A “Lava Jato” e suas repercussões eleitorais

Depois das gravações de conversas entre o ex-presidente Lula e o editor da Carta Capital para definição de pautas, depois da divulgação de que o Movimento Brasil Livre recebia dinheiro de partidos, ficou aquela impressão de que grandes formadores de opinião estariam desmoralizados. Mas dificilmente estes dois veículos de mídia/ativismo possuíam esse poder. É mais fácil dizer que eles em boa parte ajudaram foina organização e confluência dos que já pensavam como eles, e acima de tudo, serviram como material de encabrestamento, para que aqueles que pensam de uma maneira específica possam ter do que “se alimentar”, e não procurem a ponto de encontrar visões que promovam a sua reflexão mais ampla sobre os temas. No fim das contas, as pessoas em geral são as maiores formadoras de opinião umas das outras, e nesse momento, em sua maioria, já tem a sua opinião própria.

Partindo desse pressuposto, de que não haverão grandes mudanças num futuro próximo e definitivamente se ocorrerem não será por quaisquer grampos ou delações, o que pode por vir de repercussão da Lava-Jato? Para se chegar a uma idéia, é impossível deixar de analisar o cenário para os três grandes personagens disso tudo: PT, PMDB e PSDB.

O PT e a militância de esquerda

O que aconteceu durante a Lava-Jato com o PT até então todo mundo já sabe. De Jornal Nacional quase inteiro até pedido de prisão ao Lula, pode-se dizer que a confiança de muitos foi abalada. Pode-se? Talvez não. Uma breve análise de qualquer pesquisa de popularidade feita antes e depois deste período mais crítico para o partido, revelam que pouco do péssimo estado de aprovação do partido e do governo Dilma mudaram, mesmo que para pior. Ou seja, a margem de apoio ao partido não saiu muito abalada. Porque?

Primeiramente, há de se analisar as conjunturas únicas que formam a direita e a esquerda brasileira. A direita no Brasil sempre teve pouca estrutura dentro da sociedade civil. Grupos dela se organizaram em geral nas camadas mais altas da sociedade, como as Tradicional Famílias, Paulista e Mineira, ou por movimentos mais radicais, como o Comando de Caça aos Comunistas. A esquerda, por outro lado, não apenas pelos sindicados, mas também por instituições como a Igreja Católica dos tempos da ditadura, que serviu de espaço de proteção para o livre pensar, teve uma base cidadã sempre muito forte.

O que isso quer dizer? Bem, o que segura o eleitorado petista no campo é sobretudo o trabalho do MST e da pastoral da fé. Era assim antes e segue sendo depois. A direita sequer está nestes campos, e os outros partidos eleitoras de esquerda, em geral, são muito urbanos e por vezes mesmo elitistas. E o Brasil é rural, não urbano, em termos populacionais. Já nos grandes centros urbanos o PT realmente perdeu espaço, nas periferias para as igrejas evangélicas, e nas universidades, para outros partidos da esquerda: PCdoB, PSOL e PSTU. Destes, apenas o primeiro é aliado ao PT, e o último é mesmo a favor da saída de Dilma (mais especificamente, pede por novas eleições diretas). Ainda assim, há gente o bastante para abocanhar um expressivo setor social mesmo em áreas nas quais o PT tem expressão irrisória. Se mesmo partidos pequenos como o PSOL conseguem eleger vereadores com esse público, porque não o PT, que tem uma estrutura milionária?

O efeito-golpe

Não me interessa aqui conjecturar sobre a validade legal da saída de Dilma Roussef. A idéia de que ocorreu um golpe já pegou em uma parcela expressiva da população. Expressiva, porque é raro encontrarmos alguém que não tenha pelo menos um amigo, colega de trabalho ou familiar que lembre a todos do tema e que chame o Temer e seu governo provisório de “golpistas”. Eles estão aí e não são poucos, e mais: muitos deles são os antigos críticos ferrenhos do governo, pela esquerda, que agora se indignaram com uma campanha midiática que se posicionou contra o PT(os motivos deste posicionamento serem válidos ou não aqui não me interessam). Trocando em miúdos, pessoas da esquerda que adotaram a idéia do “inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

