Notas introdutórias sobre uma experiência de pesquisa

Antes de tecer as primeiras impressões sobre o que pude observar nessa primeira semana acredito ser necessário introduzir o leitor sobre a função da minha chegada em Buenos Aires. Como o título dessa nota já entrega, minha pesquisa de campo do Mestrado me conduziu até aqui. Para ser mais específico, hoje estou vinculado ao programa de Pós Graduação em Direito e Políticas Públicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) tendo a experiência da Unidade de Pronto Atendimento como objeto de investigação. Nesse momento a questão que surge é: qual a relação da UPA que é uma política pública de saúde implementada pelo Estado do Rio de Janeiro com Buenos Aires? Nesse ponto que começa a nossa conversa. A UPA foi transferida para a Província de Buenos Aires durante a gestão do Governador anterior Daniel Scioli. Aqui o programa adotou a alcunha de Unidad de Pronta Atención (UPA). Portanto, meu objetivo, em linhas gerais é saber como essa política pública chegou até aqui.

Já feita à introdução, em primeiro lugar, não custa lembrar que, não espero que a minha visão seja orientadora e definidora do que quer que seja. O que puder observar e acabo indicando nesse breve relato está associado, única e exclusivamente, a minha visão pessoal: brasileiro; perto dos trinta anos; oriundo da região metropolitana do Rio de Janeiro. Em conseqüência, parece claro que há um limite ao espaço e lugares que fui e ao tempo em que escrevo. Posso vir a ter uma série de novas percepções na medida em interajo e me integro melhor à realidade que estou vivenciando. Nesse sentido, creio que, a despeito do fato de tornar a nota pública, ela me guiará em relação aos meus pensamentos ao final do período. Digo isto, por que recorro ao teclado com o pensamento focado na possibilidade de que no futuro próximo eu reafirme ou desconstrua tudo o que me proponho narrar. Dessa maneira, creio ser essa a parte a mais interessante do exercício.

Não me furto de falar o que pode parecer repetitivo para alguns, mas o foco é alcançar os “rincões” (rs) de onde eu venho. Isso sem nenhuma pretensão de parecer megalomaníaco já que se a leitura parecer atrativa, mesmo para poucos, e os faça passar das primeiras linhas: um dos objetivos já estaria aí alcançado.

Nesse primeiro texto — talvez eu escreva outros (se o volume de trabalho deixar) — meu foco é concentrar — me nas pessoas em especial na “dimensão das relações interpessoais — internacionais”, uma vez que tento passar impressões de como as pessoas como eu, ou seja, “não nacionais”, participam do cotidiano do lugar. Como alguns podem ter conhecimento, há uma significativa influência italiana na vida portenha que pode ser notada desde seu impacto no idioma quanto na alimentação. Para além dessa característica, o que não passou despercebido, e o que é característica de todas as grandes cidades, foi à reunião no espaço de uma série de nacionalidades. A cargo de exemplo, como ocorre no Rio de Janeiro, de modo mais evidente, os chineses aqui também participam da vida econômica bonarense via comércio e também na área da alimentação. No entanto, enquanto no Rio as pastelarias que são a atividade em que podemos observar a dedicação dos chineses, aqui em Buenos Aires a marca de sua participação é destacada nas “pequenas vendas” / mini-mercados.

Para aqueles que já visitaram a cidade, estou na Calle Lima que é uma das ruas paralelas à conhecida Av. 9 de Julho (a maior do mundo). A localização permite que esteja à poucos minutos caminhando dos principais pontos turísticos da cidade como: o Obelisco; Casa Rosada; Praça do Congresso, mas o que quero ressaltar é um dos pontos que me chamou mais atenção nessa primeira semana conhecendo a cidade: a Calle Corrientes. Como apontei anteriormente, o texto tem como foco as pessoas e o espaço, sendo assim, deixo para outra oportunidade o fato dessa rua concentrar uma série de teatros à ponto de ser considerada a BroadWay Argentina. Para essa ocasião, o que gostaria de indicar é que, no momento eu que fui até ela — durante à noite — notei à presença de muitos haitianos e bolivianos participando no comércio de rua com alguns artigos, nesse caso, bem simulares aos vendidos no centro do Rio. Digo isto, baseado nas perguntas que fiz as pessoas com que conversei e uma das questões era sua origem. Pode parecer um comportamento bem indelicado da minha parte mas acho que foi algo natural já que a idéia de reunir essas experiências me ocorreu muito depois.

Para finalizar, outra questão importante que precisamos pensar juntos: a reafirmação da impressão — que já tinha e divido com uma série de pessoas– do fato do Brasil parecer uma ilha na região Latino-americana. Digo isto por que, no geral, os brasileiros costumam consumir muito mais cultura de origem anglo-saxônica ou européia. E já nessa semana, em contato com Colombianos, Peruanos e Argentinos pude perceber que, a despeito de uma série de similaridades político-econômicas temos muito que conhecer sobre a região. E digo em suas diversas esferas: histórico, linguística, cultural. E nesse ponto, faço uma super mea — culpa já que, a despeito de pesquisar a Argentina, conversando com os Colombianos que tive maior contato nessa semana percebi o quanto me falta para poder navegar em “águas profundas” sobre a realidade dos nossos vizinhos para além da leitura acadêmica já que me refiro também dimensão cultural onde poderia destacar a música e a gastronomia. Ou seja, já cheguei com muitas atividades e idéias que preciso considerar seriamente. Até por que “sou apenas um rapaz latino — americano sem dinheiro no banco sem parentes importantes e vindo do interior”. E nessa experiência: “tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhando meu caminho”.

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