Solteira sim, sozinha nem tanto

Segui caminhando e de repente dei-me conta que estava sozinha

Era uma verdade tão inegável quanto invisível.

Não era uma sozinha de ser, mas um sozinha de estar

Depois de um dia inteiro de trabalho, minha casa já não é o lugar mais aconchegante.

E eu pude percebê-lo quando guardei as chaves, depois de ter trancado a casa, pela parte de dentro

Não há mais ninguém na casa, a não ser eu e alguns rostos espalhados pelos porta-retratos

Apartamento próprio, beira de alguma praia em Buzios.

Passo tanto tempo no trabalho que às vezes me esqueço como é ficar sozinha

Como é ter que escolher a própria música, fazer chá só pra um ou não dividir o pacote de torrada integral com alguém

Sinto-me ssozinha porque não divido nada ali entre as minhas quatro e afastadas paredes, que davam vista para o mundo compartilhado por meio do mar.

Eu nunca dividi uma ideia perfeita com alguém

às vezes me pergunto se é pretensão, exigência ou falta de opção

Mas sempre, antes que eu alcance uma resposta, preciso buscar meu celular que toca

Eu corro como se não soubesse o que fosse

E é sempre alguém que me chama para dividir uma cama por uma noite, uma viagem de três dias, a gasolina para ir a cidade vizinha ou as compras do fondue do próximo sábado… pra depois que eu sair do escritório, e antes que eu volte para casa.

O celular começa a tocar

Eu, que rapidamente me acostumo com o estado “sozinha”, já começo a me esquecer se é pretensão, exigência ou falta de opção

Eu já troco o tom do batom vermelho e vou pegar a chave, para trancar a casa do lado de fora.