O caos somos nós
Por entre todos os lugares que me desloco você me acompanha, e queria poder me olhar com os mesmos olhos que você me vê. Cento e oito meses se foram e me encontro com os traços que me faziam delirar por entre o tempo. Por mais que a força é presente, me vejo novamente nas mesmas páginas que subverto em canções que me ajudam a dormir e abrir os olhos de manhã. Lembro das noites adolescentes e que nunca deixaram de ser por simplesmente sermos nós. Meus olhos sempre encontraram os seus apesar de toda prepotência e despreparo pra lidar com o amor. Nunca passei por um sonho tão longo, que me alimentava todos os dias nas horas que mais necessitava e procurava — eu não acreditava o quanto encontrava. Pelo asfalto cru da cidade minhas mãos no seu rosto me guiaram pra um céu que caminho e desacredito da vida que havia voltado pra mim, e como meus inimigos, antes mortos, caminhavam em direção a mim lentamente e eu não previa o desastre iminente que vinha com eles. Meu amor, prover seu sorriso foi a causa da minha salvação. O frio me gelava por fora e incessantemente nosso fogo interior me queimava até eu me misturar no seu abraço.
Eu não me entendo, mas o desafio que você constantemente me trazia me alertava a caminhar por entre os espinhos que cortavam a minha pele, e no final do caminho suas mãos estariam lá para me curar. Nós nos somos estranhos agora, e eu grito por fora pra verbalizar a miséria que meu corpo passou e passa toda vez que você se vai. Participei com medo de entregar minha desordem nas suas costas, mas ela transbordou até chegar aos seus pés. Você acompanhou de perto e suportou os meus defeitos e marcas- Quantas vezes no ônibus não acreditava numa das raras surpresas que minha vida me trouxe, todas as cicatrizes que me levaram até você, todas as circunstancias dolorosas. E ainda não sei pra onde ir. Desaparecendo em você. As vidas que eu tinha com você se acabavam e eu deixava morrer, pra tentar ser menos doloroso na hora de ir. Eu odeio ir.
Todas as más resoluções do passado foram entregues nos seus braços e você cuidou o máximo que pôde suportar, enquanto eu adormecia lentamente pensando em nós com lágrimas escorrendo no meu rosto. Nunca pensei que eu me confundiria tanto, que eu me afastasse tanto, que eu me amedrontasse tanto pelas situações postas à minha frente com medo do piegas, com medo de me asfixiar por estar respirando. Eu temia ser mais algo deixado e largado dentro de você. Queria poder navegar nas chances que você me deu e tomá-las pra mim da forma que você fez. Minha imaginação anseia pra me matar. Me desculpe por não largar o meu pedestal. Me desculpe por pegar a estrada mais dura. Me desculpe por jogar poeira nos seus olhos. Achei que daria tempo de limpá-las. Os conceitos se quebravam no meio e eu não sabia o que poderia acontecer, então o melhor seria remediar, porque só assim pra não passar o aperto de noites em claro de cento e oito meses atrás — as mesmas que acontecem agora.
As estrelas que encaro agora me recordam de todas as noites que pareciam parar no tempo e nos abandonava no infinito. Você me acompanhava onde ninguém quis. Eu mostrei tudo aquilo que não consegui mostrar pra ninguém. Me despi por vezes que eu não percebia, isso era a representação do quanto me sentia livre com e em você, e como seu coração e seu corpo me faziam aproximar de você mais e olhando pro presente mais brilhante — o brilho do futuro era construído pouco a pouco. Eu louvei isso. 2 horas sozinhos e o relógio não existia. Era deitar na cama e a paz de um sono que agora não existe vir me embalar. O dia brilhava sem parar. O rádio tocava a canção mais triste e seu colo me esquentava até os pés, e toda eletricidade acontecia como se a lua me abençoasse com a magia mais bela e envolvente. “Com você não vou ter medo” — acho que tive. Eu só queria deixar meu quarto arrumado se caso tudo fosse destruido, mas acho que convidei a dor e nos contaminei. Não pertenço a ninguém e a todo mundo, no meu mar nado e você nada comigo, eu me afogo e você afoga junto. É isso no final. Sentir que posso continuar mesmo se o perigo de se afogar é permanente.
Como vou arrastar você comigo? Rasgo minha própria pele, eu sonho os meus sonhos e ainda caio no desejo da sua pele na minha. Tudo com você foi um sonho, você vê o que eu vejo? Todo pensamento meu a você se relaciona com todas as coisas boas que tenho na minha memória — nas maratonas somente de você. O campo verde da minha infância, os beijos na rua à meia-noite, a profundidade do meu coração quando choro. Você acreditou em mim. Não há fim pra um amor como o nosso, na escuridão vasta de tudo aquilo que esquecemos e lembramos, no tempo fulminante de todos os dias, na solidão dos dias frios, na excitação das noites quentes, nas cicatrizes que vemos ao olhar no espelho, na ansiedade do futuro que bate na porta, nas dezenas de escolhas que enfrentamos, na insônia preenchida com a memória de dias melhores, em todos os sons que me lembram você, na banalidade de todo o resto. Minha respiração sempre vai ser a sua. Em qualquer hora que eu te conhecer, é sempre impossível não me apaixonar por você.
“Uma lástima haver te conhecido nessa época em que nada dura”.
Fique em mim.
