[pisar em terra de si]

[ilustração: Daehyun Kim. http://www.moonassi.com/]

chega a hora em que desaba
mas permaneço estancando no peito 
a fala, escrevo apenas, 
não há motivos em expelir palavras sonoras 
quando o abismo é surdo,
quando o abismo é dentro,
há morte nos ossos mas há vida nos ligamentos,
assim caminham os formatos de sobrevivência
com toda a sua espetacular maestria 
em esconder fragilidades e fraquezas 
nos contornos endurecidos,
mas sabendo o estado fétido
já apodrecido de seguir fluxos de rotas traçadas,
onde não há altura profunda o bastante
que faça sentir a queda, 
e o constante susto regenerado
que trás corpo seco acostumado 
da margem do existir premeditado

as mãos se foram,
os olhares desviaram,
os abraços desapareceram, 
mas fica o eterno esquecimento
falho de fingir que não há lembrança

as janelas escancaram,
as cortinas somem,
ventania corre de poeira inalada,
da luz que antes desperdiçada
há o sol direto na cara
e também a escuridão 
que sem pedir licença, 
rompe a madrugada indigesta,
desmoronando a geometria da insonia solitária

espaço que ainda é desgaste permanente,
dobrando a saída dos desabrigados
que é afastar-se de si pra enxergar melhor — 
insistente tolice vazia
de previamente saber a aproximação em carcere 
que o movimento de distanciar trás — 
abrigando o abismo de outra vez sempre mesma,
e é nesse momento que chega a hora em que desaba,
pelo instante de convocar ilha interior
sustentando os truques de ainda
ser um pouco humano, 
um tanto insano,
um muito nada,
na fatal sutileza caminhada da busca 
de alguma liberdade inesperada.