[desfiguração]

[ fotografia: Sergey Neamoscou. http://neamoscou.tumblr.com/]

As pisadas desconhecidas
por cima do teto de nossas cabeças,
o eco das vozes internas, embriagadas,
ouvidas abafadas através das paredes e corredores,
ressoando a cada virada insone para o lado,
a cada busca por ar — 
um ar outro, um nunca sentido — 
nos lembrando que não é sonho nem realidade,
mas um intervalo sempre 
mal dormido,
mal sonhado, 
mal vivido,
por trás do desejo latente do vácuo de nada 
ou do som quase santificado — porque raro — 
do silêncio que atravessa,

e apesar das horas borradas de sinceros instantes alegres
ou qualquer interação que beira o mergulho do outro, 
ainda seria necessário mais que a pouca dose 
de esperança diária regenerada
pra se chegar no dia que vem
sem sentir que tudo já é tão gasto, esfarrapado, 
pra não mais perceber que em sobriedade,
nem os maiores dos absurdos podem mais causar espanto, 
já que é sentido ter vivido uma vida inteira
num único gole,
num único golpe,
sensação quase dispersa
de vestir a velhice nos poros
sem ao menos encostar na juventude, 
não por ser fugaz, não por querer ter sido,
simplesmente é, justificadamente foi,
intoxicando, esmaecendo, desaparecendo,
na antecipação do entardecer
enquanto tragou-se, o já premeditado, sopro inacabado,
intervalado por devaneios desnorteados,
desesperos engolidos guiando à
rota desviada para uma calmaria solitária.

quando nas tortuosas andanças,
amar em ternura de carne exposta 
e espontânea considerada, 
torna-se uma mera capacidade,
mas principalmente a ausência dela — 
sentir-se incapaz 
por já nem sentir-se mais.

despedaçando o que fora terno,
toda a paixão é desfigurada, 
e o lugar de infinitos ainda não despertos
ocupado pelo olhar de quilômetros não andados — 
os que jamais serão pisados — 
figura-se no universo próprio de terra devastada
em artifícios que tragam sobrevivência. 
das tantas tentativas exasperadas
em categorizar sentidos e explicações nenhuma 
que deixam os rastros do que não pode ser recomposto,
dilui-se ainda sob a vista,
desistindo de emoldurar lembranças,
decisão surgida no caminho
de quem tanto reencontrou nas esquinas
o espelho em ver-se sozinho
e percebeu
que até o tanto que viveu,
tudo fora descaminho.