Anomalisa (2015) — Charlie Kaufman e Duke Johnson

Sara Cerqueira
Aug 31, 2018 · 3 min read

Quero ser John Malkovich (1999), Adaptation (2002) e Brilho Eterno de uma mente sem lembranças (2004). Trabalhos magníficos e nada normativos do diretor Charlie Kaufman, um ponto fora da curva da indústria cinematográfica. Em Anomalisa, vemos o que há de mais puro e honesto da alma humana em uma animação perturbadoramente realista e nada convencional.

O escritor e palestrante motivacional Michael Stone (com a voz de David Thewis) está preso em um limbo existencial. Cercado de pessoas que o admiram, ele afundou em uma solidão dilacerante, vivendo uma existência paliativa. Para palestrar em um evento em Cincinnati, ele se hospeda em um hotel para passar a noite. Lá, ele conhece duas fãs de seu trabalho e acaba se apaixonando por uma delas: Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh). Apaixonar-se aqui é o respiro de vida do protagonista: em um mundo cinzento e assustadoramente igual, uma anomalia surge em seu caminho, mostrando a beleza e os conflitos da singularidade humana.

Falar muito mais além disso seria perigosamente revelador. A experiência em assistir as trivialidades cotidianas e as relações destroçadas que o protagonista possui com outros personagens é a alma dessa animação. Pegar um avião, conversar frivolamente com uma pessoa ao lado, depois pegar um táxi, ouvir o falatório do taxista, depois ir ao hotel, dialogar com o recepcionista e depois subir ao seu quarto. Em tantos outros longa-metragens, esses processos são dispensados, pois são considerados enfadonhos. Aqui, toda e qualquer interação importa para que entendamos o sofrimento de Michael. A técnica de stop-motion (animação feita quadro-a-quadro) empregada na obra reforça a artificialidade dos movimentos e dos diálogos, e os bonecos utilizados pelos diretores carregam semblantes assustadoramente humanos e traços artificias de um corpo sem vida em um mesmo rosto; mais um elemento fantástico que trabalha um mal estar contemporâneo generalizado.

O trabalho de dublagem é uma verdadeira obra-prima. O ator britânico David Thewis dá voz a Michael de maneira tocante, uma interpretação cheia de maneirismos e angústias para fugir de uma realidade opaca e homogênea, patinando até o fim tentando encontrar um resquício de vitalidade. A voz da atriz Jennifer Jason Leigh é um presente à parte; ela transmite à personagem de Lisa uma carga comovente de insegurança, e um desejo de se sentir amada e adulada que faz o coração ficar apertado. Todas as outras vozes, sejam de adultos (homens e mulheres) ou crianças são do ator Tom Noonan, suspendendo o protagonista e o público de uma realidade neurotípica e transportando todos à uma dimensão de imutabilidade de características. Bizarro, mas simbólico.

“Existem, como dissemos, muitos caminhos que podem levar à felicidade, tal como é acessível ao ser humano, mas nenhum que a ela conduza seguramente.” Em O Mal Estar Na Civilização, Freud nos adverte sobre os subterfúgios duvidosos adotados por seres humanos a fim de encontrar a felicidade plena (um objetivo duvidoso por si só). Em Anomalisa, Michael persegue velhos hábitos e tenta retomar o controle de sua vida agarrando-se a elementos externos que o façam voltar a viver, sem nunca olhar a si mesmo com profundidade. A frustração acaba vazando sempre que encontra seus gatilhos. Mais humano que isso, impossível.

Disponível na Netflix, Anomalisa é um drama intimista e divertido do espírito atual. Para os aficionados por animação, uma obra que nunca se viu igual; para os que não curtem muito o gênero, uma bela surpresa.

Sara Cerqueira

Written by

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade