1989. Eu morava em um sobrado enorme, a agência de publicidade dos meus pais ocupava a garagem, reformada para ser um estúdio com mesas de luz, quarto de revelação fotográfica, salinha da secretária. No andar de cima ficava a sala decorada propriamente para receber clientes da agência, decoração minimalista ointetista, móveis tubulares pretos com detalhes em vermelho vivo, vidros fumê, sofá de couro. Separando nossa vida do ambiente corporativo, havia um corredor, uma gigantesca e pesada porta de madeira — dali pra frente a casa era nossa.
Eu e meu irmão passávamos o dia juntos, brincando, jogando videogame e assistindo TV. Não podíamos sair de casa, meu pai havia sofrido uma violenta tentativa de assalto logo que nos mudamos para lá — conseguiu desviar de um tiro apontado para sua cabeça, que estilhaçou a janela do lavabo. Os bandidos fugiram, mas deixaram sua marca em nossas vidas. Desde aquela noite em que ouvi o som do tiro, nunca mais tivemos uma infância normal interiorana, na rua. Ficamos isolados dentro de casa por anos, naquela casa enorme — eu, meu irmão e nossa cachorra Lili. Éramos uma gangue, uma produtora de cinema, uma estação de rádio, um programa de comédia, uma escola.
O isolamento não tolheu nossa criatividade, ao contrário, a tornou mais presente e necessária. Criou uma redoma, um mundo único e exclusivo onde um espaço limitado era na verdade o universo inteiro, abrigava florestas, vales, montanhas, praias, bases militares, fazendas, submarinos e naves espaciais.
Eu e meu irmão tínhamos a mesma linguagem — as piadas eram mais que internas, eram nosso idioma. Ríamos sem parar, as memórias são maravilhosas. Envolvem algo surreal pra mim, é presente e eterno. O tempo está ali, parado, existiu e existe. Lembro de tanta coisa, com detalhes que incluem temperatura, luz, cheiros, sons. Lembro de estar sentada no chão, o quarto era coberto com um carpete marrom horrível e áspero, lia meu livro favorito, coletânea de poemas da Cecília Meirelles "Ou isto ou aquilo". O sol sempre muito forte em Ribeirão Preto, brilhava o dia todo quase que com a mesma intensidade. Meu quarto tinha um cheiro de roupa lavada misturado com cheiro de bonecas de plástico aromatizadas com tutti-frutti.
O medo de sair da redoma surgiu aí. Eu tinha esse espaço seguro e extremamente feliz, todos os dias, mesmo frequentando uma escola estadual violenta e depressiva. Minha casa, meu irmão, meus pais, minha cachorra, tudo isso era forte e bonito demais. O mundo externo era estranho, as pessoas, a rua. O perigo de sair pelos portões de ferro, fechados, pintados de verde escuro. Parecia que sempre que me aventurava ali fora, me arrependia. O mundo de dentro era incomparavelmente mais seguro e feliz.
Em 1993 nos mudamos para outra casa, ainda um sobrado, mas a agência dos meus pais ficava no andar de cima. A casa havia ficado menor, estávamos maiores. A vida lá fora precisava existir, não é possível segurar dois pré-adolescentes em casa a não ser que você os amarre. Eu e meu irmão ganhávamos liberdade de andar mais alguns quarteirões, passar um tempo na casa dos vizinhos, brincar de esconde-esconde com os amigos do bairro.
Havia essa liberdade, permeada pela violência que existe em nosso país. Não vou falar de causas sociais. A violência, para um cidadão brasileiro, é um fato da vida. Todos sofremos visualmente e diariamente com ela. Não lemos nos jornais, vemos na esquina, conversamos com ela. Meu irmão conseguiu se desvencilhar de um bando de meninos armados com paus para roubar tênis, a 40 metros de casa. Eu fugi correndo segurando pedaços de tijolo nas mãos de dois moleques de rua que berravam que iam me estuprar, no quarteirão de cima. Uma amiga ficou amarrada trancada em um banheiro com a família, enquanto a sua casa era roubada, a 3 ruas da minha casa. Tentativas seguidas de arrombar as portas e janelas de onde eu vivia. As coisas são assim no Brasil, é normal, é preciso criar uma casca, um costume, não facilitar — andamos olhando para todos os lados, para todos os rostos. Eu estava cercada de violência, numa presença tão forte que anulava a segurança do meu lar. Havia essa sensação de que alguém queria nos fazer mal.
Aos 14 anos meio que explodi, comecei a ficar com raiva — sentia raiva das pessoas, achava todo mundo imbecil. Meus pais trabalhavam demais, mas graças a eles, saímos da escola pública e fomos estudar na escola mais cara da cidade. Aqueles garotos e garotas viviam na redoma, numa redoma maior e mais brilhante que a minha. Tinham dinheiro, iam à Disney, passavam as férias em Trancoso. Eu não gostava deles e eles não gostavam de mim. A rebeldia virou hedonismo, auto-degradação. Eu bebia, comecei a fumar cigarros, depois maconha. Eu só tinha 15 anos. Meu irmão e eu mantínhamos nossa relação, mas era diferente — ele me condenava, meu comportamento. Mas eu não era uma louca, era só uma adolescente sendo idiota, o que é absolutamente normal. Normal, eu sempre repito pra mim mesma.
Aos 15 anos tive coma alcóolico, me colocaram deitada em uma calçada em frente ao bar/balada mais popular da época. Meu pai me viu ainda no chão, suja de sangue, roupas enroladas e rasgadas. Uma ambulância me levou ao hospital, braços cheios de furos de agulha. Acordei na cama, meus pais olhando pra mim como se eu fosse a coisa que eles mais amavam e desprezavam no universo. Nunca mais fui a mesma pra eles e para mim. Acho que comecei a me odiar.
Repeti de ano no colégio, um absurdo para todos que me conheciam. Quem repete o primeiro colegial? Eu repeti. Chorava, me odiava ainda mais. Sempre tive boas notas, meio que tinha esse orgulho de sempre tirar 10 em algumas matérias. Era inaceitável repetir. Era inaceitável me sentir, além de desequilibrada e desprezível, burra. Eu era burra. O que restava?
Em 1998 meus pais se separaram. Meu irmão saiu de casa para fazer faculdade. Minha avó, vivendo há anos com um grave derrame, morreu. Minha cachorra teve hidrocefalia, também morreu. É engraçado até, a desgraceira seguida. Mudei de escola. Sinceramente não me lembro bem dessa época, não é vívida como minha memória de infância. Existem cenas, flashes, sensações — mas não são claras. Eu me lembro do chorar e me sentir sozinha. De querer morrer. De não dormir até o sol aparecer. De fumar muito, muito mais que uma menina de 17 anos deveria fumar. De beber, ficar bêbada, sumir de casa. E lembro das minhas músicas. Disso eu lembro bem, dos cds, das montanhas de fitas cassete. De sair pra dançar, ficar doida, de 'pegar' muitos homens. Foi nessa época que descobri que tinha Transtorno Obsessivo Compulsivo — logo entrei na faculdade. Eu queria ir para São Paulo, ir embora, mas meu estado mental assustava a mim e aos outros. Fiz uma faculdade que não queria mas precisava fazer.
Essa história está longa demais, e ainda estamos a 15 anos de distância dos dias de hoje. Vou parar de escrever. Logo escrevo mais. A história que não tem fim conclusivo, mas tem todo esse começo.