Estamos indo de volta pra casa

Ilustração de Siiri Väisänen

Há pouco mais de uma semana eu pisei em solo brasileiro depois de dois anos e dois meses longe de casa. Antes de embarcar pra Irlanda eu pensava na volta, porque eu sabia que iria voltar, apesar de todos os comentários das pessoas que me tratavam como se eu fosse desaparecer. “Ah! Esses aí não voltam mais”, comentavam como se eu e meu namorado não estivéssemos presentes no mesmo ambiente. Eu nunca acreditei nessa versão, mas houveram momentos em que quis. Não consigo negar que a ideia de desaparecer sempre foi tentadora pra mim.

Antes de embarcar eu me imaginava de volta ao Brasil. Eu sei, é louco. Eu queria tanto sair, que chegava a ser inimaginável a ideia de pegar a vida de sempre como se meu momento irlandês nunca tivesse ocorrido. Mas é que me dava medo. Eu tinha muito medo de chegar de volta e não conseguir me adequar, de perceber que ainda era a mesma, de que tudo foi uma grande perda de tempo. Ou pior ainda, de realmente ter desaparecido como todo mundo previa. No fundo, a gente não quer desaparecer.

Reviver os últimos dois anos é impossível, porque eu vivi uma vida inteira dentro de um capítulo da minha vida. Houveram momentos em que eu sonhava estar no Brasil, que a saudade era insuportável. É verdade que a maioria dos momentos existem com a gente não conseguindo mais lembrar como que era a nossa vida antiga. Tem horas que não dá pra imaginar uma vida dentro do Brasil. Tem horas que a gente não consegue suportar estar fora. Estar longe é uma montanha russa de emoções que chega a dar vontade de desaparecer mesmo.

Por mais que tenha dedicado muitas horas da minha jornada imaginando como seria voltar, nada do que pensei poderia ter criado o que encontrei quando meus pés pisaram no solo da minha pátria. Aquele lugar mágico em que não preciso me explicar pra nenhuma imigração, como se estar em outro país fosse um crime. Aquele pedaço de terra que o sol brilha mais do que se esconde. O lugar que a gente encontra abraços conhecidos.

O Brasil que eu voltei é um lugar triste, de ruas vazias e de expressões preocupadas. Voltar me fez especialista em ouvir histórias de dificuldades, dos conhecidos, das pessoas nas ruas, nos mercados. De repente, toda a nossa esperança falhou. O Brasil sempre foi difícil, não importa o governo, parte da história em que observamos, década em questão. Sempre foi difícil. Mas parece que o que diminuiu foi a esperança de que algum dia a gente vai parar de se comparar com o que acontece no mundo fora do Brasil pra gostar mais do que somos. Será que a paulada do retrocesso foi um pouco demais pra geração que acreditava?

Ou talvez eu tenha desembarcado vinda de um lugar em que a esperança era o sentimento predominante nas ruas. Um país se recuperando de uma crise, em que a economia cresce, de gente discutindo progresso, reconhecendo pautas que não diz respeito a nenhuma religião. Vivendo vidas de privilégio que nunca experimentamos em terras tupiniquins. Afinal, o melhor ditado pra definir a vida que sempre tivemos é a de que a alegria de pobre dura pouco.

Voltar pra casa é mais fácil do que minha imaginação criou, embora a decisão tenha sido mais difícil do que parecia ser. No fundo, a gente tem as respostas dentro de nós, mesmo que elas demoram a ser reveladas. Nós sempre soubemos onde é o nosso lugar, embora a gente possa ter perdido o endereço em alguma parte do caminho. A gente sabe onde fica o nosso lar, mesmo que ele pareça um pouco diferente agora. Mesmo que houveram horas que a vontade era mesmo de desaparecer.