Joint-by-Joint Approach

A “Articulação por Articulação” é uma abordagem criada pelo fisioterapeuta Gray Cook que propõe uma visão mais integrada do corpo humano, analisando-o de forma sequencial, como uma grande cadeia de articulações que influenciam umas às outras. Quando uma dessas articulações não está funcional, não exerce seu trabalho de forma adequada, isso se refletirá em outras, principalmente as que ficam acima ou abaixo.
Basicamente, as duas funções artrocinéticas do nosso corpo são a Mobilidade e a Estabilidade. São duas funções que se completam, uma não pode acontecer sem a outra.
Como definição, Mobilidade é a capacidade que uma articulação tem de se mover ativamente por todo seu arco de movimento, sem o auxílio de forças externas — e isso inclui a gravidade. Já a Estabilidade trabalha com o que chamamos de “anti-movimento”, ou o momento em que uma determinada articulação deve se manter estável, rígida, para que o corpo possa realizar alguma tarefa a partir disso.
Observamos que cada articulação tem uma dessas funções (Mobilidade/Estabilidade) como especialidade, o que resulta em uma necessidade básica de treino para cada uma delas, como é especificado abaixo:
Necessidades primárias de treino:
Tornozelo — Mobilidade (principalmente no plano sagital)
- Joelho — Estabilidade
- Quadril — Mobilidade (multi-planar)
- Coluna Lombar — Estabilidade
- Coluna Torácica — Mobilidade
- Cintura Escapular — Estabilidade
- Ombro — Mobilidade (multi-planar)
A primeira coisa que conseguimos perceber analisando esta tabela é que as articulações se alternam em relação à sua função. Isso não quer dizer que o tornozelo e a coluna torácica, por exemplo, não precisam de estabilidade, mas que sua função principal é a mobilidade.
Quando há uma entorse no tornozelo, qual o maior prejuízo? A perda de mobilidade. Quando rompemos algum ligamento do joelho, o que se perde nesta articulação durante o processo? Estabilidade. Quando sofremos uma lesão na coluna lombar, em que precisamos focar na sua reabilitação? Isso mesmo! Estabilidade.
O ponto principal é a redução da incidência de lesões e como essa abordagem pode te ajudar nisso. Quando digo lesão, isso inclui aquele “pequeno incômodo” na coluna ou no joelho que alguma vez já sentiu após um treino de membros inferiores. Ou aquela “fisgadinha” no ombro após fazer um Desenvolvimento com intensidade alta. Esses problemas são causados basicamente por execuções e padrões de movimento incorretos e e ou desequilíbrio muscular, pois não temos entendimento do papel que cada articulação deve desempenhar. Não até agora.
Partindo do princípio que o quadril precisa de mobilidade para se manter funcional, quando temos perda desta função — o que acontece com a maioria das pessoas que trabalham 1/3 do seu dia sentadas e se utilizam de outro 1/3 no sofá de casa — uma compensação é desenvolvida pela coluna lombar para suprir essa falta de movimento. Quando treinamos, principalmente membros inferiores, precisamos dessa mobilidade, se ela não está adequada a lombar vai se movimentar e vai sinalizar dor.
Quando a coluna torácica não se move de maneira eficiente, isso resultará em um excesso de movimento para a coluna lombar como compensação e também em dor nessa articulação.
A perda de mobilidade na glenoumeral causará uma compensação na região escápulo-torácica para que a necessidade de movimento para as atividades diárias sejam supridas, e isso também vai gerar dor, tanto na cintura escapular quanto na cervical.
Num movimento de salto, se o tornozelo não estiver móvel suficiente seu desempenho para a absorção de energia durante a aterrissagem será falho e transferido para o joelho, que eventualmente também sinalizará dor.
Percebe que o sinal de dor nunca ocorre no local exato da causa do problema? O que realmente gera disfunção e dor nas articulações é a compensação, que só é estimulada a partir de uma articulação acima ou abaixo que não está trabalhando de forma eficiente.
Nós temos uma exceção à regra. O quadril — assim como o seu correspondente nos membros superiores, o ombro — precisa tanto de mobilidade quanto de estabilidade para ser considerado funcional. Se estiver imóvel passaremos a observar uma compensação da lombar, como já abordamos. Porém, para gerar uma compensação no joelho, basta o quadril estar fraco e instável. Essa falta de estabilidade, principalmente por parte dos abdutores e rotadores externos, permitirá que o joelho “entre” durante um padrão de agachamento, o que vai aumentar o risco de lesão e dor na articulação.
É interessante assimilarmos como essas questões iniciam um efeito dominó. Para o indivíduo que acredita que um movimento compensatório é natural, o certo passa a ser cada vez mais difícil. Como assim? Voltando ao exemplo do quadril; quanto mais movimento compensatório for gerado na coluna lombar pela falta de mobilidade do quadril, menos o quadril vai “precisar” se mover. Ou seja, o que se move pouco tende a se mover menos ainda.
A linha de raciocínio sugerida por essa teoria é de extrema importância pra qualquer treinador. Entender como funciona as articulações e suas propriedades vai nos ajudar muito no desenvolvimento de programas cada vez melhores e principalmente na aplicação de padrões motores impecáveis. Prevenção de lesão e aumento de performance estão diretamente ligados a movimentos bem executados.
Até mais.