Na roda II

[são vozes de mulheres pretas]

Afinal de contas o que o simbologismo e as resignificações fizeram com os nossos sentimentos? O que o mundo embranquecido desde a colonização fez com nossos valores, nossa cultura, nossa história, nosso poder? Como no final do dia podemos ter bons sonhos se os pesadelos estão instaurados nas ruas das periferias onde o povo se amontoa tentando fugir dos capitães do mato?

Eu vim aqui pra falar de apropriação cultural, religiosa e histórica, mas eu vi mais que isso. Eu vi que a reparação não está sendo feita, que o povo não se reconhece porque não tem um espelho para o qual olhar, não tem passado pra contar, não tem história, e quando eu digo não tem quero dizer que não nos deixam saber, porque nossa história existe, mas não nos foi dado espaço para conhecê-la.

Eu vim aqui pra falar de turbante, pra falar de conta, pra falar de búzios, pra falar de acarajé, mas o pertencimento é algo que nunca nos foi dado, fomos marginalizados, excluídos, jogados na sarjeta, mandados para os morros e periferias, para que ficássemos longe do que há “de melhor” por ai. Acreditar que as cotas resolvem o problema é ser inocente, continuamos sendo pisados, usados, escravizados, endemonizados, roubados.

Quando tiram de nós o direito de sermos a diáspora e de carregarmos nossa ancestralidade, só estão mais uma vez provando que os séculos de opressão não acabaram. O problema (pra vocês) é que agora nós temos voz, temos (pouco, mas temos) poder, temos espaços, e vamos lutar, para que nada mais seja roubado de nós. Nem a nossa textura capilar, nem a nossa cultura, nem a nossa religiosidade, nem a nossa história, nem o jazz, nem o samba, nem os nossos meninos pretos, nem o nosso turbante.

Nada mais será tirado de nós. Estejam avisados.