
A culpa é sua, mãe
Minha mãe já fez quase tudo nessa vida. Foi professora, agente da dengue, artista, procuradora de conchinhas na praia, artesã, dona de casa, coordenadora de escola, coordenadora de lar de idosos, cuidadora de idoso, técnica de laboratório de análises clínicas e algumas coisas mais — um currículo que, se estivesse no LinkedIn, confundiria o mais experientes dos RHs. Era assim: a necessidade da vez ditava a especialidade da casa.
Fez tudo isso pra sobreviver. Com quatro filhos pra criar e sem muita gente pra ajudar, o que aparecesse, topava, sem muito orgulho. Aliás, das lembranças que tenho da infância, nenhuma delas inclui minha mãe reclamando de ter que trabalhar. Reclamava era do que eu e meus irmãos — num humor sempre característico da nossa família — chamávamos de “fartura”. Fartava de tudo naquela casa! Foi uma infância feliz, mas difícil. Difícil, mas feliz.
No fim das contas, por conta de todos esses esforços dela, até que hoje a vida não vai mal. Os 4 filhos de Lígia estudaram, trabalharam, conquistaram. Ainda falta muita coisa, mas nada comparado àquela boa e velha “fartura”. Digo tudo isso só pra contar uma história que vai soar como uma mistura de deslumbramento e “se achismo”, mas é que tem horas que a gente sente orgulho e não precisa pedir desculpas por isso.
Na última quarta-feira, de férias no Rio-de-Janeiro-continua-lindo, levei minha mãe num restaurante metido de Ipanema. Sentamos nas cadeiras chiques, olhamos pra mesa cheia de talheres que não conhecíamos, pegamos o guardanapo de pano (guardanapo de pano!!) e admiramos a vista com Rio de Janeiro pra todos os lados — ô coisa bonita é restaurante com parede de vidro. Vimos o cardápio, escolhemos o que de mais barato tinha por ali e aproveitamos. O garçom, tentando disfarçar, julgava com um riso de canto de boca a quantidade de fotos que tirávamos. “A gente nunca mais vai ver ele mesmo”, disse com sabedoria minha mãe.
No meio de todo aquele momento, era toda hora um tal de dizer que “Se fui pobre, não me lembro”. Mas, ah mãe, eu lembro sim. Lembro dos dias em que saiu de casa antes das 05h; lembro do choro em dia de vencimento de aluguel e das contas; lembro de quando pedia ajuda a quem quer que fosse para conseguir o que quer que fosse para o almoço; lembro da felicidade que sentia (que todos nós sentíamos, na verdade) nos dias em que conseguia fazer uma compra grande no supermercado. Lembro de tudo.
Estou escrevendo esse texto e me emocionando, me emocionando e escrevendo esse texto. Não é porque eu acho que já sou grande coisa na vida só porque fui num restaurante chique e metido e caro e muito bom. Mas é que numa quarta-feira de um dia de inverno carioca levei a minha mãe até o décimo sexto andar de um hotel que há uns 15 anos pareceria mais distante das nossas vidas do que os brasileiros estão do fim da crise, dividi risadas e vi no olhos dela um quê de “como é que a gente veio parar aqui?”. Só consigo pensar em uma resposta: foi você, mãe. A culpa é toda sua.
