Hoje é dia da visibilidade bissexual. O que eu gostaria de dizer às lésbicas?

Escrevo um texto destinado a lésbicas no dia da visibilidade Bissexual porque eu sou lésbica e não me cabe fazer qualquer outra coisa. Queria fazer algumas considerações sobre o tamanho da hostilidade que vi nas redes sociais das quais participo no dia de hoje.

Vou partir do consenso, enquanto feminista radical, de que bifobia enquanto sistema estrutural de manutenção de poder não existe, nem privilégio monossexual ou monossexismo. Posso me alongar sobre isso depois, mas não acredito que seja o momento. Peço que me escutem enquanto mulher lésbica que entende a raiva que vocês possam estar sentindo do que a militância bissexual mainstream (mais comum, majoritária) faz conosco, de nos colocar enquanto opressoras, nos equiparar a homens, nos atribuir um privilégio que não possuimos. Eu entendo, e também senti muita raiva hoje; na raiva cheguei até a curtir algumas das piadas que vi— e me arrependo por isso. Estou escrevendo esse texto direcionado a vocês (e a mim também) porque quero pedir coerência política.

Nós apontamos que mulheres bissexuais (não vou falar de homens aqui por motivos óbvios) são alvo, enquanto grupo, de lesbofobia, e sim, elas são. Elas são oprimidas por se relacionarem também com mulheres. Mas não podemos simplesmente afirmar “você não sofre bifobia, você sofre lesbofobia, então fique quieta”. Isso é extremamente violento e incoerente politicamente. Se quisermos ser coerentes com o que estamos afirmando, ao dizermos que mulheres bissexuais sofrem lesbofobia, estamos dizendo que elas devem lutar ao nosso lado. Cada luta com as suas especificidades, óbvio, mas são lutas que estão muito mais próximas entre si do que a de mulheres bissexuais e homens bissexuais, por exemplo. E não se luta ao lado de quem te hostiliza.

Não adianta apontar que mulheres bissexuais sofrem lesbofobia e dizer que mulheres bissexuais são inerentemente escrotas, fetichizadoras, descuidadas ou lesbofóbicas. Não adianta dizer que uma pessoa que sofre lesbofobia pode ser lesbofóbica sem fazer o recorte de que isso é reprodução. É incoerente. Não faz sentido. Não adianta dizer que mulheres bissexuais sofrem lesbofobia e devem lutar ao nosso lado e fazer chacota no dia da visibilidade bissexual, que infelizmente ainda é misto, mas as representa também. E não adianta falar em estilhaços de opressão. Isso não existe numa análise minimamente material da realidade.

Não estou isentando a militância bissexual de críticas. Eu a critico nos termos em que me atinge e me coloca como possuidora de um poder que não tenho. Eu não vou colocar bandeira de apoio à visibilidade bissexual enquanto essa bandeira se estender a homens bissexuais. O dia em que houver uma bandeira da bissexualidade feminina, e que não represente um movimento que me coloca enquanto opressora, farei isso. O que não quer dizer que até lá é permitido fazer chacota da bissexualidade. O que não quer dizer é que culpa das bissexuais que elas se aliem a um movimento que nos machuca, porque não há saída quando elas não são bem-vindas em nenhum outro lugar.

O que quero pedir com esse texto é que separem as coisas. Critiquemos os aspectos da militância bissexual que desrespeitam a realidade lésbica? Sim, inclusive é importantíssimo que façamos isso. Mas vamos ater as nossas críticas a esse tipo de militância, não de mulheres que estão tentando entender qual seu lugar no mundo e o que sua sexualidade representa. Não façamos chacota de mulheres que dizemos sofrer o mesmo que nós sofremos, ainda que em quantidades e de formas diferentes. Não adianta criticar a militância bissexual e dizer que mulheres bissexuais devem se desatrelar de homens bissexuais quando não as acolhemos desse lado da trincheira.

Não estou isentando também a prática não-cuidadosa de algumas mulheres bissexuais de críticas. Mas não universalizemos a vivência de todo um grupo de mulheres que é diferente e possui suas especificidades. Não esqueçamos que essas mulheres (todas as mulheres) estão sob efeito da heterossexualidade compulsória e que não necessariamente isso é um problema de caráter. E não coloquemos qualquer problema de caráter como inerente a uma sexualidade. Da mesma forma, abaixemos a guarda quando a falta de cuidado for apontada por elas. Somos mulheres e uma relação entre uma mulher bissexual e uma lésbica é uma relação entre duas mulheres cujas inseguranças e anseios estão no mesmo nível de relevância.

E vamos problematizar nossas atitudes também. Esse discurso de que mulheres bissexuais são inerentemente escrotas é porta pra uma série de abusos e ações problemáticas que encontram nele uma justificativa infalível. Isso acontece. Não há nada que justifique ser abusiva com mulheres, independente de sua sexualidade.

Não condenemos mulheres bissexuais ao silêncio. Elas precisam falar de suas especificidades, de suas pautas, das violências que sofrem. E nós precisamos ouvi-las, assim como elas precisam nos ouvir.

PS: Esse não é um texto pedindo calma. Estou pedindo que direcionem sua raiva para coerência política.

Falei mais sobre o que entendo por bifobia, lesbofobia e relações de poder pautadas em sexualidade aqui.
Sobre o discurso anti-mulheres bissexuais e como ele é nocivo também para lésbicas, aqui.
Discorri também sobre preconceitos mútuos entre lésbicas e bissexuais aqui.