Eu, escritora

(ou uma breve história sobre a escrita na minha vida)

Sandy Quintans
Jul 24, 2017 · 6 min read
Workspace por Fumi Koike

Quando eu era bem criança, comecei a nutrir uma certa obsessão com leitura e escrita e sempre que via as pessoas adultas executando essas tarefas, pensava que aquilo era o equivalente a ter superpoderes. O que fazia aquelas pessoas entenderem aqueles códigos indecifráveis e conseguissem captar uma mensagem? Aquilo era algo completamente mágico.

Foi assim, que ainda na pré-escola, aos seis anos, troquei muitos momentos de brincadeiras pelas oficinas de escrita e leitura, porque eu queria a todo custo ter superpoderes também. Foi assim que cheguei na primeira série já sabendo ler e escrever as coisas básicas. Meus pais me ajudaram muito também, comprando vários livros que eu guardo até hoje.

O primeiro exemplar que eu ganhei foi “O presente de Tino”, que eu gostava muito porque ele tinha um All Star vermelho e o melhor amigo dele chamava Samuel (igual ao meu pai). Depois teve “Uma professora muito maluquinha”, do Ziraldo, que tive o prazer de ganhar um autógrafo na minha edição depois de adulta.

Foi assim também que sai lendo tudo o que via pela frente, placas, recados, rótulos e o que houvesse na minha frente — tudo em voz alta. Tenho certeza que minha família lembra dessa minha fase. Inclusive, nas imagens do casamento dos meus pais, tem uma cena completamente dedicada a mim lendo a faixa enorme que estava pregada no fundo da igreja, enquanto o padre desejava os votos ao casal. Coisa de quem tinha acabado de adquirir um superpoder.

Ler continuou tão importante pra mim, que conseguia assistir filmes legendados já bem nova, o que me deu a capacidade de absorver informação rápida. Sabe aquela coisa de ler, interpretar, ouvir o que os atores estão dizendo e ainda observar a cena ao mesmo tempo? (Na verdade, também não tinha muita opção a não ser assistir legendado, pois não tínhamos DVD nessa época).

Eu li sempre na minha vida, mas nunca li uma quantidade exorbitante de livros e informações. Embora possa parecer que sim. A verdade, é que sempre dediquei minha atenção a coisas diferentes, apesar de a leitura estar presente o tempo todo na minha vida. Conheço leitores muito mais consistente do que e com uma memória muito melhor.

Foi quando eu entrei nos meus 16 anos que eu comecei a escrever. Antes, eu adorava as tarefas da escola e sempre tirava notas boas nas redações (o que não é difícil de acontecer, se você tiver certa consistência, sabe). Mas foi lá pelo final da minha adolescência que comecei a criar o processo de expressar o que eu tinha em um blog.

A verdade é que começar a criar os meus textos mudou completamente a minha maneira de existir, pois absolutamente tudo virou material pra escrita. Eu passava muito tempo produzindo coisas completas na minha cabeça, inclusive com pontuação . Eu ainda tenho isso, de escrever algo na minha mente e depois materializar em poucos minutos onde quer que seja o lugar de publicação. Eu sou metódica e esse é o meu processo.

Começar um blog transformou minha maneira de enxergar o mundo em textos. E isso permitiu com que eu desenvolvesse um monte de partes de mim, desde o meu primeiro blog (que eu tenho até hoje e que fica aqui).

Quando eu tornei a coisa como profissão, sendo eu formada em jornalismo e já ter recebido dinheiro pra escrever, a coisa não mudou muito. Bastasse eu ter material suficiente pra fazer aquilo funcionar. Também me vi em vários momentos tendo que tirar leite de pedra, mas trabalhar com escrita tem disso. Você precisa produzir independente da sua vontade. Porém, um pouco de experiência faz com que você crie o eu, automático, aquela parte que irá te fazer escrever sem se esforçar (mas também sem emoção).

