As 13 razões e as inúmeras emoções

Atenção: contém spoilers. Não leia se você não viu todos os episódios. Se você ainda não viu todos os episódios, não venha me culpar por ter estragado a história para você, afinal, já temos vários culpados aqui.

O título desse texto chega a ser cômico, chega a lembrar aquela música do NxZero que todo mundo cansou de ouvir anos atrás (a saída realmente é fazer valer a pena?). Ou até parece tese de psicologia, mas é o que define minha experiência só assistir 13 Reasons Why.

Comecei a assistir em um sábado à tarde, só parei quando vi o último episódio, segunda feira 1:30 da manhã. Não parei de ver até entender o mínimo detalhe sobre tudo aquilo e preciso confessar que até agora, segunda-feira às sete da noite, a história não saiu de minha mente.

Tem algo especial em fitas cassetes e não, não é somente a nostalgia, ou algo “hipster”. Fitas cassetes, CD’s, discos de vinil, fotografias instantâneas… Todos têm algo em comum: eles são palpáveis. Não seria a mesma coisa se Hannah tivesse gravado áudios no Whatsapp ou feitos vídeos para o YouTube. Cada fita passou pela mão dela, cada fita foi pintada cuidadosamente com o esmalte dela, foi embalada com caixinhas com desenhos que ela fez. É algo bem mais pessoal que um áudio em um celular, que pode ser facilmente compartilhado e “viralizar”. Hannah sabia o que estava fazendo nos mínimos detalhes.

Ser guiada por essa história pela perspectiva de alguém já morto é algo intrigante, talvez seja por isso que meu livro de literatura brasileira favorito é Memórias Póstumas de Brás Cubas (pelo menos o único que não me fez cair no sono de tanto tédio). Apesar de ser uma obra fictícia, é um tanto místico poder ouvir alguém assim, parece até que estamos nos comunicando com o mundo dos mortos. Essa provavelmente é uma das razões pelas quais todos que ouviram as fitas da Hannah se abalaram tanto, principalmente o Clay.

Essa estratégia de não sabermos quem são os personagens das fitas e o que eles fizeram para “matar” a Hannah foi o que me deixou curiosa no primeiro episódio. No segundo, já vi que eu não descansaria até saber de toda a história. E também pelo segundo episódio, eu senti uma tremenda conexão com o Clay.

Apesar de introvertido, socialmente deslocado e com o peso de estar ouvindo as fitas de uma amiga que havia as gravad0 já planejando sua morte, Clay foi o único a confrontar os personagens. Clay foi o único a tentar entender. Clay foi o único a realmente escutar o que a Hannah estava dizendo. Clay foi o único que realmente acreditou nela. Quando ele comenta com Alex sobre as fitas, Alex o questiona algo como: “Você ainda não ouviu todas as fitas? Eu ouvi tudo em uma noite!”. Provavelmente todos ouviram rapidamente, desacreditando tudo o que Hannah dizia, ouviram com pressa para chegarem nas fitas feitas para eles. Clay não. Clay quis ouvir tudo com atenção… Até não querer mais ouví-las. Marcus mentiu quando disse que não ouviu todas as fitas: ou seja, talvez Clay fosse o único que pensou em desistir, o único que realmente sentiu a dor de Hannah pelas fitas.

Como não ficar com o coração quebrado?

O ponto chave da história para mim é o arrependimento, mas há algo que me chama muito a atenção: todos encobriram dois crimes de Bryce porque estavam pensando mais em seu umbigo, sua imagem, sua reputação, seja lá o que for, do que em fazer justiça, em evitar que outra menina fosse estuprada da mesma forma que Jess e Hannah. Jess mentiu para si mesma tentando não acreditar que tinha sido violada e assim evitando que sua família soubesse. Courtney tinha medo de descobrirem que ela era lésbica, apesar de ter pais gays. Justin tinha medo de usarem a foto de Hannah contra ele e do que havia acontecido com a Jess. Sherri tinha medo que descobrissem que ela poderia ter evitado a morte de Jeff, mas não evitou. Zach tinha medo de que descobrissem que Hannah pediu ajuda e ele a ignorou. Tyler tinha medo de ser ainda mais prejudicado com seus hábitos “stalkers”. Alex tinha medo da lista que ele mesmo havia feito para irritar Jess. Marcus tinha medo de que seu abuso no dia do One Dollar Valentine prejudicasse seu status como melhor da classe. Talvez quem tinha menos medo era Ryan, que parecia o mais sensato apesar de ter publicado um poema pessoal sem permissão de Hannah: ele chamava Bryce do que ele realmente era… Um estuprador. Clay cometeu alguns erros, como a vingança contra Tyler, mas ele era quem estava buscando justiça para o que aconteceu com a Hannah.

