Porque a expectativa é frustrante — explicações de um outono

A vontade que eu tinha de alcançar o calor do sol era tão grande que eu pude compará-la à saudade do andar atrapalhado da Bia.

É o meu segundo outono do ano, e eu já não sei há quantos outonos não vejo a Bia.

Acho que hoje o que mais me faz lembrar desse mulherão é que eu nunca precisei de fato da presença física dela.

Assim como não precisei tocar o sol para senti-lo, integralmente, em cada poro da minha pele.

Quando conheci a Bia havia um pedaço, do qual eu nunca me dera conta, que estava a ser preenchido. E o tal mulherão o fez de uma forma incrível — até porque, uma vez que eu não sabia da existência daquele espaço, eu vivi sem expectativa alguma.

E a Bia me ensinou que expectativas podem até existir, mas não precisamos delas.
Não, a Bia não é assim tão inteligente.

Eu aprendi isso na convivência, a cada vez que a aguardava e ela não aparecia, ou a cada vez que eu dormia e ela me ligava. Era tão perfeito e tão distante do que eu esperava.

E eu não esperava aquele pouco calor do sol da tarde de hoje.

Eu sabia que viveria um novo outono, mas não me lembrei do sol.

Então o senti hoje. Queria abraçá-lo, assim como quis abraçar a Bia tantas vezes. Não o fiz, tal como não abraçava a Bia.

Eu nunca me esqueci da sensação de leveza e excitação quando via a Bia.

O sol não tirou meu frio e não levou o vento. Pelo contrário, completou-me como completa quem está completo a ponto de se permitir (re)completar-se.

É outono: vejo sol, sinto vento, tenho vida.