Foi por causa disso que nunca questionei a qualidade do que eu escrevo. E acho que por isso também, nunca me importei em saber se era bom ou ruim, embora eu sempre soubesse que tinha capacidade pra viver disso, pra me virar. É estranho ignorar a qualidade do que a gente faz, principalmente em algo que exige prática, mas eu comecei a escrever porque isso era a coisa que mais fazia sentido na minha existência. E se fosse ruim, eu continuaria fazendo porque não poderia parar.

Eu passei a ignorar isso porque em algum ponto da minha vida eu aprendi que só conseguimos entender a dimensão de um trabalho quando nos afastamos dele. Na faculdade de jornalismo os professores diziam que sempre era bom entregar seu texto para outras pessoas lerem, porque depois de algum tempo não encontramos mais nada ali. E é verdade.

De tempos em tempos, eu perco umas horas da minha vida lendo coisas que eu escrevi e tem horas que me surpreendo com pensamentos do tipo: “isso é realmente bom, eu leria”. E é só aí que a gente lembra de ter ficado apreensivo na hora dar o clique pra publicar, acreditando que aquilo não fosse o suficiente. Mas expressar um momento ou uma ideia é sempre suficiente, mesmo que talvez não seja da maneira mais correta possível.

Na minha visita mais recente aos meus textos espalhados pela internet afora, nos mais variados lugares — em cantinhos meus ou em colaborações — finalmente encontrei histórias de que me orgulhasse e talvez eu tenha entendido pela primeira vez qual é o meu papel como alguém que escreve. Mesmo há três, quatro anos, eu já apresentava algo que é a minha voz e que tem a personalidade de escrita que eu tenho agora. Eu sou a pessoa que fala sobre as minhas experiências.

Eu sei o que está pensando, que eu passei dez anos pra descobrir que o que eu sabia fazer era falar sobre eu mesma. Colocando dessa forma, realmente parece bobo. Mas eu pensei que as histórias que mais me transformaram e que fizeram maior sentido pra mim eram aquelas que falavam sobre experiências, pessoais ou relatos de outras pessoas. Eu aprendi que quando falamos de nós mesmos, falamos de outras pessoas também. Porque todos temos medos, inseguranças, problemas, coisas a superar e coisas pra sorrir. Mesmo que uma história atinja apenas a um alguém, ainda será uma missão que cumpriu seu objetivo.

Ontem mesmo, me emocionei lendo a um capítulo do livro da Drew Barrymore, que ela contava sobre a morte da sua cachorra e o quanto aquilo ainda a afetava mesmo depois de anos. Enquanto ela descrevia a relação que tinha com aquele bicho de estimação, de alguma forma eu senti que estava falando sobre a minha relação com a minha Tatá — o melhor cachorro que existiu na face da Terra, embora todos os cachorros sejam criaturas sagradas. Até mesmo uma das maiores estrelas desse planeta tem algo a dizer que nos coloca no mesmo lugar, que nos conecta. Nós estamos no mesmo buraco.

E essa é a maior lição que eu tirei da minha breve experiência de tornar a minha vida em um grande texto e as minhas relações em um grande material bruto pra me conectar com outras pessoas. Mesmo conhecendo a minha voz e o significado que meus textos, ainda que de qualidade duvidosa, eu não consigo me colocar como escritora. Mas eu sei que escrever é o que faço e é o que eu vou continuar fazendo enquanto for permitido. Porque esse é o meu superpoder, que eu compartilho com você agora.

“Escreva sobre nós algum dia” — Cena de As vantagens de ser invísivel e o sonho de Charlie em ser escritor.

Se você quiser me visitar algum dia, atualmente eu escrevo aqui, aqui e aqui no Medium mesmo.

Sandy Quintans

Written by

Jornalista, que viveu em Dublin por dois anos e que encontrou na internet um espaço pra ser ela mesma. Reside no planeta terra since 1990.

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