Reese Witherspoon interpretando Cheryl Strayed no cinema, uma das mulheres que mudaram minha vida

As histórias das mulheres que mudaram a minha vida

(Ou um resumo sobre a minha história e leitura)

Desde pequena meus pais e professores sempre me incentivaram à leitura. Meu primeiro “livro de verdade” foi O Presente de Tino e talvez Uma professora muito maluquinha, de Ziraldo, seja o meu preferido da infância.

Depois que cresci continuei lendo razoavelmente bem, mas tive um período de desencontro na adolescência, que não sabia muito bem que tipo de histórias gostaria de ler. Começar a faculdade de jornalismo me ajudou neste ponto, pois acabei de descobrindo que além de romances, também amava histórias reais.

Mas também meu lado feminista (que, na verdade, sou eu inteira) me fez gostar cada vez mais de ler livros escritos por mulheres e a amar as histórias delas. Algumas me transformaram completamente. Raramente personagens femininas escritas por homens conseguiram atingir a dimensão do que é ser mulher neste planeta. Quase sempre são rasas e inverossímeis.

Mas isso tudo vocês já sabem. Existem ótimos textos que tratam disso e da importância das mulheres contarem suas próprias histórias. E saber disso, não me fez ter ideia do quanto isso era transformador pra minha vida. O mais importante de tudo foi aprender que ler sobre a vida destas mulheres me deixava cada dia mais forte e mais segura.

Elas me mostravam a cada linha que eu poderia mais, que nós poderíamos ser mais fortes todos os dias. Que nossas vidas deveriam ser muito mais do que haviam nos prometido. Mas que nossas histórias não se tratavam apenas de superação. Não moramos em um pedestal e sim em uma realidade bem dura.

Tilda Swinton como Eva na adaptação do livro para o cinema, aceitando o destino que a sociedade a tinha reservado.

Acho que a primeira história que me deu esse insight foi Precisamos falar sobre Kevin. Lionel Shriver escreveu esse thriller maravilhoso sobre a mãe de um garoto, responsável por um massacre na escola, tipo o de Columbine. Eu não sabia que estava prestes a entrar em um mergulho numa história sobre maternidade, mas lá estava eu, me afundando cada milímetro mais naquela realidade.

Na ficção essa foi a primeira vez que percebi como não é fácil ser mulher neste mundo. Até então, só havia lido histórias de fantasias em que nós não tínhamos uma história, uma personalidade, apenas um papel. Ver uma mulher bem sucedida e que nunca quis ser mãe sucumbir daquela forma era revelador pra mim. Estamos sempre à espera do julgamento da sociedade.

Cheryl Strayed na jornada mas doida da sua vida.

Depois de algum tempo, acabei começando Livre, da Cheryl Strayed, meio que por acaso e acho que foi a história que mais mudou a minha vida. Em meio a uma pilha de decepções na vida, Cheryl decide realizar a Pacific Crest Trail — carinhosamente chamada de PCT –,uma trilha que vai da fronteira dos Estados Unidos com o México até a outra fronteira com o Canadá. A pé.

Conhecer a jornada real da Cheryl me fez perceber que Na natureza selvagem era praticamente nada. As coisas que fazem um homem largar tudo são completamente diferentes do que é pra uma mulher. Ela enfrenta o maior desafio de sua existência para salvar sua vida. Pra superar o fim de seu casamento, um aborto, a morte de sua mãe, o vício em heroína. Essa mulher carregava um fardo enorme e ler aquilo me dava forças.

Chimamanda transformando a vida de milhares de pessoas.

Depois fui parar em Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, e tive a maior aula sobre racismo na vida. Ela tem aquela capacidade de inserir pequenas realidades aos poucos, pra gente ir digerindo e percebendo um nova cenário. Chimamanda mudou a minha vida e este é um livro transformador.

Saber de algo é completamente diferente de perceber. E ela me mostrou isso. Encontrei na vida de Ifemelu e dos nigerianos realidades muito brasileiras. Eu consegui me colocar em uma história que não era a minha e abraçar um feminismo completamente novo com a Chimamanda.

Mia Wasikowska enfrentando o deserto australiano como Robyn para o cinema.

Agora fui parar em um livro que já queria ler há algum tempo, mas que nunca tinha tido a oportunidade, Trilhas, de Robyn Davidson. Eu havia descoberto essa história louca por causa do filme, de uma mulher que quer atravessar o deserto da Austrália com três camelos e sua cadela. Isso na década de 1970. Outra jornada real que me ensinava a cada linha que o direito a nos aventurar não era dado como aos homens.

Nos merecemos contar nossas próprias histórias. Vivemos ela todos os dias e escrever sobre não é só um ato político, mas também transformador. Somos capazes de mudar o mundo provando que somos reais, que temos nossos próprios sofrimentos, todas as barreiras, mas também que podemos. Leia mulheres.