O gato preto do vizinho teve uma vida só
Restos de um verão qualquer, fim de tarde de domingo, final da faxina de casa.
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O vizinho tem um gato preto que só fica ao lado de orquídeas rosas — um detalhe minimamente ousado na decoração de um varal de uma lavanderia.
O gato preto parece e tá nem ai pro meu olhar invejo sobre ele ali, sentado, tranquilo, vendo roupas penduradas voando segundo a melodia do vento e ele, estável. Um perfeito observador, tão onisciente quando invisível.
Acabei a faxina, estendi a roupa.
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Inicio de um outono qualquer, quarta-feira, final de expediente.
Acho que o gato do vizinho morreu. Percebo que há um mês não o vejo, ainda que eu faça faxina e estenda roupa todos os dias.
As orquídeas devem ter morrido com o gato, porque já não enfeitam o varal.
E eu não tenho tempo de ser onisciente.
Tenho usado batons muito vermelhos e não abro mão disso, portanto não consigo ser invisível.
As roupas voam e não saem do lugar.
E eu ando e saio do lugar.
Queria que o gato visse tudo
Mas pelo jeito nem provar-me que gato tem sete vidas ele vai conseguir.
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Embora murchas, ontem ao menos as orquídeas rosas voltaram para a varanda do vizinho.
E minha máquina de lavar roupa estragou.