Mais uma vez, de novo, repito

Em 1998 comecei a assinar o provedor Terra, na época da internet discada, pagava 50 reais ao mês com o dinheiro que meu pai dava de pensão. Meus pais se separaram nesse mesmo ano — meu irmão foi embora pra outra cidade estudar, tive que mudar de escola, tive meu primeiro namorado. Tudo em 1998. Em 1998 também descobri a internet, descobri que podia publicar as coisas que escrevia em um endereço só meu. Tudo o que escrevia era inútil e presunçoso (continuo assim), que até então preenchia somente dezenas de cadernos universitários escritos à mão. "Vou publicar essa besteirada anonimamente só pra ver se alguém lê" é a idéia central de todo conteúdo pessoal. E escrevia sobre meu dia. Era um diário a princípio, apenas com algumas anotações engraçadinhas - aquela coisa de quem acha que é libertador ficar rindo da própria desgraça ou a imbecilidade dos outros, como é divertido observar seus semelhantes para ter a certeza que o mundo inteiro é cagado e não só você. E foi nesse mesmo ano cheio de novidades enriquecedoras que fui diagnosticada com TOC/Ansiedade/Pânico ou qualquer uma dessas nomenclaturas que dão nome técnico pra pessoa que se borra de medo de existir. Se eu fosse um bicho na natureza, seria um animalzinho eternamente assustado, alerta, tenso, tremendo e pronto pra sair correndo o mais rápido possível.

Eu caso fosse outro animal

Aí apareceu o Orkut em 2004, nossa, a baboseira sem fim. Quanta merda era possível falar, passar a madrugada rindo com outras pessoas que falavam mais merda ainda. Era uma época de memes noite adentro quando nem chamavam de meme ainda. Conheci um namorado lá, por causa dele mudei pra São Paulo, tomei coragem, esqueci meu TOC pra ser famosa, rica, cosmopolita (mentira, foi por amor que depois acabou). Foi usando a internet que me transformei naquilo que chamavam de BLOGUEIRA, na época era super moderna a 'profissão'. Fui ganhando certo reconhecimento, fiz um blog de humor com as celebridades toscas desse universo riquíssimo brasileiro, comecei a ter muitos leitores, trocentos mil views diários, pessoal das agências de mídias sociais apareceu, "vamos fazer publieditoriais?" — eu fiz - mas aí não gostava de fazer porque associar marca/produto/serviço com um blog idiota sobre celebridades mais idiotas ainda não era lá muito divertido e eu não gostava nem um pouco do resultado. Resolvi não fazer mais (publicidade online, eu ainda era redatora publicitária na vida real).

Reação dos leitores do meu extinto blog

Apareceu gente querendo comprar meu blog, depois apareceu gente querendo levar pra portais, eu fui levando de mala e cuia o meu bloguinho humilde, uma coisa meio 'vamos atrair mais gente pro nosso portal usando seus leitores e seu talento pra ser besta'. Como blogueira apareci na TV algumas vezes, fui entrevistada pela Mari Moon, dei outra entrevista sobre relacionamentos virtuais, depois apareci num programa sobre videogames, me enfiaram até num reality show virtual com blogueiros que não durou uma semana porque ninguém entendeu como funcionava. Lidei com stalkers, com gente louca, com ameaça, com presentes de leitores, com festas de lançamento de produtos para os quais eu nunca fazia review.

Conheci meu marido no Twitter em 2009 e fui trabalhar com mídias sociais porque, nossa, eu conhecia tudo — mas no fim não conhecia nada — finalmente cheguei a ser demitida pela primeira vez na vida. E fui cansando de blog, de escrever, de editar, de responder email de gente doida (tinha muita gente legal mas sempre lembramos dos problemáticos para adicionar drama). Fui viver um pouco fora das redes, namorar direito, trabalhar fora do meio&mensagem.

Engravidei em 2011, tive uma filha, fui ser mãe mãezuda, voltei pro interior e junto comigo voltou meu TOC. Engravidei de novo, tive um menino em 2013 — agora tinha dois filhos pequenos e um TOC enorme pra criar. A única coisa que eu mantive ativa dessas redes sociais foi meu Twitter — eu não sei, nunca tive coragem de matá-lo, tadinho. Matei meu blog faz tempo, fiz tumblrs que ficaram às moscas, tive umas idéias aí, escrevo e não publico nada pra ninguém ler.

Recentemente me mudei de novo, vim para os EUA por causa do trabalho do marido. Saí de Ribeirão Preto pra morar em Nova Iorque, que coisa mais doida. Estou junto dos meus amores — e deixei muito amor lá no Brasil, família, amigos, cachorro (que morreu recentemente, acho que de tristeza).

Ah sim, o TOC veio também, piorou com a saudade. Então uma grande amiga hoje me disse que eu devia voltar a escrever, quem sabe melhora a doideira. Muita gente nesses anos todos me disse que eu deveria voltar a escrever, até o meu psiquiatra recomendou, mas eu não ouvi ninguém porque eu sou teimosa e não gosto mais de fazer isso. Estou penando aqui pra apertar o botão 'publicar'. Ok, vai. Jóia. Não vou escrever sobre minhas experiências como brasileira aqui nem dar dicas de como viver no exterior sem encontrar farinha de mandioca. Vou só exorcizar meu TOC de leve, com umas pinceladas de auto-comiseração e vergonha alheia. Se não gostar, tudo bem, eu estou velha pra tretar e não me importo mais.

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