Isso é coisa de mulher

Me peguei pensando sobre como a gente cresce acreditando em tudo que vê, parece que a televisão é uma caixinha mágica que vai nos ensinando as coisas sem que a gente perceba. Lembro de acreditar que o colegial seria a melhor fase da minha vida, eu assisto os filmes e eu vejo aquelas meninas todas muito felizes, tomando café em família pela manhã, saindo pra aula com seus enormes sorrisos e peles perfeitas. Vejo seus armários com fotos de pop stars com sorrisos brancos e chego a rir da ironia de que aquilo seja só, e simplesmente só, ficção.

Eu com certeza posso contar como é a vida de uma estudante de colegial de verdade, e não é nenhum conto de fadas. Eu moro nesse bairro desde que nasci, acordo cedo para ir a escola nos dias em que consigo dormir. Nos dias em que não durmo passo a noite escrevendo, porque só nesse momento sei que existe algo melhor e mora na minha imaginação e critividade.

Às vezes escrever se torna difícil, com todo barulho que tem na vizinhança: cães latindo, bebês chorando. Às vezes chego a acreditar que é tudo coisa da minha cabeça, afinal como é possível a noite silenciosa sobreviver a esse caos? A lua, coitada, deve sonhar com eclipses penumbrais, parciais ou totais, pois só assim ela não seria testemunha de tudo que acontece nesse lugar.

Às cinco da manhã estou vestida, com os livros nas mãos, mochila nas costas, maquiagem no rosto e um sorriso amarelado tentando encarar mais 24 horas. Toda vez que levanto da cama olho para um pequeno espelho na parede do meu quarto e digo pra mim mesma “está tudo bem”, mas tem dias que é difícil acreditar. Nesse horário minha mãe já saiu pra trabalhar, somos só nós duas — na verdade sinto que muitas vezes sou só eu contra o mundo.

Na última semana perdi um pouco de tempo assistindo uns filmes que se reproduzem com insistência nos mesmos canais de sempre: adolescentes que cantam pelos corredores da escola, enquanto outros sofrem bullying por serem gays afeminados, gordos demais, inteligentes demais. Coisa de filme produzido em Hollywood. Ai eu olhei pra vida real e não encontrei nenhum daqueles personagens: a menina inteligente daqui dança samba, descalça, no pátio na hora do intervalo; o menino que joga futebol super bem é um dos mais mal encarados e infelizes que já vi. A pessoa mais popular não é rica, nem famosa, ela simplesmente teve mais namoros que todas as outras garotas, tem a pele de um tom caramelo bem aceito, um cabelo ondulado cheio de brilho e um sorriso tão amarelado e torto quanto o meu.

Ninguém vem de carro pra escola, nem os professores — mas esses têm medo de sofrerem algum dano com trombadinhas arranhando seus carros ou furando seus pneus. É só mais um dia na escola de sempre onde nada anormal acontece. Vez ou outras duas garotas se estapeiam por que uma olhou demais pra outra ou porque estão apaixonadas pelo mesmo cara (que na real, não tá nem ligando pra nenhuma das duas).

Depois dos intervalos as salas de aula sempre têm cheiro de maconha e os professores parecem mais felizes, afinal está quase na hora de sair daquele inferno. As aulas são sempre iguais: algumas professores sequer dão bom dia ao entrar na sala, escrevem um monte de coisa no quadro e manda que a turma copie, sentam-se em suas cadeiras e esperam os intermináveis 30 minutos acabarem.

No mundo normal ninguém se importa de passar a manhã inteira sem cantar, ninguém liga de carregar seus livros e cadernos, ninguém se importa com o fato de que os professores não estão nem ai pra nós. Ninguém liga pro fato de que numa escola com tanta gente negra a maior parte dos funcionários são brancos. Aqui pouco importa a realidade de cada um, a subjetividade de cada um, os direitos de cada um.

Hoje uma pessoa foi até nossa sala, algum representante da secretaria, para dar avisos sobre uma mudança curricular. Ninguém entendeu bem o que está acontecendo, mas parece que a partir do próximo ano nós vamos estudar pra trabalhar: e eu inocente achei que estudava pra me tornar alguém melhor. Nos filmes sempre tem aquela professora que se preocupa com a aluna diferente, que tenta aconselhar e muda todo rumo da história: acho que essa é a única coincidência entre a minha vida e os filmes, eu também tenho uma mentora, uma mulher que me ensina muita coisa — Dona Cátia.

