Um texto antigo

Um texto antigo, escrito há 5 anos para a seleção do Curso Abril de Jornalismo. Até passei pra entrevista, olha só. ;)


Samysia: duvido que você conheça outra

Dizem que 1989 foi o “ano que mudou o mundo”. Enquanto o muro de Berlim caía e um regime de governo inteiro se esfarelava junto com a poeira, vejam só, a minha história apenas começava. Até hoje não se sabe ao certo: se pela sucessão dos eventos marcantes daquele ano, que confundiram até as mais distintas cabeças ou se devemos culpar somente o gosto duvidoso dos parentes responsáveis pela escolha do nome. Ocorre que fui batizada de Samysia. Sa-my-si-a, como estou acostumada a repetir até que o outro lado da conversa se convença de que ouviu direito. Samysia Barbosa por parte de mãe e Almeida por parte de pai.

Começo dizendo meu nome porque muito mais do que o lugar onde nasci (a saber, Campina Grande, na Paraíba) ou onde fui criada (Natal, no Rio Grande do Norte), ele define quem eu sou. Samysia do nome estranho, um dos últimos na chamada da escola; Samysia das infindáveis variações (Camisia, Samuisa, Santana, Sarisa); Samysia, tímida o suficiente para não corrigir quem a chamava por qualquer outra coisa, menos pelo seu nome; Samysia, a menor da turma; Samysia, o nome que sobrou para a mais nova dos quatro filhos de Francisco. Estão aí os ingredientes para o início de um quase-trauma.

Essa timidez um tanto patológica começou a ser tratada com uma tarefa simples, mas decisiva. Uma professorinha (salve, Martha!) da então quarta série entregou-me um gravador e sentenciou: “Volte de casa com um jornal gravado aqui”. Foi assim que nasceu o já finado — para o bem dos ouvintes — “Jornal Português 2000”. Só não me perguntem de onde saiu esse nome. Seria o talento para batizar pessoas e coisas uma característica genética? Pois bem, foi assim mesmo que começou minha história com o Jornalismo. E não vou mentir: paixão à primeira vista não foi. Nem tão romântico como pode ter soado. Tivemos umas crises, eu e o Jornalismo.

Já na quinta-série, por exemplo, eu queria ser Fisioterapeuta. Na sexta, professora me parecia uma profissão bastante considerável. No ano seguinte a coisa mudou de figura. Seria bióloga com toda certeza. Mas aí veio a decisão final: nos caminhos do www e da internet discada (sinto sua falta, barulhinho de acesso), fui descobrindo minha paixão pelos textos. Por hora, dos outros. E eu lia de tudo. A próxima fase foi óbvia: começar eu mesma a escrever.

A timidez continuava, mas agora eu tinha onde “me esconder”. Por trás das palavras, dos textos e das frases que até — cof, cof — faziam sucesso no mural da escola. Aos 16 anos, passei por cima de todos aqueles comentários na hora de prestar vestibular. Jornalista não é profissão pra você. Jornalista não ganha dinheiro. Jornalista? Não vai ter futuro.

Resolvi seguir o caminho que a professora Martha me mostrou tantos anos atrás. Dessa vez, o objetivo alcançado foi chegar à Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Entre estágios, aulas e testes, aos poucos fui me tornando Samysia, a que descobriu seu lugar escrevendo textos (na internet!) e que finalmente assina o nome com orgulho. A mesma que acredita na função social do Jornalismo, mas que não dispensa uma edificante matéria sobre “quais as dez razões para se invejar Kate Middleton”. Samysia que, por mais clichê que isso pareça, sonha em rodar o mundo com uma mochila nas costas e que consegue passar um dia de folga inteiro vendo séries ou em um único Tumblr de frases de cinema. Samysia, a que descobriu — não faz muito tempo — que não há sentimento pior do que o cursor piscando na tela e nenhuma linha sequer ser escrita, resultado de uma crise de inspiração. Ou sensação melhor que a pauta quando se fecha, a lauda quando se entrega e a matéria quando se publica.

Samysia. Duvido que você conheça outra. Ainda mais que fale assim, referindo-se a si mesma em terceira pessoa. Meio Pelé, meio Carla Perez. Perdoem-me; foi só por hoje. Prometo.