É engraçado como em casos de suicídio, não há como culpar ninguém a não ser a própria pessoa. Contudo, é possível sim apontar os motivos que as levaram a fazer aquilo. No começo, achei exagerada a reação dos pais de Hannah, culpar a escola por sua filha ter se suicidado? Mas depois percebi que eu estava errada e não podia julgar pais que pensavam que conheciam a filha, mas a história era bem diferente dentro da escola.

O que me leva a outro ponto chave dessa série: a falta de conhecimento dos pais de tudo o que estava acontecendo na vida de seus filhos. Eu sei, eu sei, a adolecência é uma fase estranha, você sente que não pode contar tudo para os seus pais, eles querem saber, mas você acha que eles estão querendo te controlar. Conflitos, castigos, discussões… Enfim, quem já foi adolescente um dia sabe. Poucos pais são inseridos na série, mas podemos ver que, à medida que a série avança, os pais questionam seus filhos sobre os problemas, bom, pelo menos alguns pais.

Os pais de Clay são os mais preocupados, na verdade, a mãe, já que ela desconfia do comportamento quieto de Clay e como podemos ver ele já precisou de acompanhamento psicológico e remédios para depressão antes de tudo acontecer. Mas, por mais que ela tente entender, ela não consegue tirar nada de Clay. Antes do ocorrido, podemos ver os pais da Hannah agindo como qualquer pai de adolescente: nem sempre dando a atenção que eles querem, mas interessados e afetuosos com eles. É até mencionado na série eles têm sorte por ainda estarem ainda juntos e se não me engano o mesmo é dito sobre os pais do Clay. Alex tem um pai policial que “varre a poeira para debaixo do tapete”, como o próprio diz. Contudo, quando o pai de Alex o questiona sobre a briga com Montgomery, ele inverte os papeis: Alex realmente provocou a briga, “mas foi por uma boa causa”, para que ninguém fosse atropelado. Os pais de Tyler e Jess também se preocupam, mas não sabem de nada que os filhos têm enfrentado. Os pais de Courtney e Zach são protetores e acham que seus filhos não têm problema algum, afinal, são “bons garotos”. Já os pais de Bryce, apesar de todo dinheiro, nunca estão em casa. O contraste mais gritante é o ambiente familiar de Justin: ele tem uma mãe que está inserida em mais drama do que todos ali, uma mãe que vê que seu filho foi agredido a ameaçado bem diante de seus olhos e decide não fazer nada, enquanto os outros pais só precisariam de um sinal concreto de que algo estava errado para poderem defender seus filhos.

Por outro lado temos uma escola que também se esquiva do que está acontecendo. E aqui eu não quero dizer que é papel da escola dar educação ou puxão de orelha a ninguém, ainda mais quando não é algo relacionado às matérias escolares. Porém, a escola tenta sem sucesso, talvez com métodos ruins, tirar algo de bom dos alunos. Por exemplo, a tal aula de comunicação, que mais parece uma terapia. Mas nem o recado anônimo, nem as pixações nas paredes, nem o poema na revista, as brigas no refeitório, no baile e no estacionamento, nem mesmo o encontro um pouco confuso de Hannah com o aconselhador tem algum efeito, nem mesmo a escola ter passado por uma morte trágica dias atrás (o acidente de Jeff). E não é inusitado como uma menina que se sentia invisível de repente se torna o principal assunto na escola? Justo quando não há mais maneira de tentar salvá-la?

No começo achei Hannah um pouco sórdida, fria… Quem premeditaria sua própria morte e ainda gravaria fitas para as pessoas que a levaram ao suicídio? Tudo isso por causa de uma foto num escorregador onde só se vê um pouco da calcinha dela? Mas, é claro, eu estava julgando-a como todos julgaram. Até que veio todo o assédio, e os amigos abandonando-a, e as tentativas de amizade sendo frustradas e mais e mais boatos sobre ela circulando… Boatos que não eram verdade. E ninguém acreditaria nela… Não acreditaram nem mesmo quando ela já estava morta. O ápice de toda dor para mim foi obviamente o estupro na jacuzzi. Eu peço a Deus para nunca passar por algo nem parecido, mas eu sinceramente acho que teria sim vontade de me matar ou pelo menos passaria pela minha cabeça simplesmente parar de viver no meu corpo corrompido. Como eu posso julgar a Hannah se a Hannah podia muito bem ser eu?

A Kat tinha razão. “God, no, solid no, Hannah”.

Eu chorei em três partes da série: quando o Clay ouve sua fita e percebe que ele não “matou” a Hannah por algo que ele fez, e sim pelo o que ele não fez; quando a Hannah é estuprada e fica em tanto choque que “morre” ali mesmo, fica sem reação, sem piscar, sendo violentada; e quando os pais da Hannah encontram a filha já morta na banheira. A questão é: se pelo menos a Hannah pudesse ter visto como seus pais se abalaram, se preocuparam, de desesperaram ao vê-la daquela jeito… Se ela tivesse visto a mesma cena que nós vimos, ela não teria se matado.

