Kit de primeiros socorros

Klara Söderberg, uma das irmãs que formam o First Aid Kit, retratada pela The Fix Magazine

Eu estava sentada na minha cama lendo, enquanto meu namorado assistia vídeos no Youtube, como sempre fazia. Acho que via vídeos de músicas, talvez pra se inspirar e compor coisas novas, talvez pela simples curiosidade. E então nós as vimos, a dupla de irmãs suecas, Klara e Johanna que formam o First Aid Kit. É claro que naquela hora não sabíamos seus nomes ou origens, apenas que víamos algo que não se vê todos os dias. Assistíamos a duas meninas cantando em harmonia perfeita e com letras fortes demais para a idade delas, mas que dizia tanto. A canção era Ghostown, que fala sobre um amor não correspondido e que teve de ser deixado pra trás. Era incrível.

Sempre fui uma garota pop rock, que mais tarde acabou se provando um indie rock. Sabia pouquíssimas coisas sobre o folk. O máximo que tinha me arriscado era com Beirut e sua eterna Elephant Gun. Ou nas canções de Johnny Cash e Bob Dylan, que na maioria das vezes soava mais como um rock pra mim. Não entendia a linguagem daquela coisa nova que estava sendo cantada pra mim. O que eram aquelas harmonias? E de letras tão profundas?

Enquanto ele caía de cabeça no som daquelas meninas, deixei de lado. Mas depois que meu namorado ouviu tantas vezes o The Big Black and Blue, o primeiro álbum delas, acabei passando para o meu celular e ouvia aquilo sem parar.

Já havia me apaixonado por música algumas vezes. Aconteceu com o Elvis Presley, antes de conhecer os The Beatles e depois que os conheci também. Ou quando descobri Coldplay lá pelos meus 14 anos. Ou até mesmo nas vezes que me vi chorando com as carreiras solo de John, Paul e George. Ou com a Norah Jones. Até mesmo com Ryan Adams. Me apaixonar já havia acontecido diversas vezes. Mas aquilo ali que sentia por aquelas meninas era amor.

Fechava os olhos e parava tudo que tava fazendo pra mergulhar naquelas canções. Mesmo depois de ouvir inúmeras vezes. Prestava atenção em cada harmonia de vozes, nas letras, em cada instrumento. Quando The Lion’s Roar entrou na parada, o segundo álbum, o amor só aumentava. E daí veio Stay Gold este ano, que só trazia mais evolução da dupla de jovens artistas.

Já se passaram mais de três anos desde aquela tarde que as descobrimos. Quase nem tínhamos vídeos ou materiais para ler sobre elas, enquanto agora o mundo as descobre. Perdi as contas de quantas vezes sonhei que as conhecíamos ou que íamos a um show delas.

Geralmente quando escuto uma música repetidamente, acabo enjoando. Quando aprendo a cantar ela perde a essência. Não foi o que aconteceu com nenhuma canção de First Aid Kit pra mim. Porque estas canções elevaram a minha compreensão de música a um outro patamar.

Uma vez, li uma entrevista delas dizendo que não tiveram uma criação para a música folk, assim como aconteceu comigo. Mas um belo dia, elas ouviram uma canção de Bright Eyes e foi como uma revelação. A música folk para elas, assim como para mim, tem um significado muito sincero e com melodias que nem todos os gêneros consegue expressar.

Por isso, depois delas muitas outras bandas vieram, também tive minhas paixões dentro do folk. Mas elas permanecem como o kit de sobrevivência, um sonho que desejo realizar, um novo significado para a música. Tudo que elas tocam parece se transformar em ouro. Música atrás de música.