Dona Cátia é minha vizinha e é a única pessoa que eu conheço que fez faculdade. Ela fez um curso que parece importante e vez ou outra ela me conta algumas histórias, histórias de mulheres as quais nunca ouvi falar. Segundo Dona Cátia ninguém vai falar sobre elas na escola, porque por algum motivo difícil de entender as pessoas acham que não vale a pena falar dessas mulheres. Eu escrevi tudo isso pra contar pra você que eu conheci uma mulher que já morreu, mas que se parecem muito comigo: o nome dela é Carolina Maria de Jesus.

A Dona Carolina de Jesus foi uma escritora muito importante e muito forte. Ela escreveu um livro chamado “Quarto de Despejo” e ele foi lido por pessoas do mundo inteiro. Essa mulher escrevia pra aguentar a dor da vida, ela era muito pobre e achou que escrever era um jeito nobre de lutar por uma mudança. Eu também acho que escrever é um ato muito nobre, eu acredito que escrever pode me salvar de todos os pensamentos ruins que me cercam nas noites de insônia.

Assim como ela escrevia sobre as coisas da vida dela, eu posso escrever sobre o que está acontecendo na casa dos meus vizinhos quando ouço os gritos de Jeane enquanto seu marido te bate. Eu posso escrever sobre o pequeno Joaquim chorando enquanto eu pai bêbado grita e xinga por ele ainda não ter tomado banho. Eu posso escrever sobre as mulheres que moram aqui no bairro, como todas são muito parecidas. Certa vez a Dona Cátia tentou me explicar porque todas as mulheres aqui na periferia são parecidas, quase todas tem a pele bem escura e marcas de rugas no rosto, parece que todas elas são parte de uma história que contaram pra mim que já acabou.

Na escola o professor me disse que todas as pessoas negras que vieram pro Brasil trabalhar como escravos foram libertadas e não sofriam mais com as condições degradantes que os senhores os puseram. Eu achava que depois da escravidão os negros tinham ficado bem, mas porque que tanto menino negro morre aqui? Porque que as mulheres criam seus filhos sozinhas? Dona Cátia disse que são as marcas que carregamos séculos depois de terem nos tirado do nosso verdadeiro lar.

Eu passo dias me fazendo perguntas que não parecem se responder: como é que as pessoas deixaram que outros humanos fossem tratados como animais? Não tinha gente de bem naquela época que pudesse impedir que todo esse mal fosse feito? Como pode depois de tanto tempo as pessoas ainda pensarem que podem separar as pessoas por elas serem mais claras ou mais escuras? Porque que os homens olham pra mim diferente do jeito que eles olham pra outras meninas?

Eu posso escrever sobre isso, eu não sabia que escrever pode ajudar a reparar coisas. Eu não sabia que escrever pode ajudar. Talvez eu não sabia muita coisa da vida, talvez eu não saiba muita coisa sobre todas essas pessoas grandes que fizeram grandes coisas pelo mundo. Dona Cátia me disse que um dia eu serei a voz desse lugar abandonado. Já cheguei a pensar que Deus não olha pra gente, ou que na escuridão das noites ele não pode nos ver por sermos pessoas escuras.

Dona Cátia me mostrou mulheres que tinham a cor da pele igual a minha, de um tom de marrom escuro quase preto. Essas mulheres mudaram as coisas e muita gente não fala sobre elas só porque elas são negras. Eu só conheço essas mulheres importantes, talvez existam mais, mas como eu vou saber? São as mulheres que ficam gritando dentro do meu coração palavras de força pra continuar acordando cedo.

Já fazem dois dias que não vejo minha mãe, ela sai cedo e chega tarde. Talvez minha mãe não tenha tempo pra mim porque ela está tentando ser como essas mulheres: ela tá tentando mudar as coisas. Acho que a mamãe tá tentando mudar o mundo e é isso que eu quero fazer também, escrever e fazer o mundo mudar. Assim como a Dona Carolina escreveu e fez as pessoas se preocuparem com as coisas que estavam acontecendo com ela e com pessoas parecidas com ela: pessoas negras e pobres que viviam longe do mundo que parece ser de todos.

Pelo que entendi, parece que é coisa de mulher mudar o mundo.