Outra Bia para o mesmo Beto.

Dois anos depois eu finalmente encontrei uma mulher tão boa quanto a Bia.

Ou não, talvez não seja tão boa assim. Digo “não tão boa” porque a Bia me cansava, e essa (nova) mulher seria melhor se não me cansasse.

Mas me cansou.

E eu não consegui dormir porque é um cansaço diferente.

Ou não… Não é diferente porque já o conhecia daqueles tempos de Bia, mas é diferente dos outros cansaços porque não me cansa como o trânsito do supermercado até minha casa.

Não me dá sono. Pelo contrário, me dá sede, agilidade, esperteza, leveza.

Já faz um tempo que eu não vejo a Bia, e demorei para dar-me conta disso. Acho que pelo fato de sempre estarmos tão seguros de nossa relação, nos afastamos de nós mesmos. Certeza demais dá nisso: despreparo, susto, percepções atrasadas e, de certo modo, instabilidade.

Mas ai ontem encontrei uma Bia com outro nome. E essa mulher também sustentou meu olhar e não me disse obrigada quando eu lhe abri a porta do carro.

Não me assustei, tampouco senti-me ofendido: a Bia me deixou muito bem treinado. Explico-me: meu queixo já não caia a cada gole que a nova mulher dava na minha taca de vinho, seguido de uma mancha de batom rosa que ela mesma limpava antes de me devolver a taça. Continuei firme e forte também quando ela abria o sorriso que abria a cada musica dos anos 50 que tocava naquele bistrô. Não.. não me deixei enfeitiçar.

Ontem eu me senti mais preparado para lidar com pessoas diferentes de mim.

Eu sabia que a Bia estava bem longe mas a senti ali perto, deixando-me mais confiante, mais tolerante, mais risonho, mais Beto.

Calma! Eu vivo sem a Bia e nem tudo é tão “biático”.

É que eu realmente cresci enquanto estive com a Bia, sabe?

E essa fulana era tão imponente que eu me defini novamente, no ali e no agora.

E foi tão perfeito como era com a Bia.

Agora estou aqui, sem nenhuma das duas.

Um Beto, que é Beto com ou sem Bia — ou qualquer coisa do tipo.