A foto do prédio vista do alto

Ilustração do mapa de Londres, por Jenni Sparks

Eu tive um período da minha adolescência — que eu sei que muitas meninas também passaram — de ser muito fã de Orlando Bloom e Johnny Depp. Passava horas lendo entrevistas e artigos de revistas, além de sempre estar atenta ao próximo lançamento e não perder nada da filmografia dos ídolos. Em algum momento no meio daquilo ali, minha revista preferida da época — Atrevida — publicou o endereço de Orlando Bloom para as fãs mandarem cartinhas pra ele.

Fiquei encarando aquele endereço que não fazia sentido pra mim, pois era completamente diferente de tudo que eu já havia visto em um endereço. Era de Londres. Eu não sei se estava obcecada com aquelas palavras e números por poder pertencer ao Orlando Bloom ou se era por ser de algum lugar em Londres.

Peguei aquele coisa que não fazia sentido e em uma das vezes que fui até a biblioteca da Unicamp só pra usar a internet — como sempre fazia naqueles dias sem conexão em casa — joguei no que a gente pode chamar de pré-versão do Google Earth. Aquela confusão mostrava a foto vista do alto de um prédio em um bairro de Londres. Passei um bom tempo observando aquela foto que era de um dia de sol e que, na prática, não dava pra saber absolutamente nada sobre o lugar. Mas aquilo mudou algo em mim.

Em algum ponto daquela busca pelo Orlando Bloom eu percebi que o que fascinava naquela foto era o fato de ser em um outro lugar tão distante do que eu vivia, que nem conseguia imaginar até chegar naquela imagem, de um prédio visto do alto, de um bairro qualquer de Londres, sem pistas de absolutamente nada. O sonho de conhecer e viver em um lugar totalmente novo havia nascido ali, pelos meus quinze anos, depois de uma obsessão pelo Orlando Bloom.

A verdade é que a vontade de fazer um intercâmbio havia surgido naquilo, mas nunca havia sido uma possibilidade concreta. Foi a primeira vez que eu percebi que existia de fato um mundo todo lá fora, que existia distante do que era o meu espaço. Eu sabia da realidade da minha vida, que sempre foi boa, mas com a grana curta. O que acabou me levando a colocar aquela ideia lá no fundo do meu inconsciente, como uma coisa que amaria fazer, mas que improvavelmente não faria.

Muita coisa aconteceu depois disso. Orlando Bloom meio que se aposentou e acabei perdendo o interesse. Comecei a enxergar o Johnny Depp mais como um tiozão bêbado do que um ídolo teen e eu cheguei a vida adulta. No meio do caminho vivi dezenas de romances platônicos, tive uma porrada de empregos, alguns legais outros nem tanto. Entrei pra faculdade de jornalismo e aquela vontade de morar em outro lugar, mesmo que por um breve período de tempo, voltou.

No meio daquele processo de crescer e de me tornar quem eu sou hoje, eu acreditei que não poderia sonhar. E que querer muito fazer algo quando está longe das nossas possibilidades é algo equivalente a acreditar em Papai Noel. Assim eu enterrei aquela imagem, do agora já famoso prédio. Foi assim que passei um grande período da minha vida sem realizar nada de muito interessante. (E tudo bem). Até que um dia eu escutei algo lá dentro de que algo teria que começar a ser feito. E comecei a guardar dinheiro.

Nunca soube bem o qual era o destino daquilo, mas eu que precisava começar, de algum lugar. Um dia, as coisas começaram a ficar pesadas demais e eu lembrei da foto do prédio vista do alto do que poderia ser a casa de Orlando Bloom. E o momento certo aconteceu, eu sabia o que precisava fazer, me organizei e fui. (Pra dizer de uma maneira bem resumida e cheia de atalho, porque não foi nada simples assim)

Eu não precisava atravessar o oceano pra me encontrar, já havia acontecido. Mas eu devia algo pra aquela Sandy adolescente, que ficava encarando a tela do computador analisando uma foto de baixa qualidade de um prédio em lugar algum. Querendo entender quando a vida iria começar, quando seria o encontro com o mundo. Sabia de alguma forma que devia algo a alguém que esqueceu o que é sonhar ou acreditar.

Dublin não é Londres, mas Londres sempre foi um simbolo do que a vida poderia ser, fora daquelas quatro paredes da minha imaginação. E por isso que se extremamente incrível fazer as coisas mais banais no meu intercâmbio, mesmo que seja só ficar sentada na pracinha do bairro tomando chuva. Porque é fora daquela tela de computador e longe da foto do prédio, vista do alto, de um lugar qualquer que não é a realidade.