Insisto em olhar para o espelho quebrado

Em um momento em que achei que estava no controle, soquei o espelho que estava na parede do meu quarto. No primeiro instante senti uma dor latejar nos ossos, com certeza quebrei alguma coisa, mas tanto faz. Depois veio o sangue e a dor dos cacos de vidro na pele.

O espelho se partiu com pequenos pedaços no meio do lugar onde bati e rachaduras se formaram no seu entorno. Ele estava me dizendo que apesar da minha força ele não ia se quebrar por inteiro em um só golpe. Ele estava me alertando que pra destruí-lo eu ia precisar de um pouco mais que um soco. E eu o deixei vencer.

Olhei pro sangue que escorria dos meus dedos e deixei a dor tomar conta, eu sabia que eu ia precisar ser mais forte do que isso, mas naquele momento eu simplesmente não era capaz. Cheguei a pensar que poderia vencê-lo, mas não nesse momento. Me permitir apenas viver essa dor.

Passei algumas noites sem dormir, culpando a dor lancinante na minha mão direita, me lembrando sempre que foi um golpe forte mas que pelo visto doeu só em mim. O espelho continua na mesma parede. Ele continua aqui no meu quarto, pra me lembrar que essa história ainda não acabou.

Ele continua aqui pra me dizer que eu não tenho forças pra simplesmente me livrar dele. Ele continua aqui pra me lembrar que essa cicatriz na mão direita foi uma vã tentativa de destruí-lo, sem sucesso. Apesar de tudo, ele continua aqui na parede do meu quarto, refletindo uma imagem rachada de mim mesma.

Eu e a minha mania de me apegar a algo que me machucou.