Tully (2018) — Jason Reitman
A figura materna em uma sociedade como a nossa (fundada em preceitos patriarcais e judaico-cristãos) é associada a características quase que sobrenaturais. Amor incondicional, paciência sem fim, capacidade de anulação da própria personalidade e sufocamento de seus sonhos e objetivos. Uma mãe que ousa não priorizar a vida de seus filhos, mesmo depois de os mesmos terem crescido, é uma anomalia desprovida de “instintos” que toda mulher tem dentro de si.
Graças à Internet e à expansão do movimento feminista online (em blogs, canais do Youtube e páginas em redes sociais) nós conhecemos o lado da maternidade pouco adulado e popularizado nas grandes mídias. Por meio do relato de mães de diferentes idades e contextos, passamos a saber que o trabalho de uma mãe em torno de seu filho tem suas partes detestáveis, e que nenhuma mulher deveria se sentir obrigada a assumir esse papel solitariamente.
Em Tully, o lado mais assustador da maternidade toma a forma dessa narrativa íntima e crua de uma realidade nada romântica e comercial.
Marlo (Charlize Theron) é mãe de dois filhos pequenos e está grávida do terceiro. Presa em rotinas estafantes e repetitivas, seu marido Drew (Ron Livingston) é um pai carinhoso, mas totalmente alheio ao acúmulo de tarefas sobre sua mulher. Prestes a literalmente enlouquecer, seu irmão lhe paga como presente os serviços da babá noturna Tully (Mackenzie Davis), para ajudar nos cuidados com o futuro recém nascido. Durante suas visitas, Marlo passa a reavaliar o que viveu no passado e o que demanda ser vivido agora, em uma realidade totalmente diferente.
Se em Juno (2008), o diretor canadense Jason Reitman decidiu abordar a gestação na adolescência, suas dificuldades e o processo de adoção, aqui ele desnuda o período do puerpério, que segue do parto até a oitava semana de vida do bebê. E é nessa fase que vemos a carga gigantesca e cruel da natureza caindo inteiramente sobre Marlo, quem em seu auge da privação de sono e cuidados com si própria, vive um paralelo íntimo e comovente entre o amor por seu filhos e a raiva de sua atual condição.

A presença de Drew não faz qualquer diferença no cotidiano de Marlo, pois o mesmo não toma para si nenhuma das responsabilidades para com os filhos. Sua rotina permanece inalterada e, longe de ser um vilão que bosteja discursos machistas para a esposa, ele é um homem privilegiado que está totalmente cego à real situação de sua família. Uma visão não estereotipada de um comportamento social e culturalmente estimulado por milênios é importante, pois assim entendemos que o sexismo pode ser perpetrado por pessoas amigáveis e “normais”, que amam seus parceiros e parceiras.
Como mulher, entendo e sinto as pressões sociais e culturais que mulheres sentem desde que nascem até a morte. Mas também sei que mulheres mães estão em um patamar diferente de opressão e sentem pressão para se tornarem aquilo que nenhum ser humano deveria se tornar: um indivíduo imaculado. É nas falhas e nos nossos vícios que encontramos forças para construir uma vida e cuidar de outro ser humano e, enquanto assistimos a Tully, sabemos que assumir a humanidade e pedir ajuda não é apenas “perdoável” quando se é mãe, mas sim necessário.
Com um orçamento relativamente pequeno (12 milhões de dólares), Tully é um filme obrigatório para homens e mulheres, que já sejam pais ou não, compreenderem de forma empática a jornada difícil da maternidade, e como é necessária a consciência coletiva da repartição das responsabilidades com cada criança nascida nesse mundo.