A série explora muitos assuntos importantes na nossa geração (e nas futuras!): bullying, bullying virtual, preconceito, assédio, essa disputa nada sadia entre garotas por causa de garotos, concenso, estupro, agressão, alcolismo, drogas, justiça, suicídio. Mas a lição maior é que nossos atos têm consequência e nós precisamos lidar com eles a cada momento. Precisamos pedir desculpas, precisamos perdoar, precisamos mudar… Todos os dias. Precisamos entender que não precisamos ser pessoas perfeitas, ninguém é! (Nem mesmo o Clay, que riu durante o assédio, que “se tocou” vendo uma foto vazada sem permissão, que se omitiu e não defendeu a Hannah de mentiras). Não precisamos ser perfeitos, precisamos ser bons uns com os outros. Isso não significa achar que todo mundo é seu amigo, que você precisa gostar de todo mundo, significa tratar todos com respeito, sabendo que não sabemos o que o outro está passando e talvez sua bondade salve a vida de alguém um dia.

E sim, talvez o Clay deveria ter ficado com a Hannah na festa da Jess, talvez ele deveria ter questionado-a sobre o que estava errado, mas isso não seria “desobedecer” uma ordem de Hannah (“get the fuck out!”), não seria forçá-la a fazer ou falar algo…? Não o faria exatamente como os outros que tentaram se aproveitar dela anteriormente? Talvez ele precisasse ter insistido, perguntado o que estava errado, mas não seria o certo.

Eu ainda tenho uns pontos interessantes sobre 13 Reasons Why. Coisas que eu percebi nos detalhes e coisas que me deixam curiosa. Quando Clay conta a Tony que tem uma fita com a confissão de Bryce, Tony diz que não era isso que Hannah queria. Clay responde: pode não ser o que ela queria, mas é o que ela precisa. Isso me faz lembrar a festa de Jess. Hannah disse que não queria Clay ali, mas ela precisava de Clay ali. Ou quando Hannah vai enviar as fitas pelo correio e encontra o bibliotecário daquele grupo de poesia e ele diz que todos sentem falta dela… Ou seja, ela importava para alguém, alguém sentia falta dela, mas isso não foi o suficiente para que ela abortasse o plano, talvez porque não eram pessoas pelas quais ela se importava?

Também reparei quando Clay vê que Hannah cortou o cabelo e ele não menciona nada pra ela até eles se verem novamente em aula… Talvez para demonstrar que suas reações eram contidas por medo e por isso ele se atrasou em dizer que a ama. E quando Clay grita, realizado, ao sair pedalando de bicicleta da casa de Bryce, apesar de ter levado a maior surra — isso provavelmente significa que ele se importava mais em fazer justiça a Hannah do que com seu próprio bem-estar e saúde. Ou quando Alex não obedece às ordens para que ele diminuísse a velocidade do carro quando estavam tentando dar um “susto” no Clay… Isso já mostrava que ele estava abalado ao ponto de tentar se machucar? Assim como ter provocado uma briga?

Provavelmente sim.

E a Hannah tinha um motivo certo para deixar o Clay entre os motivos bem antes do Bryan e depois do Sr. Porter? Assim ela sabia que o Clay não iria entregar as fitas pro Bryan que provavelmente iria sumir com elas?

E pulando para o final que é repleto de coisas que me deixaram criando teorias e teorias na minha mente: Alex deu um tiro em sua cabeça por causa do que aconteceu com Hannah? Por causa das fitas? E o Zach tentou ajudar Alex pelas mensagens, mas acabou perdendo o “timing” e chegando tarde demais? Até pensei que talvez alguém tinha atirado nele. Quando a ambulância apareceu, confesso que achei que era o Clay que havia levado um tiro do Tyler ou quem sabe o Justin tinha dado um tiro no Bryce. E as fotos que o Tyler estava pendurando no laboratório… Ele tirou a de Alex do varal porque ele havia o “defendido” contra Monty. Isso quer dizer que ele fez uma lista de pessoas para matar ou vai fazer que nem a Hannah, mas ao invés de fitas usar as fotos para contar suas razões? (Já falei o quanto eu amo essa nostalgia de fitas cassette, walkman e filme fotográfico 35mm com reveleção manual? Bom, deixo registrado aqui). E qual vai ser a história da Skye nessa segunda temporada? E o que vai acontecer com os pais da Hannah depois de ouvirem as fitas? E alguém vai colocar o Bryce na cadeia ou matar o desgraçado? Digam que sim.

Enfim, se você chegou até aqui, provavelmente está com as mesmas dúvidas e também entendeu que essa série não é o típico drama de high school, apesar de acontecer todos os dias, apesar de não aparecer nas notícias. O que resta é esperar pela segunda temporada (ou ler o livro!) e tentar não mergulhar nesse arrependimento, nesse mar de verbos conjugados no subjetivo e sim notar mais quem está pedindo ajuda ao seu redor, mesmo quando o pedido de socorro é silencioso.

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