CARNAVAL: A LIBERDADE EM SER BRASILEIRO

“Paulo Sanchotene — Brasil”: II, 2

Carnaval deve ser reconhecido como a maior “festa cívica” brasileira. Não há nenhuma outra festa no ano superior ao Carnaval nesse sentido. Talvez aquela que chegue mais perto do Carnaval seja a Festa de São João. Apesar de o Brasil ser um país historicamente majoritariamente católico, e de o Carnaval ser um festival dionisíaco, ainda creio que o Brasil seja melhor representado pelo Carnaval que pelas festas juninas. Parece-me, inclusive, lógico que assim seja.

Pode-se argumentar contra a natureza cívica do Carnaval que já há o Dia da Independência, no sete de setembro. Essa é oficialmente a “festa cívica” nacional, e é, de fato, representativa; mas é uma celebração fria — ausente de qualquer espontaneidade. É praticamente restrita a militares e autoridades. A festa de 2015, em Brasília, aliás, foi totalmente restrita a militares e autoridades. Construiu-se um muro para deixar o resto da população de fora. Em nenhum outro momento ficou tão bem simbolizado a co-existência de dois “Brasil”.
 
 I. Os Dois “Brasil”

Eu corro o risco de dizer obviedades, de simplificar demais a questão, mas é um risco inevitável. Ciente do problema, atrevo-me a dizer que há, sim, dois “Brasil” antagônicos e complementares; cada qual com sua “festa cívica”. Por um lado, há o Brasil “anti-carnavalesco”, do “complexo de vira-lata”, do “Brasil não presta”, do “Brasil Potência”, do “agora vai!”, do “ame-o ou deixe-o”, do “vai te enxergar”, do “sabe com quem está falando”. Nesse, manifesta-se a brasilidade burocrática, legalista, formalista, controladora, moralista, ordeira, e idealista. Por outro lado, há o Brasil dos “pequenos prazeres”, do “ainda temos tempo”, do “jeitinho”, do “deixa para lá”, do “entre oito e oito e meia”, do “aparece lá em casa”. Nesse, manifesta-se a brasilidade livre, mulata, sincrética, debochada, bagunçada, e hedonista. O primeiro Brasil celebra o Sete de Setembro; o segundo, o Carnaval.

Já houve tentativas de fundir os dois. Getúlio Vargas, por exemplo, tentou cooptar o Carnaval. O Carnaval é celebrado em diversas partes do mundo; cada lugar de um jeito diferente. No Brasil, acontecia da mesma forma. Vargas, no entanto, queria fazer do Rio de Janeiro a quintessência da brasilidade e, portanto, o Carnaval de verdade tinha que ser o do Rio; porém, não qualquer coisa do Rio, mas o desfile das escolas de samba. Afinal, as escolas de samba representam ordem, forma, e controle. Vargas queria subjugar o “Brasil carnavalesco” ao “Brasil militaresco”.
 
 II. O Falar-de-Si

O fato de que o Carnaval ainda é diferente nas mais diversas localidades do país demonstra que Vargas falhou, ainda que não totalmente. A maior das derrotas do são-borjense Getúlio ocorreu algumas centenas de quilômetros ao sul de onde está seu túmulo, em Uruguaiana. Quiçá como vingança por ter construído a ponte que liga Uruguaiana à Argentina, o portal do Brasil, a cidade mais importante da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, transformou o desfile das escolas de samba, sim, numa “festa cívica”, mas da cidade — completamente alienada do nacionalismo varguista; e organiza o evento fora do Carnaval.

Antes que me acusem de algo, já aviso que: (a) moro em Uruguaiana; e (b) não pulo Carnaval. Eu tive que sair do país para perceber a importância e o simbolismo do Carnaval para o Brasil — ainda que seja o Brasil como eu vejo. Afinal, eu só posso falar por mim, e por mais ninguém. Portanto, a opinião é minha. Essa é a forma como eu enxergo. Tudo o que digo segue a mesma lógica: “eis como vejo esse assunto”. Mais, escrever e falar são formas de se compartilhar experiências. Ao falar, eu me abro, eu me revelo ao interlocutor. Portanto, falar é sempre um falar-de-si, mesmo quando o assunto é outro. Pior, ouvir e ler também é um ouvir-de-si. Como, então, seria possível sair dessa “câmara de eco” da nossa individualidade? 
 
 III. Comunidade e Individualidade

O ser humano só aprendemos e nos desenvolvemos em comunidade com os outros. Em tudo o que falo há coisas certas e coisas erradas, pois estou limitado a minha experiência e minha perspectiva. Porém, não sei distinguir o certo do errado no que digo. Se soubesse, diria a verdade; não, uma opinião. Por querer buscar a verdade é que expresso a minha opinião — para que alguém me aponte onde posso estar errado. É necessário o auxílio de outro para que se mude de perspectiva, para que seja possível depurar em mim aquilo que é falso daquilo que é verdadeiro na minha opinião. Para mudar de perspectiva, eu preciso ir na direção do ponto-de-vista do outro, identificando e comparando aquilo que temos de comum e de diferente, e como isso me mostra coisas que não tinha percebido.

