Paranoia comum

Era só uma segunda-feira comum: carros que engarrafavam avenidas, ônibus lotados com pessoas com cara de domingo, gente que está à beira do desânimo. Bom, para a maioria foi assim, mas não para mim. Não tinha conseguido dormir. Já passava das 7h, minha vizinha pedia carinhosamente para o seu filho “calar a porcaria da boca inferno!”. Eu estava sentado à mesa da minha quitinete — uma mesa junto à parede com dois bancos de cor branca — e olhava para caneca de café quase vazia, bem perto do meu notebook; os barulhos da rua — gritos de vendedores, carros passando, a descarga do vizinho de cima sendo usada — seriam inspiração, mas naquele dia, nada.

Eu já havia levantado várias vezes, deitava na cama, lavava o rosto e bebia mais café — e assim consegui uma gastrite-; ia para janela e tentava ver alguma cena impactante e nada: tudo naquela maldita segunda-feira era chato. Voltei ao computador e comecei a olhar sites na internet: meu email, redes sociais, artigos, sites de notícias, youtube, redtube, porntube (eu me masturbei. Fazia dois meses que não transava e ainda estava sem sexo). Não adiantou. Fui tomar um banho, troquei de roupa e desci para ir comprar meu almoço.

Havia uma grande movimentação de carros na frente ao Ed. Arapuã, 166 — meu prédio — para o horário das 11h50. Andei algumas quadras. Olhava aquele trânsito intenso e as pessoas que passavam na rua; tentava ver ali o clímax de uma história ou um personagem carismático, mas era tudo normal. Até o morador de rua que pensava que era o índio Peri — era legal saber que ele conhecia literatura nacional -, dormia embaixo da sombra de uma árvore. Mais alguns passos e entrei no Mercadinho do Vendeslal — aprendi esse nome quando nos encontramos no bar do Tinoco e comecei a tentar falar o nome dele. De fato, consegui — e fui na parte dos frios. Olhei as prateleiras, os atendentes, os clientes, a mulher da bunda grande com roupa de academia que comprava frutas (tive uma pequena ereção. Falta de sexo é foda), a caixa dos dentes montados; já não sabia mais como ter uma ideia e então busquei a rua novamente para minha casa.

“Onde já se viu um escritor que não consegue escrever? Caralho, eu já publiquei dois livros e escrevo artigos para revistas! Coragem homem! Coragem!”, eu pensava enquanto via minha vizinha dar um beliscão no seu “inferno”. Ao entrar em casa, fui até a pia e coloquei o meu almoço pra esquentar no forno e fui para o computador novamente. Foram 10 minutos escrevendo sobre a bunda da gostosa do supermercado, mas não queria escrever um conto para o Brasileirinhas, só um texto espontâneo. Será que havia perdido meu feeling? Será que não tinha mais saco pra escrever os textos? Havia virado um escravo da escrita acadêmica e esquecido como era sentir as palavras escorrerem pelos dedos e se transformarem na tela do computador ou no papel em realidade? Será que sou apenas um cara heterossexual sem sexo que toda imagem feminina é motivo de pensar em masturbação? Eu sou emo?

Já era de tarde e já tinha almoçado. Me preparava para um cochilo e já não tinha saco para escrever nada. Estava cansado, afinal, foram vinte e quatro horas acordado e sem ao menos um parágrafo! Merda, porra, saco! Eu não tenho ideias, eu não tenho criatividade. Acabei de descobrir que estou bloqueado. Eu estou bloqueado, merda de bloqueio, droga de bloquei…
Pulei da cama, fui até o computador. Sentei e comecei a digitar loucamente:
“Era um dia comum, para um escritor sem inspiração”.

Sanção Maia
24/01/12

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