Que horas ela volta? (2015) — Anna Muylaert

Sara Cerqueira
Aug 31, 2018 · 3 min read

Uma das maiores surpresas de toda a minha vida de cinéfila foi descobrir o talento de Regina Cazé como atriz. Sempre a vi na televisão em contextos mais cômicos e descontraídos, e vê-la atuando brilhantemente em um drama familiar foi fascinante. Um balde de água fria bem-vindo no meu próprio preconceito.

Em Que horas ela volta?, Val (interpretada por Regina Cazé) é uma empregada doméstica de Recife que trabalha e mora há 13 anos na casa de seus patrões Bárbara (Karine Teles) e José Carlos (Lourenço Mutarelli) no Morumbi, bairro de classe alta em São Paulo. Amorosa, prestativa e solitária, ela cuida do filho de seus patrões, Fábio (Michel Joelsas) como se fosse dela. Quando chega a época do vestibular da Fuvest, sua filha única Jéssica (Camila Márdila) vai para São Paulo para fazer o vestibular e morar com sua mãe. Depois de uma recepção superficialmente calorosa, Jéssica se torna o gatilho para as opressões de classes se mostrarem como realmente são: humilhantes e sorrateiras, travestidas com um manto de “respeito” às hierarquias de trabalho.

“Ela é como se fosse da família, mas precisa saber o seu lugar.” Quem nunca ouviu isso?

O Brasil é o pais que possui a maior população de empregadas domésticas no mundo. São 7 milhões de trabalhadoras (a maioria são mulheres, negras e de classes baixas) que limpam casas e cuidam de filhos de outras pessoas, deixando muitas vezes os seus próprios em casa ou com terceiros. Somente em 2015 foi de fato regulamentada a PEC das Domésticas, garantindo os direitos básicos de toda uma classe que há séculos é subjugada. Uma mudança vergonhosamente nova em uma nação que nunca viu muitos problemas em explorar mão de obra feminina e negra desde a escravatura.

No filme, vemos que as relações que tangem o trabalho doméstico contratado são muito diferentes de outras relações de trabalho dentro de um sistema que explora toda e qualquer mão de obra. Val lava, passa, cozinha e cuida de Fábio. Serve a toda a família e a outros empregados. Fábio enxerga em Val a figura materna que ele nunca teve em sua própria mãe, demandando atenção da personagem nos momentos que quer, mesmo já sendo um adolescente crescido. Sua filha permaneceu em outro estado, sendo criada por outras pessoas, enquanto Val trabalhava, mandando dinheiro para a filha e construindo sua vida solitariamente em SP. Toda a sua energia como indivíduo é direcionada a família para a qual ela trabalha. Sua individualidade é tímida e retraída, sempre muito servil e condescendente com todos. Suas tentativas de viver fora desse círculo parecem sempre fracassar, mesmo com a própria filha. Toda e qualquer sintonia fora da família dos patrões é desconexa com a dela própria.

A chegada de Jéssica é o estopim para desmascarar o manto de naturalidade dos papéis de cada grupo social. Questionadora e sagaz, ela reconhece nas frestas de comentários aparentemente ingênuos todos os preconceitos e humilhações que ela própria e sua mãe são submetidas e bate de frente, causando a ira e a revolta especialmente da patroa de sua mãe, Bárbara. Os conflitos vão ficando cada vez mais intensos, nos mostrando a verdadeira natureza dos sentimentos da família para com Val em decorrência de suas atitudes que também mudam, construindo um arco comovente da personagem.

O longa possui duas cenas antológicas, que devem permanecer na memória do cinema nacional: Uma cena envolvendo o resultado do vestibular e outra uma piscina meio vazia. Ambas constroem o arco de Val de maneira emocionante.

Os personagens masculinos José Carlos e seu filho Fábio são bem mais apagados e sem camadas muito distintas. Os dois estão sempre gravitando ao redor dos conflitos entre as mulheres da trama: Val, Jéssica e a patroa Bárbara. O ambiente doméstico e suas relações familiares e profissionais é a guerra fria da luta de classes entre mulheres que detém privilégios e as que detém a força de trabalho. Mesmo trabalhando fora e tendo um discurso “moderninho” com o filho e o marido, a personagem de Bárbara poda toda e qualquer tentativa de subversão da lógica do privilégio. Uma sacudida no discurso que endossa uma suposta incapacidade feminina de oprimir sua própria classe. Um mito mais velho que andar pra frente.

Que horas ela volta? é um retrato acessível das fundações da sociedade brasileira e do que costumeiramente chamamos de “família tradicional”. Consegue nos entreter com traços de comicidade mas nunca se esquece de imprimir o que tem a dizer sobre nossos dramas sociais. Está disponível no Youtube! :)

Sara Cerqueira

Formada em letras pela USP, redatora freelancer, apaixonada por filmes, livros, games e análise do discurso ❤

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