O Beto gostou de me ver chorar

Outono, folhas caídas do lado de fora do carro.

Um pouco de chuva e um pouco de frio

Eu sentava no banco do passageiro e olhava pela janela, fingindo estar atenta à paisagem.

Estávamos eu e o Beto em silêncio, um esperando que o outro tomasse primeiro a palavra.

Ou não, talvez fosse confortável a preguiça de estar ali, calada, com ele.

Crédito Sara Abdo

De tão serena que estava, dos meus olhos deixei cair uma lágrima salgada.

Ouvi sua voz, doce e firme:

“Não chora menina”.

Meu cabelo longo e preto tampou meu rosto enquanto eu abria um leve sorriso, ainda com olhares a baixo.

Ele, que já me dissera sobre meu sorriso bonito, tocou-me e, docemente, tirou a mexa que me tampava o rosto.

“Esse choro só te mostra que eu fiquei bem comigo mesma, de novo” — disse-lhe.

Levantei meu olhar e quando encontrei o seu, pude ver olhos assustados por trás daqueles óculos de armadura Ryban, discretamente exposto — assim como o Beto era, discretamente exibicionista.

“É ou, se eu choro é porque alguma parte de mim deu-se conta que algo não está bem comigo. Acho que a lágrima sai para tirar um peso daqui de dentro. Um novo balanço interno. Faz sentido… cada lágrima é um novo encontro comigo mesma, né?”

E pela primeira vez, ainda me lembro, o surpreendi.

Até aquele momento apenas ele me surpreendia, tão esperto, rápido e gentil que era.

De tão gentil, permitiu-me alcançá-lo. Também tornei-me esperta, sob os olhos dele.

Sorriu

Aos poucos senti sua mão, sem nenhuma aliança, baixando pelo meu rosto e seus lábios se aproximando de mim.

Colou-se ao meu ouvido:

“Teu sorriso me transmite a paz que você já alcança assim, tão rápido” — ele sabia que não era assim tão fácil, que aquela leveza com a qual me encontrava comigo mesma nem sempre fora assim, tão leve .

Envolveu-me em seus braços e beijou-me no rosto, tão delicadamente que não pude compará-lo a nada mais.

Não sei quanto tempo ficamos ali, parados, serenos, tranquilos, juntos.

Importava-me naquele momento é que do lado de lá, onde estavam as folhas que caem no outono, ainda que tudo parecesse igual, tudo nos afetaria de um jeito diferente.

Um jeito que era meu; meu e do Beto

Um jeito cúmplice, porque tinha algo a mais que o amor.

E nós dois sabíamos disso, mesmo sem que nos tivéssemos dito nada.