O problema é que nós não temos acesso ao interlocutor e nem ele, a nós. Nós só temos acesso a nós mesmos. Ou seja, quando falamos, nós nos abrimos a alguém incapaz de ter acesso que não a ele mesmo. Nós somos peremptoriamente separados uns dos outros. Ainda assim, por algum mistério, ao interagirmos com outros, nessa mútua abertura, nós somos capazes de perceber pontos comuns. A “câmara de eco” é superada através da interação com os outros, com a tentativa de formar comunidades, isto é, de reconhecer a realidade compartilhada com quem é e sempre será absolutamente distinto de nós. Na interação social, política, econômica, vamos além de nós e tornamo-nos algo maior que nós.

Voltando ao tema, faria sentido reconhecer-se “festas cívicas”. Afinal, nós somos, ao mesmo tempo, nós e algo maior que nós. Ora, deve-se reconhecer individualidades, até porque o único acesso ao mundo que alguém tem é através de si mesmo. Mas é igualmente necessário reconhecer-se comunidades. Aliás, nós vimos ao mundo através de uma. A existência humana é inescapavelmente comunitária. Não há contrato social originário. Ninguém perguntou nossa opinião se queríamos nascer. O fato é que antes de sermos uma individualidade, somos dois-em-unidade com a mãe. Somos comunidade antes de sermos indivíduo. A minha identidade, a minha pessoalidade, desenvolve-se sempre em comunidade, no constante contraste entre o comum e o diferente — das semelhanças e diferenças com a família, com os vizinhos, com os conterrâneos, e com os estrangeiros.

Comunidade, portanto, não é mera ficção jurídica, e comunidade política não é mero território com governo. Comunidades são referenciais cheios de sentido; com sua própria História. Não somos meras individualidades agrupadas por ficções jurídicas. O Brasil não é um mero acidente, apenas um território com um governo; sem significado algum. O Brasil tem sentido e História, o que faz dos brasileiros, em comunidade, únicos. É o “Excepcionalismo Brasileiro”. Nas festividades cívicas celebra-se justamente essa particularidade da comunidade; e a particularidade brasileira é comemorada no Carnaval.
 
 IV. A Liberdade Brasileira

Cada sociedade tem sua história, e a do Brasil é inseparável do “sexo”. Os portugueses não tinham gente para ocupar o território, então eles fizeram pessoas. Não fomos populados pelos portugueses, mas COPULADOS pelos portugueses! Essas cópulas não obedeceram as regras vigentes na Europa da época e envolveram índios, africanos, e outros europeus. Essa “arte de criar pessoas” sem regras rígidas, que gerou o Brasil mulato, bugre, mameluco, acabou por enraizar-se no imaginário nacional. Além disso, o Brasil nasce governo antes de ter povo. Já no início essa divisão aparece, e essa ainda desenvolve-se pelo contraste de um estado cada vez presente e fortemente atuante no litoral e um processo de interiorização anárquico. O governo se interioriza depois.

O efeito é que o Brasil é dois-em-unidade — o Brasil “anárquico” e o “control-freak”; o “igualitário” e o “hierárquico”; o “hedonista” e o “moralista”; o “localista” e o “nacionalista”; o “livre” e o “burocrático”, o “diversificado” e o “comum”, etc. Nada disso é necessariamente ruim. Há elementos positivos que devem ser encontrados, enaltecidos, e estimulados; até para que os elementos negativos não sejam dominantes. E qual seria o elemento positivo celebrado no Carnaval?

Liberdade gera, ao mesmo tempo, dois efeitos antagônicos: homogeneidade e diversidade. As relações humanas tornam algumas coisas comuns, mas criam tantas outras incomuns — que se misturam, que geram novas, e assim segue. As diferenças encontradas no Brasil, a diversidade, essas chegam de fora ou surgem por aqui e são logo incorporadas — tornam-se comuns; mas preservam sua identidade — continuando diferentes.

Ao ir em direção ao outro, eu me aproximo do outro, e me torno mais parecido com o outro. Se a comunidade for real, ambos tornaram-se mais parecidos um com o outro. Liberdades geram homogeneidade. Ao mesmo tempo, eu preservo minha identidade. A experiência do outro em mim ainda sou eu. Minha opinião mudou, é nova, mas continua exclusivamente minha. Ao interagir com outras pessoas, essa se modificará novamente e novamente e novamente… Liberdades geram diversidade. Isso é puro sexo: dois juntam-se e formam um terceiro comum; mas os três são diferentes entre si. É assim em qualquer lugar, mas no Brasil, por uma série de acidentes históricos, isso fica mais evidente. Liberdade, portanto, é como sexo; é como Carnaval.
 
 Conclusão

Não precisa gostar do Carnaval para reconhecer no que nele há de positivo. O Carnaval é forma como os brasileiros celebramos nossa liberdade em comunidade. Eis, em fim, meu ponto: durante o Carnaval, cada um de nós individualmente celebra, cada um a sua maneira, a liberdade que todos temos em comum — a liberdade em ser “brasileiro”.

— 
Publicada originalmente em:
https://www.facebook.com/sancho.brasil/posts/373344339715110