A Esposa (2017) — Björn Runge

“ Penso em minha mãe, que foi submissa ao meu pai a vida toda. Aos 80 anos, ela me disse, ‘sinto que não conquistei nada’. Isso não estava certo. O que eu aprendi nesse papel é que, nós mulheres, nutrimos pessoas. É isso que é esperado de nós. Esperam que nós mulheres tenhamos filhos e nos casemos, tenhamos um marido, se tivermos sorte. Mas temos que encontrar realização pessoal. Seguir nossos sonhos. Nós temos que dizer: eu sou capaz disso e tenho o direito de fazer isso.”

Essas foram as palavras de Glenn Close ao receber o globo de ouro de melhor atriz de filme dramático. Extremamente emocionada, ela marcou a cerimônia com um discurso de peso sobre o apagamento de figuras femininas em detrimento da família e especialmente, da vida de seus parceiros. O filme A Esposa, dirigido pelo sueco Björn Runge, é mais uma replicação da história de milhões e milhões de mulheres no decorrer da história que sufocaram seus talentos e sonhos em detrimento do ego frágil de um homem socialmente aleijado.

Baseado no livro homônimo da escritora Meg Wolitzer, o filme retrata os conflitos internos de Joan Castleman (Glenn Close) diante da conquista do prêmio nobel de literatura por seu marido Joe Castleman (Jonathan Pryce). Ao se prepararem para a cerimônia, Joan começa a rever a história de ambos e segredos do passado ficam cada vez mais difíceis de controlar.

O peso de todo o filme recai sobre os ombros de Glenn Close, que representa perfeitamente o papel de cuidadora em tempo integral de seu marido, algo muito familiar em uma sociedade como a nossa. Nós estamos acostumados a ver mulheres como eternas cuidadoras, e não somente de crianças, mas de namorados, maridos, pais, sogros, avós, doentes em geral etc. É muito comum ouvir coisas do tipo “Fulana não cuida bem do marido” ou “Agora ele tem uma esposa para cuidar dele”, como se o marido ou companheiro fosse um filho que deverá ser assistido de perto. Resquícios de uma cultura que deposita nas costas de meninas e mulheres a carga de cuidar dos outros; um trabalho árduo, sem nenhuma remuneração e muitas vezes nem um pouco agradável.

Os momentos sutis de pura humilhação que a protagonista vive como esposa de um homem mundialmente reconhecido entristecem mais o público a cada segundo, pois tudo é sentido e observado através de seu ponto de vista. Ou ela é totalmente invisibilizada ou é alvo de comentários mesquinhos ou pífios, sem nenhum peso (me fez lembrar do mal estar que os comentários racistas causavam no filme Corra!). Mesmo a bajulação de seu marido parece inadequada e muitas vezes forçada, como os elogios que fazemos a um desenho feio de uma criança.

Outo elemento bem elaborado pelo roteiro é a relação entre Joan, seu marido Joe e o filho David (Max Irons). A ansiedade pela aprovação do pai faz do filho um poço de instabilidade emocional. A arrogância e a condescendência do pai diante dos trabalhos do filho (que almeja ser um grande escritor) expõe a faceta de um bullying familiar sutil, mas que lentamente fragiliza a cabeça de David. Já a figura da mãe lhe transmite leveza e conforto, pois de lá não sai necessidade alguma de aprovação ou inspiração aos seus olhos. A mãe como poço de compreensão e amor e não uma fonte de inspiração e conhecimento é um estereotipo que acompanha a maternidade até os dias de hoje.

Um ponto negativo que pode ser levado em conta é a previsibilidade dos acontecimentos. Durante o primeiros flashbacks que mostram a vida de Joan e Joe quando mais jovens, já dá para ter uma noção de qual caminho o filme irá trilhar e, assim que ele começa a fazê-lo, as cenas começam a cair em um didatismo exagerado, mesmo quando tudo já está bem claro para o público. O final pode frustrar os mais entusiasmados e otimistas, mas consegue fugir da obviedade anterior e oferece uma pequena esperança para uma personagem submetida a um silêncio tumular sobre si própria.

A Esposa é um bom drama (com uma atuação monstruosa da protagonista) sobre mulheres que passam pela vida nutrindo todos, menos a si próprias. É a face mais perversa de um comportamento naturalizado e romantizado há séculos. A estréia é amanhã nos cinemas :)