Estamos todos quebrados (mas tem conserto)

Imagem: Cena do filme ‘Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’. É mais fácil apagar o passado do que ter que lidar com ele?

Temos a ilusão de que somente as pessoas que viveram em famílias desajustadas, sofreram toda a sorte de abusos e humilhações na infância ou algum trauma avassalador em suas vidas tem problemas emocionais e psicológicos que mereçam alguma atenção. Saúde mental ainda é um tabu tão grande que nunca somos incentivados à cuidar dela da mesma maneira como estamos sempre indo ao dentista ou fazendo consultas de rotina. Crescemos sem saber lidar com nossas emoções porque acredita-se que isso é algo que se aprende naturalmente ou que não mereça nosso tempo pois não é um aprendizado que traz resultados visíveis.

E não por acaso as publicações de auto-ajuda estão no topo das mais vendidas. E são elas que nos bombardeiam todos os dias com mensagens de pensamento positivo e otimista. Mostrar-se triste é tido como um sinal de fiasco e fraqueza, além de ser um incomodo para as pessoas próximas a nós. Como você pode estar triste tendo tudo o que você tem enquanto tem gente com muito menos que isso sendo feliz por ai? Fórmulas de como ter uma vida radiante e incrível não faltam. E não por acaso muitas delas movimentam um mercado cada vez mais lucrativo. E vamos vivendo esse ciclo infindável de busca por uma satisfação que jamais alcançaremos, e consumindo tudo o que nos promete alcança-la.

Enquanto isso vamos postando selfies sorrindo ao lado de nossos amigos em algum lugar descolado. Talvez emular alegria atraia alegria, certo? No entanto aquele vazio continua ali, difícil de ser preenchido. Ninguém parece passar por esse tipo de problema já que supostamente estão todos felizes nas suas redes sociais. E assim nos isolamos na nossa tristeza.

A vida moderna é cada vez mais cheia de tarefas. O trabalho ocupa a maior parte dela. Tem também o trânsito, as burocracias para resolver no banco, as tarefas domésticas e outros vários compromissos. Quando nos sobra tempo, buscamos fazer alguma coisa que nos distraia e nos afaste completamente dos nossos problemas. O lazer funciona como um tapete que a gente usa para varrer nossos pedaços para debaixo dele. Só vamos nos dar conta disso quando o tapete não for mais o suficiente para conseguir esconder nossos cacos. Tudo se espalha de forma desordenada e pior, ao tentarmos nos reconstruir percebemos que há algumas partes perdidas.

Isso tudo porque não paramos nem um segundo do nosso dia para olharmos para dentro de nós mesmos. Na ânsia de sermos produtivos continuamos tocando nossa vida porque apesar de algumas partes estarem avariadas ainda conseguimos ser funcionais. Mas uma peça que não funciona acaba sobrecarregando outras e aos poucos vamos ficando cada vez mais quebrados até que um dia nada mais funcione direito.

E sem perceber essas nossas partes que vão quebrando formam pontas afiadas que machucam quem estiver por perto. Quando estamos quebrados acabamos quebrando os outros também. Afastamos quem poderia nos ajudar a colar alguns caquinhos nossos e tudo parece desmoronar mais um pouco.

É tão mais trabalhoso e demorado reparar as coisas desse ponto que parece que não tem mais conserto. Mas se até um vaso chinês de três mil anos pode ser restaurado, é possível sim ajeitar as coisas, apesar de não ser nem um pouco fácil. No final acabamos adquirindo a capacidade de olhar com mais carinho às pessoas a nossa volta e seus estilhaços cortantes.


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