De onde vem isso?

Quando você se torna mãe obviamente já observa aquele bebezinho que mal consegue erguer a própria cabeça nos primeiros meses de vida e busca coisas que são tipicamente 'suas' ali. Uma piscada, um jeito de mexer a boca, a cara que ele faz quando caga, enfim, "é meu mesmo isso aqui?" deve ser uma pergunta que o ser humano faz desde quando percebeu que fazia bebês saírem de dentro do próprio corpo.

Eu engravidei inesperadamente, mas não irresponsavelmente. Eu já tinha quase 30 anos e estava de boa com minha vida, não era um momento ruim e o pai é alguém que amo muito. Qualquer mulher que se perceba grávida fica apreensiva, com certo medo, com um certo pânico. Quem não admite se sentir assim está mentindo ou entrou em uma outra dimensão existencial que eu jamais chegarei a vivenciar, um espírito DE LUZ, ALMA GLITTER ARCO-ÍRIS. Voltando à realidade, eu soube que seria uma menina aos 4 meses de gestação, e nesse dia, voltando do médico para o trabalho, parei em uma loja de roupas de bebê. Sim, exatamente o clichê heteronormativo, fui comprar um sapatinho pra menina. Se fosse um menino eu provavelmente compraria um boné da Goodyear porque sou sexista. Mentira ok, eu tenho um menino e a primeira coisa que comprei pra ele não foi um sapato, foram meias, depois explico.

Comprei para minha menina um lindo micro sapatinho estilo boneca, vermelho com um lacinho branco estampado com bolinhas vermelhas. Era tão pequeno e gracioso. Eu amo sapatos, já amei mais (filhos mudam suas prioridades e a altura do seus saltos), no entanto acreditava que minha filha sendo minha mesmo, teria um belo par de sapatos quando saísse do meu ventre. Ela ganhou de amigos e parentes muitos sapatinhos também, todos fofos e lindos, que eu imaginava nos pezinhos dela. Mas a realidade bateu quando minha menina se mostrou relutante a usar qualquer coisa nos pés. Ela arrancava os sapatos, eles voavam longe, esfregava na borda do carrinho até caírem fora de seus pés minúsculos e fofinhos. Meias ela aceitava, mas AI DE QUEM PUSESSE SAPATOS ALI. Eu pensava "como pode ser minha filha essa criança que odeia sapatos, cadê meus genes neste mamífero?".

Minha filhota odiou sapatos por muito tempo e nunca usou o sapatinho vermelho de laço que eu dei a ela, nem os lindos sapatinhos que ganhei de presente. Até um ano de idade, eram meias ou pés peladinhos. Para o segundo filho eu comprei somente meias mesmo, bonitinhas que imitavam tênis all star, porém eram meias. E o moleque usou meias até começar a andar, aí ficou descalço mesmo, feito o animalzinho que ele é (somos animais, ter filhos me faz recordar desse fato diariamente).

Minha filha cresceu e sempre demonstrou muita delicadeza, sempre amorosa e divertida. Sorri e é dramática, não sei bem como explicar sem parecer mais uma mãe encantada com seus herdeiros genéticos. Mas ela é puro drama, daqueles gregos, intensos. Fala muito desde cedo, com 2 anos falava sem parar já, uma língua própria, mas acordava (e acorda) pontualmente 6h da manhã falando e cantando e falando mais um pouco. Eu acordo babando e desnorteada, o pai demora uns 40 minutos para sair do estado letárgico, mas ela, nossa, ela é o sol batendo na sua cara pela fresta da janela.

No primeiro ano escolar, ela demonstrou desenvoltura social inabalável. Nunca chorou de saudade, nem chamou pelo meu nome na escola. A menina chega na maior animação do universo. Ela vem assim em qualquer lugar, animação pura, tudo é ótimo, as pessoas são ótimas, a comida é ótima, "adorei este lugar mamãe pode soltar da minha mão que eu vou ali brincar". E eu, a mãe doida paranóica anti-social cagaço da vida 'MAS ESSA MENINA CHEIA DE CORAGEM É MINHA FILHA ONDE?". Pois é, ela é minha mas eu agradeço que não se parece comigo.

A mudança de país não é fácil, pra mim não envolve dificuldade absurda com a língua ou com a rotina, minha dificuldade é estar longe das pessoas que eu tinha um vínculo forte, diário e massivo. A presença de pessoas queridas sempre me foi necessária, pelo tamanho desse texto é de se notar que eu falo pelos cotovelos, joelhos e outras juntas. Mas minha menina, essa luz que entra pelas frestas, tem uma coragem de desbravar o convívio com os outros seres humanos de uma maneira muito natural e significativa.

Minha filha é forte, chora de saudades dos amigos, mas ao mesmo tempo se mostra contente em estar perto de gente nova. Busco ela na escola todos os dias e as crianças descendo a rua, de mãos dadas com as mães e pais, gritam bem alto pra ela, de longe "SEE YOU TOMORROW LILA, BYE BYE LILA, HEY LILA!" e sem ser mais uma dessas mães bestas, eu não ouço eles gritarem o nome de mais ninguém como gritam o dela. E ela vira, sorri, abana as mãos, manda beijo. Olha pra mim de volta sorrindo "Mamãe, eles gostam de mim!".

Gostam sim filha, você é o sol que entra pelas frestas e mostra que existe um mundo brilhante lá fora.

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