O resultado disso é que o governo hoje tem uma narrativa ideológica para contar, a do “golpe que feriu as leis e a própria democracia”. Gostando ou não, há de se admitir de que esta é uma narrativa forte. Enquanto isso, para a oposição, a narrativa de “o PT é corrupto e destruiu o país” só se sustenta quando o PT está no governo ou se o governo seguinte resolver os problemas, o que não parece ser o caso. A história é ingrata com aqueles que não se fazem lembrar constantemente e não mantêm narrativas fortes. Nesse sentido, o impeachment e o prolongamento de seu processo e da cobertura da mídia corporativa, já cada vez mais desacreditada, seja a sobrevida de um partido que estava fadado à morte. E talvez, se o partido for esperto, possa haver até mesmo uma renovação interna convincente ao público, como ocorreu com o homônimo inglês Labour Party, que elegeu o moderno, apesar dos 67 anos de idade, Jeremy Corbyn.

E até mesmo o guru de uma ala da direita brasileira, Olavo de Carvalho, já percebeu isso. A oposição entregou de bandeja ao PT uma narrativa brilhante.

O fator Nordeste

Por fim, mas talvez mais importante, há o fato de o PT ter conquistado uma região do país quase que por completo. Apenas 21 cidades nordestinas tiveram no segundo turno a vitória de Aécio, um percentual de 1,2% do total, em geral por números pouco expressivos, abaixo dos 2%. E é um número que cresceu mesmo durante o governo Dilma. É muita força de vontade pensar que toda esta região mudou suas intenções de voto em tão pouco tempo.

E não é por simplismos do Bolsa Família, apesar de ser muito importante a presença deste programa, que explica essa situação. O governo do PT foi onde se notou o maior crescimento do salário mínimo em relação ao custo de vida, um dado meramente estatístico. E é no nordeste onde mais gente depende do salário mínimo para sobreviver. O resultado é uma melhoria real da qualidade de vida desta população, que simplesmente vota de acordo com o que lhe convêm. Que é o que TODO MUNDO faz. Todos votam de acordo com seus interesses pessoais, por mais que digam estarem votando por uma causa maior ou pelo bem da nação.

E nisto, mais uma vez a narrativa do golpe se encaixa bem. A economia em crise certamente já esfriaria este crescimento que já estava desacelerando, mas não é mais o governo do PT a lidar com esta questão. Foram os golpistas que assumiram e destruíram a vida do nordestino, é a frase perfeita para esta narrativa.

O PMDB e a crise do centrismo brasileiro

Dos três partidos políticos brasileiros, o PMDB é certamente o partido com menos narrativa histórica. Se no passado o partido timidamente se identificava como o partido que fez a oposição institucional da Arena, com o tempo acabou por se tornar apenas um partido com nomes fortes, mas quase sempre compondo com o partido da vez em nível local e nacional.

Porém, com o duro rompimento que rendeu a cabeça de Dilma Roussef e desestabilizou fortemente o PT, o PMDB perde boa parte de seu apoio, e põe em xeque sua boa eleição em diversos estados e mesmo sua larga dominâncias em estados como o Rio de Janeiro. Com isso, perde inclusive bancada parlamentar. O que antes era um posicionamento ao lado dos vencedores, se tornou um posicionamento exclusivamente ao lado do PSDB ou um vôo solo, e nenhuma das situações é muito animadora, num contexto geral. O partido tende seriamente a perder poder e representatividade.

Como se não bastasse isso, ainda existem a denúncias cada vez mais encorpadas de que grandes nomes do PMDB tentaram acabar com a Lava-Jato, faz do partido o grande perdedor de toda essa operação. Se a esquerda se enfurece com o rompimento com Dilma ou com a postura de “entrar no time que esta ganhando”, a direita agora começa a bater no partido, com a revista Veja divulgando em sua capa frases que denunciam fortemente os peemedebistas. Ou seja: o PMDB certamente saiu disso tudo como o grande perdedor.

