Sobre ciclos, evolução e zona de conforto.

Sara Iglesias
Jul 28, 2017 · 4 min read

(amigos, isso não é um texto sobre depressão/ansiedade. se esse for o caso de alguém que chegou aqui, procure ajuda. cvv: 141)

É incrível as coisas que a noite trás pra gente. Eu pelo menos fico mais perceptiva, mais atenta, penso mais rápido e fico mais profundo. Todo mundo fica mais profundo de noite, isso é óbvio. A madrugada é como um abraço caloroso no qual eu nunca gostaria de sair. Poético isso, né? Pois é, eu fiquei tempo demais lendo Drummond e Leminski pra depois ficar me lamentando e lamentando o fato da língua portuguesa não ter recursos o suficiente pra eu colocar meus sentimentos pra fora.

Nunca era culpa minha, diga-se de passagem.

Sempre fui o tipo de pessoa que desperdiça o próprio potencial por preguiça. Isso é totalmente normal, afinal de contas, todo mundo já viveu a fase do “o mundo é uma bosta e vai continuar assim até que eu me torne capaz de fazer ele ficar um pouco mais agradável” mas na verdade eu nunca nem me preocupei em evoluir o suficiente pra me tornar essa pessoa, afinal de contas eu não tinha um prazo estipulado pra isso. Ler textos motivacionais mas nunca colocar nada do que eu aprendi em prática, procrastinar, continuar absorvendo as mesmas energias e ouvir as mesmas músicas sempre me pareceram suficiente. Me colocaram na minha zona de conforto e me davam preguiça. Eu iria continuar naquele ciclo chato e entediante até que algo (ou alguém) me tirasse de lá.

Eu achava que aquilo me fazia bem até eu perceber que na verdade não fazia, mas é aquela coisa: o mundo é uma bosta e vai continuar assim até que eu me torne capaz de fazer ele ficar um pouco mais agradável. Meu potencial desperdiçado, preguiça, cotidiano, aquela coisa de estar cética com tudo, solidão, falta de palavras pra expressar a minha revolta como o Jack Kerouac na época dele. Eu achava que nada disso era culpa minha, e sim do que me cercava, das pessoas que estavam à minha volta (que eu nunca conheci de verdade mas continuava com elas pois estar cercada de pessoas é cool) e do ciclo chato que eu vivia mas não fazia questão de sair.

Enquanto o tempo passava, eu ia esperando as coisas caírem do céu.

E foram se passando mais dias no ciclo chato ao som de Brick by Boring Brick. Tava tão ruim a ponto de eu achar que precisava de férias de mim mesma. O mundo é uma bosta, não é minha culpa eu estar assim porque é só o momento, o melhor ainda tá por vir, cada dia é um dia a menos.

Se não era culpa minha, é de quem? Da lua em gêmeos? Da pomba gira? Do diabo? Da sociedade? Não. A culpa não é de ninguém. Inclusive, já tá na hora do ser humano parar com essa coisa ridícula de sempre colocar a culpa em algum fator externo. Já cansou, chega, já deu. Todo mundo tem seus momentos de confusão e como diria algum autor da internet por aí, a essência da ordem é o próprio caos. O mundo não ia ficar nem 1% mais agradável se eu ficasse procurando alguma coisa pra colocar a culpa ao invés de começar a mudar o que tinha de errado. A minha própria frustração me deu um tapa na cara e me mostrou que eu não precisava permanecer naquele estado.

Todo mundo cai na zona de conforto e ciclos chatos como os que eu vivi foram totalmente necessários pra que eu tomasse coragem de sair deles. As coisas sempre podem ficar melhores sim, mas a tal zona de conforto sempre vai dar um jeito de cegar e fazer a gente achar que tá bom demais e o que resta é se contentar com isso. Bullshit. A questão toda é aprender a perceber o momento em que o ciclo começa a ficar tóxico e te impede de evoluir, de expandir seus horizontes, de viver a sua vida do jeito que você quer. Talvez o estado de espírito não condiz mais com aquele momento, mas a gente acha que tá bom do jeito que tá e o momento que era pra ser tão bom vira um ciclo chato.

(pausa pra dizer que isso pode não estar fazendo muito sentido pra você, mas pra mim tá. então, continuando…)

Eu não quero que isso seja um texto de autoajuda. Não é nem de longe a minha intenção, mas meu relacionamento se tornou um ciclo chato, assim como meu ensino médio, meu círculo social, minha vida, tudo. Isso me desmotivava de uma forma absurda, o ciclo chato era um vampiro e meu sangue era toda a energia positiva que me restava. Sair de casa era o pior pesadelo do mundo. Cara, que época horrível. Sempre tive tendência a ter esses momentos, mas como qualquer ser humano eu tinha medo de mudanças. E era um medo f#dido, juro pra você.

Sair do ciclo chato seja qual for a causa dele é uma forma de evolução e ao mesmo tempo de revolta. Não uma revolta contra o mundo, mas uma revolta nossa contra nós mesmos. E pode ter certeza que essa “revolta” é também uma demonstração de amor próprio. Um jeito de dizer “cala a boca” a qualquer tipo de fator externo que te faça mal, afinal de contas, eles sempre vão existir.

E não, não é pra se lamentar por não ter percebido a existência da sua zona de conforto antes. Minha vó e provavelmente a sua também já disse sobre essa coisa de chorar pelo leite derramado e elas estavam certíssimas.

Ciclos chatos são alertas pra que você acorde. Tá tudo bem em não estar bem, mas não tá tudo bem em continuar mal.

Obrigada à língua portuguesa por todos os recursos a mim investidos.

Sara Iglesias

Written by

Cronista de meio período tentando achar seu lugar no mundo.

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