Varanda

Aqueles faróis de carros, aquelas luzes que não param de piscar durante a madrugada. Pessoas antenadas no que fazer: seriados, filmes, uma noite num bar, na boate, na casa de amigos. E mais uma vez, mais uma noite, Eduardo está num local semi mobiliado voltando a velhos vícios. A fumaça do cigarro, com sua silhueta amigável e sua dança interminável faziam falta e ainda o colocavam para se lembrar da Silvia. “Ok, sem Silvia, sem Silvia, sem Silvia. Sem pensar nela, o que é difícil”. Seu terapeuta pediu para pensar em coisas que o agradam, mas… Tudo é tão relativo e acaba sempre naquele rosto.
São poucas as luzes acesas no apartamento. Poucos os mantimentos, poucas as bebidas e até mesmo os móveis. Também são poucos os pensamentos de Eduardo, encostado na grade da varanda, vendo aquele mundo noturno, com seu copo de cerveja numa mão e seu cigarro na outra. Ele não entende o motivo de o obrigarem a fazer terapia. Não tentou se matar, não tentou matá-la. Apenas pegou suas coisas, achou um lugar cômodo e ali ficou. Ele sabe que isso já faz quase um ano, mas cada um tem o tempo que pode para se restabelecer. “Bem, acho que preciso de mais uma bebida”.
O telefone toca. São mensagens, notificações de aplicativos e telefonemas não atendidos. O isolamento de Eduardo preocupa muitos, menos ele. Ele apenas quer seu momento só, mesmo que dure uma eternidade. Mais um cigarro. As luzes de alguns apartamentos começam a ser apagadas. Agora, só televisores e sua oscilação luminosa. E Eduardo, olha para sua casa. É um bom lugar, com um bom espaço, num bom andar. Ele precisa de mais móveis. “Talvez um sofá e uma mesa de plástico. Pelo menos pra poder comer numa mesa. Talvez trocar a geladeira…”, mas nada disso tirava sua cabeça de tudo o que acumulou sua vida: sua criação, sua relação com seu pai, sua vida amorosa, seu trabalho, Vanderson, Silvia. Apenas mais um gole de cerveja e mais um trago de cigarro…
Bom, a varanda se tornou quarto. De novo. Eduardo acorda com as luzes do sol do amanhecer. Sem faróis, luzes oscilantes. Apenas as luzes do apartamento ligadas novamente e o Sol. Levanta, toma banho, toma café. O telefone toca. São mensagens, notificações de aplicativos e telefonemas não atendidos. Ele pega, olha e lê, uma lembrança desse dia, numa rede: “a amor que não se mede. Com Silvia Silva”. Eduardo para. O terapeuta mandou ele renascer. Sua mãe disse para ele encarar o problema. Seus amigos o procuram a meses. E a Silvia deve estar com o Vanderson.
Ele vai para varanda, acende um cigarro. Ainda falta um tempo para pegar o metrô. Ele olha tudo ao seu redor. Pensa, repensa. Num movimento rápido, joga o celular lá embaixo. Saí da varanda, pega a mochila e vai viver. Muitos se preocupam com o isolamento de Eduardo, menos ele. E pra quem pouco se importa é fácil recomeçar. No telefone estraçalhado estão as notificações, os telefonemas. Em Eduardo, o reboot.
*Contribuição/Edição: Jairo Jordan.
