O Brasil que nasce quando estamos longe

Eu, olhando o mar dos gringos e sentindo falta das praias brasileiras que detesto frequentar (Foto: Vinícius Novaes)

Eu sou aquela pessoa que quando está numa roda de conversa defende seu país com unhas e dentes se por um acaso o tópico for a velha síndrome de cachorro vira-lata. Eu não acho que nenhum lugar no mundo é melhor do que onde eu nasci. Porque a construção de quem eu sou é cheio de partes indissolvíveis do Brasil.

Mesmo assim, há um mês peguei minhas coisas e me embrenhei num intercâmbio pra estudar inglês e pra sentir saudades de casa. Ver o mundo lá fora era um sonho de adolescente, porque eu queria conhecer tudo pra voltar e dizer “não há lugar mais precioso que nosso lar”. (E também por estar cansada de ser uma jornalista que não fala inglês).

No entanto, nunca acreditei me encaixar no perfil de brasileiro clássico, aquele que arruma qualquer motivo pra fazer uma festa, que não perde uma partida do Brasileirão e que torce pelo Carnaval como quem espera se tornar milionário. Não sou de galera, sou do meu canto e dos livros. E eu vi toda essa vida acontecendo e achava efervescente, mas não me sentia parte daquilo. Só achava interessante.

Quando cheguei aqui em Dublin, que é lugar que me senti acolhida pelas pessoas — considerando que são gringos e que não conhecem a receptividade do brasileiro — , descobri um Brasil em mim. Conheci um choque cultural, que na verdade é divertido.

Quando vim morar aqui não tinha acomodação fixa e eu meu namorado começamos a fazer diversas entrevistas pra encontrar um endereço pra gente. Quando entrávamos nas casas dos gringos, achávamos estranho que ninguém se cumprimentava com aperto de mão (no mínimo, né?), que não nos ofereciam nem mesmo um cafezinho (ainda que ruim) e que não riam das nossas piadas quando estávamos falando alto e gargalhando. De repente surgiam aqueles olhares silenciosos de gente sem graça. Amamos a experiência.

Quando achamos um gringo que não se importavam com as nossas risadas o tempo todo nas conversas e que aceitaram morar com a gente, começamos outra jornada de conhecimento. De repente estávamos limpando a casa toda, estranhávamos quando ninguém lavava a louça depois da refeição e que o café era solúvel. No banheiro não havia lixo, a água não era aquecida todos os dias (quem precisa tomar banho todo dia na Europa? Os brasileiros!). A lista de estranhamentos é infinita.

Em poucos dias trocávamos aquelas bandas gringas que ninguém escuta pra ouvir Legião Urbana, Los Hermanos e Zé Ramalho. Também tinha aquele álbum da Rita Lee que remetia à infância, Fruto Proibido. Coisas que nos faziam sentir em casa, mesmo que nunca tivesse tocado em uma playlist nossa no Brasil. Era apenas uma memória cultural de tudo que nos formava desde o nascimento.

Nasceu um orgulho de sermos quem nós somos, não por sentirmos melhores que os gringos, mas por sabermos do que somos feitos. Eu sai do Brasil pra encontrar o meu lar numa ilha cheia de gente legal e que fala difícil pra conhecer o lugar de onde eu vim.

Meu maior desejo é que todos os brasileiros pudessem ter uma jornada de auto conhecimento pra saber o quanto somos incríveis. Pra ter força pra resolver coisas que não nos orgulhamos tanto assim e que não deveriam fazer parte de nós.

De alguma forma nós sabíamos qual era a fórmula pra se sentir perto de casa. Compramos um coador pra passar um café toda manhã, procuramos o arroz mais similar ao nosso, pra comer com um franguinho frito. Quando íamos lavar a louça, inconscientemente existiam as vozes das nossas mães dizendo que queria ver tudo brilhando quando voltasse do trabalho. Nosso lar passou a morar dentro de nós, porque, no fundo, o Brasil existe no coração de cada brasileiro.

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