Como te substituir por minha memória

A questão, meu bem, é que eu não vou te esquecer.

Não me ache fraca.

É só que eu não quero.

Lembro-me daquela nossa conversa sobre antas e leões.

Seu sorriso e a vontade de te ver reuniam-se na forma de um leão, que para não ter que enfrentar, eu evitava.

As antas, agora eu te explico melhor, eram minha saudades maiores, que atrapalhavam meu caminho quando me impediam de dizer-lhe não.

Não vou pensar em você. Não quero saber porque demorou a chegar e porque vai-se embora todos os dias. Não saberei o que você tem de tão legal; nem porque veste tão corretamente essa gravata. Vê se pode? Veste-se tão bem e com um único olhar me desconserta. Fico tão desconsertada quanto essa sua barba, perfeita para você.

Ontem vi uma foto sua numa revista jogada aqui em casa.

Você não é famoso, eu sei. É menos popular que eu e olha… eu saio cada vez menos de casa. A foto é de quando eu era sua porque queria ser, mesmo sem nada em troca.

Foi assim durante tempo suficiente para que eu entendesse que daquele jeito não dava e eu queria algo em troca: eu mesma.

Foi nessa ocasião que brigamos. Nunca te odiei porque jamais tive tempo para aprender a te amar. Depois disso você começou a fazer a barba, aboliu a gravata e agora usa terno todos os dias. Acho que não me desconsertei de novo… não até hoje

Agora, olhando para a foto, vejo meu sorriso no seu. Muita coisa mudou, e a lembrança de você ainda está aqui e eu não quero que ela saia. Prefiro uma vida que possa se desconsertar, e você é meu exemplo predileto dessa possibilidade.

Não precisa voltar; eu tenho um bom pedaço de você aqui.