Obrigada por ter me tornado mais forte

Não que algum dia eu tenha sido fraca, mas depois de todos aqueles anos ao seu lado, me vejo hoje mais forte. Bem mais forte.

Não te agradeço por ter me tornado mais forte a partir de uma estratégia que me mostraria o quanto eu era relevante para o mundo, para as pessoas e até mesmo para você. Foi exatamente o contrário.

Não sei o tamanho do lucro emocional que você obteve, mas sei que o meu déficit foi imenso.

Obviamente você precisava de mim, mas não de mim. Você precisava de quem eu era, de tudo aquilo que era possível enxergar em mim e que eu tinha, mas que você não tinha. Pelo menos provisoriamente era preciso pegar, tomar, roubar, sugar, ter à todo custo. Assim aconteceu. Era importante secar a fonte. Secar mais uma fonte.

Quantos e quantas você apagou ao longo dos anos? Não me importa a resposta. Mas sempre desconfiei da sua afirmação (no meu intimo não queria acreditar, nem mesmo enxergar) : “QUANDO AS PESSOAS SAEM DA MINHA VIDA, ELAS CRESCEM, SÃO FELIZES.”

Quem me dera ter ouvido e sentido o peso dessa afirmação há anos atrás… bem antes de eu não ter me tornado um acúmulo de destroços, quando ainda apenas haviam algumas poucas rachaduras internas.

Carreguei as culpas que eram minhas de fato, mas também carreguei as culpas que eram suas, as que você jamais assumiria.

Nunca quis carregar nos ombros tal qual o Atlas que foi fadado a carregar o mundo, esse seu corpo adulto em uma mentalidade infantil que em meio a birras e mais birras, vingava-se como quem se vinga da mãe ou do pai que não lhe compra um chocolate no mercado. Mas carreguei esse seu “mundo”. Isso me destruiu.

Não, você não amou. Nenhum sentimento era de fato concreto, verdadeiro e real. Você apenas precisava da certeza de que alguém como eu te amava. Era importante usar todos os artifícios mais sutis para manter essa certeza, até que ela pudesse ser descartada.

Fui me perdendo de mim, perdendo minha autoestima, o amor próprio diminuindo, passei a duvidar da minha sanidade, me comparei com outras pessoas, entristeci, fiquei com medo, não tinha mais a menor ideia do meu real valor perante o mundo.

Eu não precisava de você, mas passei a precisar. Não me orgulhava do verbo “precisar”. E como era duro ver dentro do teu olho que era isso que você queria. Lembro até hoje do seu tom debochado e orgulhoso em me contar vez após vez que alguém um dia chorou na sua frente por você terminar o relacionamento. Quantas e quantas vezes também chorei depois disso e na sua frente…

Autoconfiante, de uma frieza assustadora, seguia você com sua impecável aparência “controlada e de boa”. Perdi a conta das vezes em que disse: “Ninguém te conhece, mas eu sei quem você é!”. Era a única coisa que te incomodava, eu saber quem você é.

Ter essa certeza, saber quem você de fato é, só me trás um benefício: saber quem eu não sou, saber que não sou aquilo que de todas as formas você queria que eu acreditasse.

“Você é muito frágil”, lembra dessa frase que ouvi tantas vezes? Eu nunca a esqueci e ela ecoava dentro da minha cabeça dia e noite. Seu rosto me dizendo essa frase sempre foi assustador. Existia uma crueldade enquanto essa frase era orgulhosamente dita. Eu via a sua alegria em me enxergar abalada, triste e longe de mim.

Lembro de mim antes de você, mas não quero tornar a ser aquela pessoa, mas também não quero ser o que me tornei ao teu lado.

Mas sou grata, estranhamente grata por todos os momentos ruins, angustiantes e desesperadores que vivi ao teu lado. Foram neles que descobri a força imensa que existe dentro de mim. A força que você também enxergava, que te assustava e que por umas vezes dizia ter inveja. Acredito que de sentimento real, esse era o único verdadeiro.

Você foi uma das grandes “escolas” da minha vida, que não guardo nenhuma lembrança boa, mas que também não guardo nenhuma lembrança ruim.

Juntar os pedaços não é fácil, mas são apenas pedaços de uma descrença que por anos tomei como verdade. Você levou, levou muito de mim, mas quem realmente sou, a força interna que verdadeiramente tenho, isso não podia ser levado, só foi abalado e enfraquecido por um tempo.

Já estou de pé.

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