As mãos do Beto me invadem
Segurou-me pelas mãos tão repentinamente que pareceu-me até um pouco agressivo.
Eu, que já não queria estar ali, olhei a baixo, a desviar meu olhar do seu.
Suas unhas estavam cortadas de um jeito feio, “no toco”. Eu via aquilo com maus olhos. Qual a dificuldade em cuidar das próprias mãos? O que mais ele pensava que, se deixasse no menor tamanho ou intensidade possível, estaria bem? Os estudos de francês? Os capítulos do livro sobre politica econômica que escreve? A limpeza da casa? As flores para sua irmã?
Ele tinha a respiração ofegante e caminhava de um jeito que eu, criticamente, avaliava como “descompensado”.
Com sua mão forte e dedos que a princípio não eram feios mas, “no toco”, me davam agonia, o Beto agora já se agarrara aos meus braços. Eu sentia seu peso em mim. Enquanto caminhávamos, eu sentia-me invadida.
Ficava impaciente a cada passo dele. Não queria mais acompanhá-lo.
Eu não sabia o que aquilo significava, quando começara ou como continuaria.
Eu queria que acabasse… que acabasse o nós e que voltássemos, eu a ser eu, e ele era ele.
Eu cuidava das minhas mãos, até porque sabia que o tocaria em alguma parte do dia. E porque com minhas mãos e unhas, cuido de mim: compro laranjas, faço café, busco livros na biblioteca, compro flores para o meu escritório, coloco gasolina no carro, faço todo o trabalho do banco, cuido dos meus corpetes e, até pouco tempo, levava-lhe café com churros, até sua casa.
Agora, com minhas mãos bem cuidadas, não queria segurar o Beto pelas mãos… dado o contexto aquilo era um descuidado dele com o meu espaço.
Eu, admito, já estou acostumada com desrespeito e já sei a hora de dizer não.
Ou talvez eu não saiba… acho que penso demais. Já sao 11 parágrafos sobre as malditas mãos do Beto. Como pode?
Um dia a mais, e eu não suportarei o Beto. Minha tolerância se acaba.
Por hoje foi só agonia, que passou quando eu cheguei em casa, piquei laranja, fiz café e pus-me no escritório, a finalizar a contabilodade da minha empresa e checar o extrato online pessoal, agora que já troquei de carro e já o abasteci, depois de sair da loja cosmético.