Borrões de tinta

Diga-me com que parece, que te direi quem és. Conheça o polêmico teste psicológico de Rorschach, usado até em entrevistas de emprego




Você já deve ter visto um teste de Rorschach durante a sua vida — ou, pelo menos, algo parecido. É aquele exame em que se pergunta ao paciente o que ele está vendo em uma prancha borrada de tinta e simétrica (parece dobrada ao meio). O clipe musical Crazy, de Gnarls Barkley, mostra vários desenhos desses em movimento. A face do personagem Rorschach — que coincidência! — do filme Watchmen, é coberta por uma máscara borrada. E quem nunca discutiu com um amigo sobre os desenhos formados nas nuvens?

A mente humana tem a mania de tentar interpretar imagens em objetos aparentemente sem sentido, por um efeito chamado pareidolia — e isso pode acontecer olhando nuvens ou borrões de tinta, ao lado de um amigo ou diante de um psicólogo. O teste de Rorchach explora justamente isso, por entender que colocamos experiências, memória, conhecimento e sentimentos próprios nas respostas dadas aos estímulos. Por isso, é chamado de método projetivo, assim como aquele em que se pede a uma criança que desenhe algo em uma folha de papel.

Deise Matos do Amparo, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília e ex-presidente da Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos (2011–2014), explica o teste como uma amostra científica:

Se um biólogo pega uma folha de uma árvore e analisa o material no laboratório, ele vai descobrir informações da estrutura da árvore. Essa é a proposta do teste de Rorschach, conhecer a personalidade do paciente a partir de um momento significativo, de um recorte estrutural — afirma.
Walter Kovacs, o personagem Rorschach, criado por Alan Moore e Dave Gibbons. A primeira aparição do vigilante nos quadrinhos foi em "Watchmen" no. 1 (DC Comics), em setembro de 1968.

O teste clássico, inventado pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach em 1921, é formado por dez cartões, selecionados por ele entre tantos outros por apresentarem maior potencial de interpretação. O paciente recebe cada um dos desenhos separadamente e é instruído a girar e interpretar a imagem como bem entender.

Hermann Rorschach (1884–1922), o criador do teste que leva seu sobrenome. O psiquiatra inventou centenas de pranchas misturando borrões pretos e vermelhos até chegar a 15, em 1918, e 10 cartões, em 1921. Segundo ele, eram os materiais com maiores possibilidades de interpretação.
O que você está vendo?”, pergunta o psicanalista.
Um morcego - responde o paciente.

Cada resposta como essa é avaliada pelo psicanalista em diferentes aspectos — qual o conteúdo (humano, animal, natureza), a localização no desenho (se é geral ou um detalhe), se é uma figura comum ou original.

A partir das anotações, o profissional combina mais de cem variáveis em um cálculo complexo para chegar ao resultado. Por isso, dizer que um desenho parece uma “estrada” não signifca necessariamente que você quer fugir. Ou que ver uma “coroa” faz de você uma pessoa ambiciosa. O conjunto final de significados é o que vale.

O profissional combina mais de 100 variáveis para chegar a um diagnóstico.

Porém, o que muita gente não sabe é que não apenas as interpretações são levadas em conta no teste de Rorschach. Desde o momento que espera o teste começar você já é examinado. Estar ou não à vontade é um sinal. Girar rapidamente, pausadamente ou nunca girar a figura é outro. O tempo de processamento de cada resposta, adivinhe, é outro.

Em meio a tantas variáveis e interpretações diversas, vem a pergunta: o resultado é sempre o mesmo? Essa é uma das críticas de quem acredita que o teste de Rorschach não passa de uma tolice. Para os descrentes, não é só a subjetividade do paciente que aparece durante o teste. Ao interpretar as respostas, o psicólogo também coloca uma parte de si no processo, o que causaria diferentes resultados para um mesmo teste.

Além disso, apesar de o acesso ser permitido, teoricamente, a apenas profissionais, muitas pessoas acabam conhecendo os cartazes originais e criando suas respostas ideais — basta procurar na internet.

O sociólogo francês Michel Maffesoli revela suas percepções de um dos cartões do teste de Rorschach. Apesar de restrito a profissionais, a equipe do Fronteiras do Pensamento 2007 decidiu abordar o teste antes da conferência de Maffesoli. O conteúdo tem mais de 1,8 mil acessos no Youtube. O cineasta britânico Peter Greenaway também fez o teste.

Muito disso se deve ao receio de passar pelo teste de Rorschach em processos seletivos de empresas.

Da clínica para a entrevista

Não estranhe se você chegar a uma entrevista de emprego esperando dizer todas as suas qualidades e, em vez disso, tiver de interpretar borrões de tinta — é comum.

Há muito tempo os setores de RH tomaram o teste de Rorschach das mãos dos psicólogos, ainda que nesses casos o objetivo principal não seja diagnosticar esquizofrenia, epilepsia, depressão ou ansiedade. É mais para eliminar candidatos observando se as suas personalidades se encaixam com aquela exigida pela vaga.

Além disso, testes vocacionais e a área jurídica também podem incluir o teste. Em populações carcerárias ou durante a perícia, por exemplo, a técnica pode indicar tendências agressivas e grau de periculosidade de um suspeito/preso. Para os adolescentes, pode libertar da dúvida de qual carreira seguir.

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