O PSDB e os 13 anos de oposição

Uma coisa é inegável: ao longo dessas 4 eleições vencidas pelo PT, o PSDB se consolidou como a alternativa à direita e ao PT como um todo. FHC se tornou um símbolo de muitos dos que estavam insatisfeitos, por conta do fim da superinflação durante sua atuação como ministro da fazenda e presidente. A narrativa se tornou tão forte que mesmo Dilma Roussef nos debates passou a não questioná-lo nesse quesito, como que não tentando criar algo maior em torno de um indivíduo. Mas será que o partido sobe colher frutos disso?

Três candidatos enfrentaram o PT após a saída de FHC: Serra, Alkmin e Aécio Neves. Destes, apenas o último conseguiu realmente ameaçar a hegemonia petista, ganhando inclusive cidades que antes haviam seguido por Dilma. Aécio tem mais eloquência no debate e mais energia que os outros dois candidatos, que são o oposto do carisma. Mas foi justamente ele o único nome do partido a ser atacado massivamente durante a Lava-Jato.

As saídas para o partido? Bem, talvez apenas encontrar outro nome de peso, como por exemplo, Sérgio Moro. Ou talvez convencer o público de que há uma mudança real em curso dentro do partido, algo bem mais difícil em uma democracia de partidos recentes como a nossa, e num partido que é 8 anos mais velho que o PT e o PMDB(ambos de 1980 em sua atual concepção).

A “nova política”: REDE, NOVO, PSL, PSC…

O novo partidarismo é um fenômeno mundial que merece ser debatido mais a fundo, e farei isso de forma detalhada no meu próximo texto. Mas cabe aqui algumas considerações sobre a forma como isso vem ocorrendo, à direita e à esquerda, forma esta que pouco se difere.

Diferentemente do resto do mundo, os partidos nascentes ou agora renovados que tentam “pescar” essa parcela descontente da população são muito menos renovados ou novos do que parece. Houve algum tempo atrás uma brincadeira sobre o partido novo, sobre ele já ter “nascido velho”, por agregar, de alguma forma, velhas forças políticas, incluindo banqueiros. Mas a verdade é que não é só ele. Todos estes partidos, e mais outros à esquerda e à direita, parecem querer através de uma bela campanha de marketing transmitir uma imagem de “novo caminho”.

A impressão que fica é que muitos destes acabam por trazer algum apelo para uma parcela mais escolarizada da população, que acredita nos ideais pregados, mas é incapaz de se pensar politicamente para as grandes massas. O PSL, por exemplo, tem participação ativa do Movimento Brasil Livre, cujo líder Kim Kataguiri já declarou que escolas públicas são fábricas de marginais. Já a REDE, que tentou ser uma “versão brasileira” do espanhol Podemos(o próprio comercial mostra isso), enfrentou um problema sério de querer propor o partido antes de propor o movimento de base, algo impossível para esquerda, e acabou apenas agregando alguns poucos movimentos.

Mas em um momento de insatisfação e profunda mudança mundial, é muito provável que estes movimentos mudem internamente e que mesmo outros surjam. As ocupações de escolas de norte a sul do país, por exemplo, já devem formar uma base política em 2020 ou mesmo em 2018, que pode mexer com muita coisa. O crescimento das igrejas evangélicas, caso não diminua, pode ser também um peso político grande.

Previsões para 2018

2018 é o máximo que pode se arriscar uma previsão sem ser do tipo Mãe Diná. E mesmo essa previsão é uma não-previsão: Lula vai para o segundo turno, mas não se sabe com quem: Marina, alguém do PSDB ou com uma remotíssima chance Ciro Gomes. Bolsonaro não tem condições de estabelecer um debate e será demolido, e isso eu posso apostar firmado em cartório.

Quanto ao segundo turno, depende. Depende de quem for enfrentar o Lula, depende da possibilidade de algo completamente novo surgir nas investigações da Lava-Jato, algum furo do Lula ou algo do tipo. Mas se decorrerem sem maiores problemas, e ainda mais, se forem acompanhadas de uma guinada à esquerda da política de capitais como Rio de Janeiro e São Paulo(o que realmente pode ocorrer), dificilmente ele perderá. Por outro lado, se essa guinada for à direita…aí teremos um conflito seríssimo pela frente.

Mas não se irritem os opositores de Lula com a seguinte afirmação: ele sabe falar e debater. Talvez apenas José Serra tenha tido tantos debates eleitorais quanto Lula neste país.


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