Eu não sou especial (nem você)

Imagem: Cena do filme ‘Ela (Her)’

Sempre tive problema de baixo-autoestima e pouca autoaceitação. Isso me fez uma pessoa insegura e com uma grande necessidade de aprovação dos outros. Eu queria que as pessoas gostassem de mim e me admirassem. Queria me sentir especial. Acabava que meu medo é tão paralisante que não me permite fazer com que os outros me conheçam de verdade.

Reconheço que tenho algumas qualidades, e isso é muito importante. Mas parece que meu olhar positivo sobre mim mesma não basta. Preciso que as outras pessoas validem essa impressão. E quanto mais procuro essa validação, mais pareço depender dela. E isso só se intensificou em um mundo de likes e de ostensivo bombardeio de mensagens de auto-afirmação vindas principalmente das campanhas publicitárias. Querer se sentir especial parece o único caminho de encontrar a felicidade.

Mas nós não somos especiais. E quando achamos que somos esperamos que as outras pessoas reconheçam isso na gente e nos frustamos quando não o fazem. Decerto somos especiais para algumas pessoas, mas não para tantas outras. Essa aura não brilha para todos porque ela não mora em nós, mora na ligação que formamos com tudo ao nosso redor.

As vezes passo em frente à escola onde cursei o primário. É uma construção antiga e continua muito parecida com o que era na minha infância. Certamente é um lugar especial e nostálgico para mim mas sem nenhum grande atrativo para quem não tem um motivo como o meu para sentir apreço por aquele lugar. A mágica toda não está no lugar em si, mas nas lembranças e conexões que tenho com ele. Se amanhã a escola não existir mais e tiver um condomínio de 6 torres no lugar, o sentimento atrelado àquela época da minha vida não terá sido varrido junto com os escombros.

Lembra que todo final de ano letivo assinávamos as camisetas uns dos outros para guardar de lembrança? Uma prima minha ficou muito brava quando a mãe dela lavou essa camiseta, fazendo com que todas as assinaturas desaparecessem. Aquelas assinaturas tinham um real significado para ela mas eram apenas manchas para minha tia.

E assim passamos nossa vida nos ligando a coisas, lugares e pessoas. E muitas vezes essa ligação não é compreendida por terceiros. Porque não nos livramos daquele objeto inútil que só ocupa espaço? Porque gostamos tanto de viajar para aquele mesmo lugar monótono? Porque nos apegamos tanto àquela pessoa que aparentemente nem nota que existimos? Eis aqui um bom exercício de empatia.

A verdade é que a gente funciona com algumas pessoas e com outras não há compatibilidade alguma. Só sabemos disso quando testamos as conexões. E isso não torna ninguém bom ou ruim, apenas diferente. O que de singular teríamos se todos fossem iguais?

Vivemos em um binarismo que nos leva a crer que se alguém não nos ama, então claramente nos odeia. A grande verdade é que não somos tão relevantes assim no universo. Deixemos o autocentrismo de lado para focar no que realmente temos de especial: nossos laços mais apertados com aquilo (ou aquele) que amamos.


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