daquela árvore.

li praticamente todas as descrições do 9v1m que pintaram na minha timeline e, assim, confirmei o que comecei a perceber de um ano pra cá: tenho muitas coisas em comum com pessoas que um dia julguei ter pouco ou quase nada em comum.

além disso, descobri que todo mundo tem feitos e experiências admiráveis em seus currículos.

daí, veio a grande conclusão:

como se julga mal, quando se julga o todo pela parte, né?!
como se julga mal, quando se julga o invisível pelo visível, né?
como é muito maior o invisível do que o visível, né?!

é tanta coisa incrível e boa que passa despercebida aos nossos olhos.

só notamos a utilidade e a importância das pessoas, e das coisas, quando interagimos com elas.

sem interação, tudo se objetifica, e todos os objetos que viram decoração, começam a desaparecer, morrer. aquilo que é pouco usado, some de vista, vai pro baú, pro museu, morre, desaparece.

quando deixamos de interagir com pessoas, essas pessoas começam a morrer, desaparecer, mesmo estando na nossa frente.

não criar vínculos e intimidade com quem está próximo, te deixa extremamente “ignorante”. é tanta informação positiva e útil ignorada quando decidimos objetificar pessoas próximas.

já pensou o tanto de boas surpresas, alegrias, ajudas, experiências, que deixamos de ter só porque não nos conectamos com o próximo?! é tanta informação útil que a gente perde se isolando, evitando pontes com pessoas que julgamos diferentes de nós…

lembro de uma ocasião que fui andar de bike na pampulha com um amigo. a bicicleta dele tava com a rosca do pedivela espanada, o que fez o pedal se soltar no meio do trajeto.

pra resolver aquilo, precisaríamos de uma ferramenta pra apertar o pedal de novo. só que estávamos num lugar bem isolado na orla, próximo apenas de um vendedor ambulante de água de coco. na hora, a solução que veio na minha cabeça foi ligar pro meu irmão, que estava a 7km dali, pra vir socorrer a gente.

julguei que o vendedor de coco jamais teria a peça que nos ajudaria. foi aí que eu errei feio! fiz um julgamento precoce. julguei o que não vi pelo que vi. deduzi que quem vende coco, só possui coco.

mas antes que eu ligasse pro meu irmão, meu amigo foi lá e perguntou pra ele se ele não teria a peça. rindo, o senhor respondeu pra ele: “claro que não”. 
imediatamente eu pensei “já sabia, é óbvio”. 
mas tão logo eu pensei, o vendedor confessou que tava brincando. abaixou, enfiou a mão no carrinho de água de coco, e retirou a peça que estava lá dentro.

meu amigo não falou nada, só olhou pra mim. nem precisava. o olhar dele já dizia tudo: “quem não se comunica, se trumbica.”

eu ia fazer meu irmão sair lá de longe, só porque não tive a capacidade de interagir com quem estava próximo.

pois é,

a vida exige comunicação, pontes, ligações, trocas, interações, diálogos. 
se isolar, se ilhar, é suicídio.

bem, mas o que isso tudo tem a ver o belchior?

desde que eu sou novo ouço falar o nome dele, 
mas sempre soube muito pouco à seu respeito. 
confesso, nunca tive muita curiosidade. o certo é que em algum momento, devo te-lo julgado como diferente de mim, do meu gosto musical. 
isso foi suficiente pra eu não ter interesse em conhece-lo mais.

e conforme falei, quando a gente não desenvolve uma “amizade”, uma ponte, parece que não existe nada em comum…

até o dia que a gente perde. 
pois é, ontem belchior morreu. 
os jornais não param de falar nele. 
e o que eu descubro?

a música brasileira que eu mais gosto, a que me causa arrepios, aquela que tem a letra que mais fala comigo, a que mais me parece “familiar”, “íntima”…
é uma composição dele, belchior.

talvez 90% dos meus amigos já soubessem, 
mas pra minha surpresa, 
“como nossos pais”
é uma composição do belchior.

logo ele, que a vida inteira me pareceu um “estranho”, um invisível, alguém bem diferente de mim.

pois é, 
ele teve que morrer, pra que eu pudesse notá-lo.

triste! mas fica a lição!

é bom reparar quem tá próximo. 
é bom se relacionar com quem tá próximo, 
com nossos vizinhos.

se você não se relaciona com seus vizinhos porque acha que eles são muito diferentes de você, saiba que eles só se parecem diferentes de você, justamente porque você não quer conhece-los mais.

se relacione com quem está próximo!

o faxineiro do seu trabalho, 
o morador de rua que tá sempre no seu caminho, 
aquele seu colega de trabalho que você acha estranho, mas com quem você nunca trocou mais de duas frases…

inter aja,
pra se interar. 
evite morrer sem saber que a solução do seu problema tava debaixo do seu nariz. 
vizinho não é vizinho à toa. 
há um arquiteto que faz o problema morar do lado da solução.

tanto você que não interage porque não quer ser amolado, 
quanto você que não interage porque não quer amolar,
tão perdendo a chance de descobrir que todo amor marcante, toda amizade profunda, nasce da troca de amolação.

ou você acha que é coincidência que a pessoa que você mais ama é aquela que você sabe que pode contar sempre? e vice-versa?