Assim

Quando eu morrer queria desaparecer por completo, no exato momento em que meu coração parasse de bater. Não gostaria de um corpo apodrecendo, nem de pessoas encontrando meu corpo em algum lugar. Cair morta no chão, assim no meio da rua, pessoas gritando, meacudindo, eu com os olhos virados a boca meio aberta, uma mocinha me chacoalhando "fala comigo, senhora, acorda" . Ou morrer sozinha, caída no banheiro — alguém abre a porta e tem a infelicidade de encontrar meu corpo morto, imagine se estiver meio nua, coberta de fezes, já meio pútrida?

E o trauma da pessoa que me encontrar, a última impressão e memória que terá de mim é a de ver meu cadáver? Espero mesmo que não deixe de viver em nenhuma situação extrema, nojenta, ridícula ou violenta.

Mesmo esfaqueada, decapitada, se explodisse — ou morresse dormindo graciosamente — essa sensação de que meu corpo será encontrado o velado me é perturbadora.

Queria desaparecer no ar, feito uma bruma inodora, um vapor gelado igual fumaça de umidificador de ar. Pff. Sumi. No lugar do meu corpo restaria só uma balinha de menta, embrulhada num papelzinho metalizado. Quando abrissem, estaria escrito por dentro do papelzinho

"Sarah morreu aqui".

Dignidade.