Uns aos outros

Amor não é uma palavra de uma definição simples e fácil. Pelo menos no português dizemos que amamos comida, lugares, coisas, pessoas sem alterar a palavra amor. C.S Lewis tem como um de seus best-sellers o livro “os quatro amores”, no qual o título já nos traz a complexidade do que a palavra amor pode significar. Já no grego existem dois tipos de palavras que significam o amor, mas em situações diferentes. No caso eros que seria no sentido de afeição por alguém onde há o desejo pela pessoa. E a ágape que tem como significado doar-se a alguém, do tipo “Eu te amo tanto que daria a minha vida pela sua”. E é exatamente neste ponto que gostaria de chegar. O amor ágape!

No evangelho de Mateus vemos Jesus muito enfático dizendo:

“ Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua mente… Ame o seu próximo como a si mesmo. Toda a lei se baseia nesses dois mandamentos”.

É o “novo” mandamento que Jesus traz a seus discípulos. O texto a princípio é muito claro ao dizer: Ame o seu próximo como a si mesmo, porém uma das minhas maiores dúvidas sobre o cristianismo e como coloca-lo em pratica é baseado neste versículo, o que surge perguntas tais como:

Como amar o próximo como a mim mesmo? Eu preciso me amar para poder amar o próximo? Eu preciso amar de uma forma equilibrada para que não fique em déficit o próximo nem a mim mesmo? Ou não preciso obter um amor próprio para amar o próximo?

Enfim, diversas questões surgem na minha mente quando eu me deparo com esse texto.

Algumas conversas com amigos me fizeram a chegar próximo de uma conclusão, mas ainda sim meio duvidosa, porque diante desta situação, se não tivermos o amor próprio, ou seja, se não estivermos bem consigo mesmos, daqueles momentos que nos vemos no espelho e odiamos aquilo que vemos, consequentemente não seria nada saudável amar o meu próximo, desta forma, conclui-se que devemos sim nos amar para conseguirmos amar ao próximo. Por outro lado, existe a questão de que independentemente da sua situação, você deve amar ao próximo, caso você esteja com uma autoestima baixa, para amar ao próximo você não precisaria “se concertar” para obter um amor saudável porquê nesta perspectiva o principal foco sempre será o próximo e não a si mesmo. (E talvez seja essa a que mais me chama atenção).

Nas escrituras eu consigo encontrar respostas positivas para as duas situações. Tanto para o caso do amor próprio quanto para o foco como o seu próximo. Em Gênesis Deus ao formar o homem e disse claramente que seriamos a imagem e semelhança dEle, com isso podemos supor que não haveria nenhuma chance de a minha autoestima ser abalada de alguma forma e que o nosso amor próprio, ou neste caso uma confiança/segurança em si mesmo, estaria completamente equilibrado a ponto de amarmos o próximo. Porém, no evangelho de João vemos que

“ Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único”

Ou seja, o amor ágape, Ele doou seu filho para que tenhamos uma vida eterna. E talvez este seja o “pior” dos cenários pois Ele conhece o seu povo e a grande capacidade que o ser humano tem de fazer as coisas inversas daquilo que Ele tratou como o sentido natural das coisas e mesmo assim se entregou por amor à nós.

E como agora ficaremos diante disto? Sabemos que Deus é amor, se somos imagem e semelhança dEle, logo teríamos que ser amor também. Consequentemente o amor ao nosso próximo seria exatamente da forma que Ele nos amou.

Eu concordo em dizer que precisamos sim nos amar, mas de forma MUITO equilibrada. Com os cuidados a serem tomados, porém, o amor Ágape é o que faz sentido e é o amor que Jesus deixou como um mandamento.

“ Amem uns aos outros como eu amo vocês. Não existe amor maior do que dar a vida por seus amigos. Vocês serão meus amigos se fizerem o que eu ordeno”.

Ele é o mais puro exemplo do amor verdadeiro e daquela famosa definição de João de que Deus é amor (e que muitas vezes, infelizmente ela é seguida pelo “mas também é Justiça” tirando todo o foco do amor. Infelizmente porque a justiça não pelo fato de que Deus não seja, sim ele é. Porém, a Justiça aqui é tratada como um ódio que definitivamente não cabe como uma definição de Deus!).

Paulo, mesmo perseguindo todos os cristãos da época. Contrariando todos os dizeres de Jesus, ao se converter a Cristo, o que Ele mais enfatiza é o “amar uns aos outros”. (O que me impressiona muito, pois Paulo não conviveu com Jesus, mas é totalmente coerente com os seus dizeres e com as ideias passadas pelos próprios discípulos de Jesus quando trata-se do “amar uns aos outros”. “Amem uns aos outros como irmãos” 1Pedro 4). Em cada carta que ele escreve, Paulo deixa muito claro a necessidade de amarmos uns aos outros. Em Efésios, ele define o povo como um corpo e para nos tolerarmos pacientemente uns aos outros em amor. (4.2).

É muito claro a ênfase que a escritura nos dá em relação ao amor: Amar uns aos outros. Porém é dificílimo está missão. Estamos com problemas o tempo todo, nossas relações estão cada vez mais destruídas, segundo Bauman, cada vez mais líquidas:

A busca do prazer individual é o fim último da sociedade líquida. Quando o fim (prazer individual) deveria ser um meio para que o fim último (amor uns aos outros) seja o prazer do próximo

Não existe amor maior do que dar a vida por seus amigos. Até porque o próprio Jesus diz:

“Por isso, agora eu lhes dou um novo mandamento: Amem uns aos outros. Assim como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros. Seu amor uns pelos outros PROVARÁ AO MUNDO que são meus discípulos”.
João 13.34–35

A missão é complexa, muitas variáveis no meio do caminho, um mandamento extremamente difícil de ser cumprido, mas é essencialmente necessário que no mínimo passemos a pensar no próximo como a si mesmo. Para que daí possamos solidificar nossa amizade com Jesus e ao menos dizer: Eu sou amigo de Jesus!