O Presente (2015) — Joel Edgerton
De livros de auto-ajuda às frases motivacionais de Facebook, nós já sabemos que não podemos viver do nosso passado. Os erros cometidos devem ficar para trás, no máximo podem servir como fonte de aprendizagem. Vida que segue, dizem todos os gurus do bem estar. Mas será que segue mesmo? Essa e outras questões são dissecadas magistralmente pelo ator e diretor australiano Joel Edgerton. O que poderia inicialmente parecer mais um stalker movie como tantos outros (com casais felizes que têm suas vidas destruídas por um terceiro indivíduo que os persegue), O Presente subverte as regrinhas de um subgênero já eficiente e nos traz uma experiência inquietante e moralmente dúbia.
O casal Simon (Jason Bateman) e Robyn (Rebecca Hall) vive um recomeço feliz. Depois de passar por traumas pessoais, Simon aceita uma oportunidade de emprego em Los Angeles e os dois se mudam para uma casa grande e aconchegante. Com o aparecimento repentino de um antigo colega de escola de Simon, Gordon (Joel Edgerton), segredos do passado começam a vir à tona e as verdadeiras personalidades de cada um vão surgindo progressivamente.
A maior proeza que Joel Edgerton conseguiu realizar como diretor e roteirista foi conseguir subverter as expectativas do público a cada ato. Como disse antes, ao início, imagina-se com certo tédio um filme típico de perseguição a um casal feliz. Entretanto, a trama desenrola-se desenvolvendo as relações entre todos os personagens. A cada presente dado por Gordon a Simon e Robyn, a cada visita não esperada dele à casa, não traçamos padrões de comportamento apenas do stalker em si, mas também do próprio casal. Problemáticas começam a surgir sem a presença de Gordon, deixando o público desconfiado de tudo e todos e duvidando do que pensa que já sabe.

O cast carrega consigo o peso das descobertas e das desavenças que vão surgindo, não deixado nenhum personagem se sobrepor a outro. Joe Edgerton dá vida a Gordon deixando qualquer maneirismo típico de um stalker de lado, com uma interpretação internalizada e prestes a explodir, mas sem nunca fazê-lo explicitamente. Jason Bateman é um conta-gotas de intenções escusas e gentilezas e Robyn é o centro da sensibilidade e da busca pela justiça. Atormentada por questões pessoais, ela abre mão do bem estar do presente para descobrir as sujeiras de um passado distante. Uma figura nobre e melancólica, que busca saber tudo aquilo que ela sabe que irá trazer sua própria ruína.
Com reflexões sobre bullying, inadequações sociais e paternidade, O Presente é um estudo de caso eficiente (até o ato final, ao menos) das nossas responsabilidades para com o nosso próprio passado e do peso do que fizemos no presente alheio. Está disponível na Netflix!
