Não siga o seu coração

Sandra M.
Sandra M.
Aug 8, 2016 · 3 min read

Se eu pudesse dar um conselho, eu diria: não siga o seu coração. Com certeza ele te fará fazer escolhas estúpidas. E pior: nós não enxergamos a estupidez por trás dos nossos gestos e nos confortamos com a ideia de que pelo menos agimos com o coração.

Quem nunca acompanhou a saga de alguém próximo agindo de maneira estúpida como jamais agiria normalmente só porque decidiu seguir seu coração?

Desde o romantismo somos mais fortemente doutrinados para agir com o coração. Nas músicas, nos livros e nos filmes ecoa a mensagem de um amor mais forte que o mundo, capaz de vencer qualquer barreira ou batalha. E esse passa a ser o modelo de amor ideal: intenso, possessivo e instável.

E isso é muito perigoso porque pode classificar atitudes criminosas de stalkers como uma inofensiva atitude romântica e incentivar a continuidade de relacionamentos tóxicos porque se acredita que o “amor é uma força mágica capaz de transformar tudo”. A naturalidade com que tratamos o assunto chega ao absurdo de assassinatos passionais serem noticiados como “crimes de amor”.

Em quem nos transformamos quando supostamente amamos? Expomos nosso sofrimento como se esse devesse ser obrigatoriamente recompensado. A rejeição nos ofende profundamente. Nos sentimos injustiçados ao ponto de desejar mal à quem bradamos aos quatro ventos que amamos profundamente.

É libertador mas ao mesmo tempo aterrorizante notar como tudo a nossa volta nos incentiva e inspira a ter um comportamento doentio.

Acha que estou exagerando? Já reparou na letra de Carinhoso?

“ E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim foges de mim

Claramente uma história de um amor não correspondido em que o apaixonado em negação é insistente e talvez um pouco maníaco.

“Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz”

Ele não se importa se o outro é feliz. O que importa é a felicidade e satisfação própria. O que exaltamos como o maior amor do mundo não passa do maior egoísmo do mundo.

Agir por amor genuíno, aquele que só quer o bem do outro e nada mais, exige sim uma boa dose de racionalidade. Nossas atitudes influenciam a vida de várias pessoas a nossa volta. Qual a melhor maneira de agir sem prejudicar quem nos importamos mesmo que em detrimento das nossas próprias vontades e sonhos? Algumas situações exigem uma delicada reflexão. Nada de tomar uma decisão apressada e agir com o coração.

É exatamente o oposto daquela clássica cena de ficção onde um dos noivos abandona o outro no altar para ficar com quem ele acredita ser o verdadeiro amor de sua vida.

Não que isso inspire as pessoas a fazerem a mesma coisa no mundo real, mas é apenas um exemplo de como somos levados a enxergar atos impulsivos e individualistas como belas provas de amor.

Nem sempre viveremos a épica virada de jogo para o final feliz, como acontece em praticamente todas as comédias românticas. Nunca estará em nossas mãos o poder de decisão das outras pessoas, nem o controle de todos os acontecimentos que podem nos impedir de viver ao lado de alguém.

Nesse caso siga em frente, mas haja o que houver, não siga o seu coração.


Atualização: Leandro Karnal discorre brilhantemente sobre como a história de Romeu e Julieta nada tem a ver com amor:

Porque falar de amor é brega e inevitável

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