As Coisas Mais Estranhas (versão brasileira, Herbert Richers)*

*de acordo com o algoritmo do SansaFlix, o texto fica melhor na cia inestimável do Joy Division

Entre o final dos 70s e o começo dos 90s, existiu um pedacinho de Terra do Nunca carinhosamente conhecido como anos 80. Por ali brandiram espadas, domaram crocodilos e espalharam seu pó mágico bandas, artistas, desenhos, filmes e programas que pareciam destinados a serem lembrados apenas em papos nostálgicos de bar ou numa noite da Trash 80s embalada por hi-fi de Crush Laranja e aquele pout-pourri imbatível de Balão Mágico, Trem da Alegria e Polegar.

Até que do meio dos mullets do MacGyver, do topete do Alf e do olho da espada justiceira surgiram os deliciosos capítulos de Stranger Things, a nova produção homemade da Netflix. Cerca de 450 minutos que devorei ininterruptamente, passando da TV ao notebook, do note ao app no celular e do aplicativo ao Google, para tentar sorver um pouco mais daquele canudinho com gosto de Grapette. Confesso que nem quando fazia maratona de Sopranos, Lost e Breaking Bad emplaquei 8 horas in a row, segurando lágrimas, sono e xixi para saber o que aconteceria com Eleven, Mike, Dustin e outros personagens que pareciam ter se materializado de uma página amarelada da coleção Vagalume.

Mas afinal, o que faz Stranger Things ser tão especial a ponto de até o IMDB se render, alçando-a a um vôo de popularidade acima dos imponentes dragões de Game of Thrones? Ou ainda: como os Duffer Brothers conseguiram ativar os botões do Genius que repousava numa masmorra do castelo de Grayskull?

As respostas, apesar de variadas (há quem tenha curtido e pronto, oras) apontam para o mesmo portal: a aura dos tabuleiros, jaquetas, lanternas e bicicletas que imediatamente trouxeram à memória clássicos oitentistas que você pode acessar aqui.

Se deu preguiça de clicar no link, eu retomo: E.T., Alien, A Hora do Pesadelo, Carrie, Conta Comigo, Goonies e Contatos Imediatos de Terceiro Grau são parte do conjunto de filmes, aromas e sensações que permearam o que talvez tenha sido a última década onde se criou sem a necessidade de agradar e fazer de cada mergulho um flash. Que o digam Madonna, Michael Jackson, David Bowie, Martin McFly, Ferris Bueller, Daniel San. Ou, para ficar mais por perto, Renato Russo, Cazuza, Paralamas do Sucesso, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Sou como sou, aonde vou eu acho a minha saída: ainda que de forma atabalhoada e com penteados e vinhetas duvidosos, os anos 80 pareciam saber a que vieram. Sem a internet, as redes sociais, aplicativos, memes e hypes de 24 horas, restava a todos nós sermos antes de parecermos. E assim, sobrava mais tempo para usar a imaginação, narrar histórias num rolar de dados e tocar aquele híbrido de tecladinho com guitarra que roubava a cena em todos os playbacks dos grupinhos na TV. Sou como sou e seguirei: a vida é pra ser vivida.

Voltando ao tema desse texto: com tantas opções de entretenimento disponíveis, as pessoas pareciam procurar por piadas menos forçadas, paletas menos saturadas, refrões menos apressados… algo que lhes devolvesse o sentido do simples, do espontâneo e do natural. A primeira bicicleta sem marcha, o primeiro beijo roubado, a amizade entre futuros adultos que sabem que não se mente para um igual.

Ao apostar no cavalinho preto do Bozo, a Netflix acertou na mosca. Assim como acertou ao trazer de volta ícones da neverland como Winona Ryder, Matthew Modine, adolescentes que parecem saídos das melhores cenas de Breakfast Club e crianças dignas das aventuras vividas pelos Goonies ou personagens inesquecíveis de Pedro Bandeira.

Em busca do sucesso de audiência, algoritmos da big data podem até ter sido ativados - como parece ter sido o caso da equação Kevin Spacey + David Fincher = House of Cards. Mas aqui entre nós: não precisava de muita tecnologia e cruzamento de dados para saber que o mapa do tesouro sempre esteve em nossas memórias afetivas. Como gravar uma mixtape para o irmão mais novo, dividir uma cabana de cobertor ou reunir os amigos da rua para assistir a um filme dublado. De preferência com versão brasileira Herbert Richers.